Gadi Eisenkot, inflexível em questões militares e de segurança, tem chances de se tornar primeiro-ministro após voto de outubro O ex-chefe das Forças Armadas de Israel Gadi Eisenkot em Tel Aviv na quarta-feira (24/06) — Foto: REUTERS/Nir Elias O ex-chefe das Forças Armadas de Israel Gadi Eisenkot, que perdeu um filho em Gaza e defende sua “doutrina Dahiyeh” de esmagar inimigos com força desproporcional, avança nas pesquisas e pode desalojar Benjamin Netanyahu do cargo de primeiro-ministro nas próximas eleições. Eisenkot, de 66 anos, construiu a imagem de alguém de fora da política. Ele é visto como um soldado linha-dura em segurança cuja origem humilde e os sacrifícios familiares contrastam fortemente com as décadas de Netanyahu no poder e os persistentes casos de corrupção envolvendo o atual premiê. Enquanto os israelenses se preparam para votar pela primeira vez desde o trauma do ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023 e das guerras devastadoras, mas inconclusivas, travadas posteriormente por Israel em Gaza, no Líbano e contra o Irã, pesquisas mostram muitos eleitores se voltando contra os governantes. O novo partido político de Eisenkot, Yashar, está a caminho de conquistar a segunda maior bancada no Parlamento, atrás apenas do Likud, de Netanyahu, embora ambos estejam longe de obter maioria, segundo pesquisas israelenses. Mas o Yashar — palavra hebraica que significa “reto” ou “honesto” — pode estar mais bem posicionado do que o Likud para formar uma coalizão governista ao trabalhar com um espectro mais amplo de partidos israelenses. Ainda não há data definida para a eleição, prevista para ocorrer até o fim de outubro, e, no sistema parlamentar israelense, os resultados são difíceis de prever. Outro partido liderado pelo ex-primeiro-ministro Naftali Bennett também aparece como potencial protagonista. Linha-dura em segurança Uma vitória de Eisenkot provavelmente não resultaria em uma mudança significativa na política regional linha-dura de Israel, alvo de críticas no Ocidente durante o governo Netanyahu e fator que contribuiu para a queda da popularidade israelense nos Estados Unidos, seu principal aliado. Integrante por um breve período do gabinete de guerra responsável pelo conflito em Gaza, Eisenkot criticou Netanyahu por, segundo ele, ter cedido fácil demais às exigências dos EUA por um cessar-fogo no Líbano para resolver o conflito com o Irã. Ele considera “irrelevantes” as demandas por um Estado palestino. Como comandante durante a guerra de 2006 contra o Hezbollah, apoiado pelo Irã, no Líbano, Eisenkot desenvolveu uma estratégia de dissuasão baseada em responder a ataques de grupos militantes com destruição avassaladora, inclusive de infraestrutura civil em áreas utilizadas por esses grupos. A abordagem foi aplicada durante os intensos bombardeios ao bairro de Dahiyeh, nos subúrbios ao sul de Beirute, reduto do Hezbollah. Em uma conferência nesta semana, Eisenkot afirmou ter implementado essa “doutrina Dahiyeh” com o que ele próprio chamou de “ataques desproporcionais”. Ele acrescentou que os militares deveriam ter liberdade para atacar o Hezbollah em qualquer ponto do Líbano e afirmou que o cessar-fogo exigido pelo presidente dos EUA, Donald Trump, criou uma “realidade insana” que limita a atuação das forças israelenses. Essa posição inflexível em relação às guerras em Gaza, no Líbano e contra o Irã, somada às críticas à estratégia geral de Netanyahu e à condução da relação com Trump, é popular em Israel, apesar dos custos para as relações do país com aliados ocidentais críticos. Origem humilde Filho de imigrantes marroquinos, Eisenkot vem conquistando apoio entre eleitores judeus de origem do Oriente Médio e do Norte da África, conhecidos como mizrahis, grupo que historicamente constitui uma importante base eleitoral de Netanyahu. Ascendendo na hierarquia das Forças de Defesa de Israel, nas quais a maioria dos cidadãos é obrigada a prestar serviço militar, Eisenkot foi um dos principais comandantes na guerra contra o Hezbollah em 2006 e ocupou o cargo de chefe do Estado-Maior entre 2015 e 2019. Gadi abraça o presidente de Israel, Isaac Herzorg, no enterro do filho Gal em dezembro de 2023 — Foto: REUTERS/Clodagh Kilcoyne Essa trajetória familiar e sua longa experiência militar já lhe garantiam fortes credenciais em segurança — altamente valorizadas pelos israelenses — antes mesmo da morte de seu filho, Gal Meir, de 25 anos, morto em combate em Gaza, em dezembro de 2023. Dois de seus sobrinhos também morreram na guerra. Essas perdas repercutiram profundamente em Israel após quase três anos de conflito, durante os quais centenas de soldados israelenses morreram. “Ele passa a imagem de uma pessoa genuína”, disse Eitan Shamir, diretor do Centro Begin-Sadat de Estudos Estratégicos, da Universidade Bar-Ilan. “É muito simpático, não é um político tradicional, é uma pessoa comum, alguém que poderia ser seu vizinho ou colega de trabalho. Não é excessivamente sofisticado. As pessoas sentem que conseguem se identificar com ele.” O campo político de Netanyahu tem explorado essas características para questionar se Eisenkot possui fluência suficiente em inglês para manter as relações estratégicas do país com seus aliados ocidentais. Em um ambiente político que se deslocou cada vez mais para a direita nas últimas décadas, Eisenkot é visto como um centrista, aberto a integrar uma coalizão com partidos de esquerda e favorável ao recrutamento militar tanto de árabes quanto de judeus ultraortodoxos, com apenas exceções limitadas. Ele ingressou na política há apenas quatro anos, conquistando uma cadeira no Parlamento em 2022 como independente. Após o ataque de 7 de outubro, integrou por oito meses o gabinete de guerra, antes de deixar o cargo criticando a liderança de Netanyahu. Seu novo partido entra na reta de preparação para as eleições com forte impulso após avançar nas pesquisas nas últimas semanas. Mas Tamar Hermann, cientista política israelense e pesquisadora sênior do Instituto para a Democracia de Israel, afirmou que Netanyahu ainda pode reagir. “Netanyahu é, de certa forma, um Houdini da política; ele consegue encontrar uma saída mesmo das situações mais inimagináveis”, disse Hermann.