A Polícia Federal (PF) deflagrou ontem a segunda fase da Operação Disclosure, que investiga a fraude bilionária na Americanas. Desta vez, alcançou a mais alta esfera de comando da varejista, tendo Carlos Alberto Sicupira, um dos acionistas de referência da companhia e ex-conselheiro, entre os nomes que integram a ação, segundo o colunista do GLOBO Lauro Jardim. Ao todo, a operação inclui nove mandados de busca e apreensão, incluindo buscas pessoais, sendo três na cidade do Rio de Janeiro e as demais em São Paulo. Executivos de bancos também são alvo. A operação tem apoio do Ministério Público Federal (MPF) e da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A 10ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro também determinou o sequestro de bens e valores em nome dos investigados até o limite de R$ 54 bilhões, que seria a soma equivalente à fraude, segundo informações da PF. Os dados oficiais e conhecidos até aqui, porém, são de que a fraude somou R$ 25 bilhões. O escândalo eclodiu em janeiro de 2023, levando a varejista a entrar em recuperação judicial com R$ 43 bilhões em dívidas. De acordo com informações da Polícia Federal do Rio de Janeiro, as investigações revelaram “fortes indícios da prática de crimes de manipulação de mercado e associação criminosa”. A PF destacou que as apurações apontam que os suspeitos “teriam conhecimento de supostas fraudes contábeis praticadas ao longo de anos, relacionadas a operações de risco sacado e a contratos de verba de propaganda cooperada (VPC) supostamente contabilizados sem lastro econômico”. O rombo de R$ 25,3 bilhões na Americanas foi causado por fraudes e manobras contábeis usadas de forma sistemática nos balanços da varejista . A Americanas inflava seu lucro usando contratos fictícios de verba de propaganda cooperada (VCP) com fornecedores, que atrelam metas de venda a descontos no pagamento por mercadorias. Veja fotos das Lojas Americanas ao longo dos anos 1 de 11 Lojas Americanas: empresa foi fundada em 1929, na cidade de Niterói, no então estado da Guanabara, pelos empresários Max Landesmann (da Áustria), John Lee, Glen Matson, James Marshall e Batson Borger (dos Estados Unidos). — Foto: Reprodução 2 de 11 Em 1982, os principais acionistas do Banco Garantia, Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, entraram na composição acionária de Lojas Americanas como controladores. — Foto: Reprodução X de 11 Publicidade 11 fotos 3 de 11 Lojas Americanas na Rua Marechal Deodoro, em Juiz de Fora, em outubro de 1969. — Foto: Reprodução 4 de 11 Lojas Americanas na Rua Halfeld, em Juiz de Fora, julho de 1973. — Foto: Reprodução X de 11 Publicidade 5 de 11 Clientes em uma das lojas no Rio, em 1979. — Foto: Anibal Philot / Agência O Globo 6 de 11 Clientes em uma das Lojas Americanas no Rio, em 1979 — Foto: Anibal Philot / Agência O Globo X de 11 Publicidade 7 de 11 Fachada de uma loja em 1987 — Foto: Alexandre França / Agência 8 de 11 Evolução da identidade visual da marca — Foto: Reprodução X de 11 Publicidade 9 de 11 Frente de uma loja em 1991. — Foto: Ricardo Mello 10 de 11 Loja Americanas no Plaza Shopping, em Niterói, em 2006. — Foto: Letícia Pontual X de 11 Publicidade 11 de 11 Lojas Americanas se encontra em meio a uma crise com rombo de 20 bilhões de reais — Foto: Hermes de Paula Empresa com quase um século de existência está sob crise de R$ 20 bilhões em rombo financeiro Em paralelo, usava o risco sacado, outra prática comum no varejo, para maquiar os resultados. Trata-se de uma triangulação no financiamento de fornecedores, na qual a varejista antecipa aos parceiros crédito que eles têm a receber via bancos. A operação realizada ontem toma por base as delações premiadas de três ex-diretores da