Ao lado do ministro do STF Alexandre de Moraes, ex-presidente Michel Temer acompanha pré-estreia de filme sobre seu governo — Foto: Divulgação/Fernando Cavalcanti Em pré-estreia do documentário “963 Dias”, que retrata a trajetória de Michel Temer na Presidência da República entre 2016 e 2018, o ex-presidente afirmou nesta sexta-feira (26) que a produção foi realizada sem recursos públicos e, questionado por jornalistas, disse que também não teve financiamento do Banco Master, de Daniel Vorcaro. “O [diretor] Bruno Barreto, sequencialmente o [produtor executivo] Elsinho Mouco e o [produtor executivo associado] Maurício Magalhães, trabalharam enormemente nessa produção por mais de dois anos. Foi uma coisa perfeita. E, olha, sem dinheiro público, sem nada. Ninguém foi buscar dinheiro público para fazer esse documentário”, disse. Perguntado em seguida sobre um eventual patrocínio do Master, Temer negou. Reportagem da revista Veja em maio afirmou que uma das cotas do filme foi comprada pelo fundo Moriah Asset, ligado à família de Daniel Vorcaro. A transação ocorreu em 2023, quando o banqueiro ainda não era investigado por suspeitas de crimes financeiros. Na ocasião, em comunicado à imprensa, Mouco confirmou a aquisição, mas reiterou que o Master não estava entre os patrocinadores. O orçamento foi estimado à época em R$ 12 milhões. Vorcaro, dono do extinto banco, foi um dos principais financiadores do “Dark Horse”, filme sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro. O orçamento girou em torno de R$ 65,7 milhões, segundo a produtora Karina Ferreira da Gama. O financiamento ficou conhecido quando vieram à tona as mensagens do senador Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro para Vorcaro. A pré-estreia do filme sobre o governo Temer foi realizada nas salas de cinema do Shopping JK Iguatemi, em São Paulo. Procurada pelo Valor, a assessoria de imprensa da produção não informou, até o momento da publicação deste texto, quais empresas financiaram o filme nem o valor total do investimento. Temer assumiu a Presidência em agosto de 2016, após a aprovação do impeachment da então presidente Dilma Rousseff, de quem era vice. A exibição do “963 Dias” reuniu autoridades e políticos. Estiveram presentes o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes (que foi indicado à Corte por Temer); o ex-presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia (que comandava a Casa durante o governo do ex-presidente); o pré-candidato à Presidência Ronaldo Caiado (PSD), além de ex-ministros do governo Temer. Na coletiva após a exibição, Temer disse que a produção era um "documentário extraordinário" e afirmou que Bruno Barreto conseguiu retratar seu período na Presidência com fidelidade, sem produzir uma obra "chapa-branca". Segundo ele, o filme reconstrói sua trajetória desde a chegada ao Palácio do Planalto até o fim do mandato de forma equilibrada. O ex-presidente afirmou que, depois do lançamento do documentário, passará a ser um "ex-presidente popularista". Ele avaliou que, enquanto esteve no cargo, preferiu adotar medidas que considerava populares, as quais classificou como ações impopulares no momento, mas reconhecidas posteriormente. Vida de Temer, impeachment e Lava-Jato Com aproximadamente 1h45 de duração, “963 Dias” percorre a trajetória política de Temer durante sua passagem pela Presidência entre 2016 e 2018. Além da biografia do ex-presidente, a produção aborda o processo de impeachment de Dilma Rousseff, resgata o mensalão, aborda também os desdobramentos da Operação Lava-Jato, a eleição de Jair Bolsonaro à Presidência em 2018 e os atos de 8 de janeiro de 2023. O documentário reúne mais de 40 entrevistas. Além do próprio Temer, aparecem autoridades como Moraes e o ministro Gilmar Mendes, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), ex-ministros do governo, jornalistas e cientistas políticos. Ao ser perguntado sobre a ausência de representantes do PT, o diretor afirmou que convidou integrantes do partido, entre eles o ex-ministro José Dirceu, mas que recusaram o convite. Na época do impeachment, uma ala expressiva do PT chamou o processo de golpe. Barreto acrescentou que seu interesse era ouvir personagens que contribuíssem para uma reflexão mais ampla sobre o período político, e não apenas reproduzissem discursos ideológicos. Em sua participação, ao comentar a Lava-Jato, Moraes afirmou que as investigações demonstraram a existência de corrupção, mas sustentou que parte dos magistrados utilizou a função com objetivos políticos em vez de se limitar à apuração dos fatos. O ministro do STF não citou nomes, mas durante sua fala foi acompanhada de imagens do senador Sergio Moro, então juiz federal responsável pelos processos da Lava-Jato na Vara Federal de Curitiba. Moro, que sempre rebateu as queixas de parcialidade em sua atuação, foi responsável pela condenação que resultou na prisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Após a eleição de Bolsonaro, em 2018, Moro aceitou ser ministro da Justiça do novo governo. Agora, o senador é pré-candidato ao governo do Paraná. O documentário também dedicou espaço ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), pré-candidato à reeleição. O filme aborda a atuação de Tarcísio no Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), durante o governo Temer. O documentário lembra que, à época, havia críticas de integrantes do governo que o classificavam como “dilmista”, em razão de sua passagem pela direção-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), cargo que ocupou entre 2011 e 2015, durante os governos petistas. Depois, sob Bolsonaro, foi ministro da Infraestrutura. O produtor executivo, Elsinho Mouco, minimizou a possibilidade de o filme ter influência eleitoral, já que o lançamento será durante a campanha. Sobre a referência a Tarcísio, Temer disse apenas que, durante seu governo, nunca teve preconceito contra profissionais que passaram por gestões anteriores. Segundo o ex-presidente, sua única preocupação era escolher pessoas competentes para a administração pública. “Nós não temos preconceito com quem é capaz. Tarcísio é capaz”, afirmou. Lançamento em dez capitais A jornalistas, Elsinho Mouco afirmou que a expectativa é de que o documentário seja lançado em setembro, inicialmente em cerca de dez capitais brasileiras. “O filme ficou pronto ontem [na última quinta-feira (25)]. Literalmente ontem. Ainda tem algumas coisas para substituir, alguns arquivos que não estão em alta resolução. Vocês viram cerca de 97,5% do filme. Ainda há um pequeno refinamento a ser feito”, afirmou. Barreto já dirigiu outros filmes como “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, “O Que É Isso, Companheiro?” (indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional) e “Flores Raras”. Ao ser questionado sobre o grau de liberdade criativa durante a produção, Barreto afirmou que teve total autonomia para desenvolver o roteiro e selecionar os entrevistados. Segundo o diretor, o contrato previa, inclusive, a possibilidade de retirar seu nome do projeto caso houvesse interferência editorial.
Não teve dinheiro público nem do Master, diz Temer sobre filme que retrata seu governo
Pré-estreia de “963 Dias” reúne autoridades em São Paulo para ver documentário com depoimentos de Moraes e Tarcísio






