A palavra "caos" é uma das mais poderosas do vocabulário. Pode também se desmoralizar facilmente, quando usada a propósito de tudo e a todo momento. O mesmo vale para a palavra fascismo, quando designa fenômenos análogos, mas não necessariamente fascistas.

No caso de "Anatomia do Caos", documentário de Dandara Ferreira, seu título se sustenta melhor quando fala em "anatomia" do que quando agita a ideia de "caos". Ali as imagens procuram, metodicamente, demonstrar que e como o governo Bolsonaro trabalhou para sabotar o tratamento médico convencional durante a Covid-19 e, com isso, colocar o Brasil em situação deprimente no ranking da pandemia.

São fatos essencialmente levantados durante uma CPI do Senado em que passam celebridades, hoje devidamente obscuras, como a dra. Nise Yamaguchi, incapaz de responder aos questionamentos médicos, o deputado Osmar Terra e o ex-ministro da Saúde, hoje deputado federal, general Eduardo Pazuello.

Aceitemos: por uma vez, uma CPI não teve a cara do "Circo Parlamentar de Inquérito" de quase sempre. Ainda assim, o filme acredita demais no jogo parlamentar, nas palavras ao vento lançadas daqui e dali, e, não raro, cede e mimetiza a estética das reportagens de TV —incluindo apelos sentimentais, depoimentos chorosos, imagens de covas sendo abertas.