Americanas, Marcelo Nunes, Fabio Abrate e Flávia Carneiro, a quebra de sigilo de dados da varejista e depoimentos colhidos ao longo do último par de anos pela PF e pelo MPF, de acordo com Lauro Jardim. Delação premiada embasou a investigação da PF contra Americanas: veja o que se sabe sobre operação Ainda segundo o colunista, foram alvo desta fase da Disclosure três nomes da companhia: Carlos Alberto Sicupira, um dos acionistas de referência da Americanas; Paulo Alberto Lemann, ex-integrante do conselho e filho de Jorge Paulo Lemann (também acionista de referência da varejista); Eduardo Saggioro, ex-integrante do colegiado. Os demais seriam José Rudge, co-head de Infraestrutura e Energia do Itaú BBA; Gustavo Balassiano, ex-executivo do Itaú; Carlos Henrique Villela Pedras, diretor executivo do Bradesco; Sergio Rial, ex-presidente do Santander e ex-CEO da Americanas; André Almeida, vice-presidente executivo do Santander; e Alexandre Abdo, executivo do banco. A Americanas não é alvo da operação deflagrada ontem. E informou que seguirá colaborando com as investigações, sendo “a maior interessada no esclarecimento dos fatos”. Anatomia da fraude contábil na Americanas — Foto: Editoria de Arte Ontem, as ações da companhia recuaram 5,37%, a R$ 4,05. Depois do escândalo da fraude e do tombo nos resultado, os papéis da Americanas chegaram a valer poucos centavos, tendo levado ao reagrupamento das ações em 2024. Acionistas ‘surpreendidos’ Eles argumentam que as investigações conduzidas pela PF e pelo MPF, incluindo aquelas com base em acordos de delação premiada, “indicam que o Conselho de Administração e os acionistas de referência foram continuamente enganados e induzidos a erro pela antiga diretoria da companhia”. Em paralelo, dizem entender que a Operação Disclosure segue o rito de andamento das apurações e reafirmaram o compromisso de colaborar com as autoridades para o esclarecimento dos fatos, “como vêm fazendo desde 11 de janeiro de 2023, quando tiveram conhecimento das fraudes contábeis”. A reação dos bancos A inclusão de executivos de bancos na operação trouxe preocupação às instituições financeiras, diz um executivo do setor. É a primeira vez no curso das investigações que pessoas ligadas aos credores da Americanas entram na rota de ação da PF por suposto conhecimento e envolvimento nas fraudes. Os bancos, em notas, afirmaram que vão contribuir com as investigações. Outro ponto, continua essa fonte, é que a responsabilidade pela concessão do crédito é diluída, pois há um comitê para fazer a liberação. E se os balanços da Americanas não apontaram problemas — embora fossem auditados por consultorias independentes —, isso pode ter ajudado esses executivos a minimizar a situação da empresa. Como no risco sacado a própria empresa passa a ser devedora do banco, nesse tipo de relação conta muito o lado pessoal entre o controlador da companhia e a instituição financeira, diz o executivo. Em suas delações à Justiça, os ex-executivos da Americanas afirmaram que a colaboração dos bancos foi fundamental para a perpetuação das fraudes. E que, mesmo com suspeitas, os bancos aceitaram explicações falsas da varejista e não questionaram de forma rigorosa os dados contábeis. Em nota, o Itaú lembra que não é investigado e frisa que colabora com as autoridades desde 2023, prestando todas as informações. Diz ainda que “sofreu perdas bilionárias com o episódio, já comprovou a lisura de sua conduta e da atuação de seus funcionários por meio de documentos apresentados à Justiça”. E reforça que “recusou pedidos da antiga gestão da Americanas para alterar cartas de circularização de balanços”. O Santander informou que “está ao lado das partes prejudicadas na apuração das fraudes envolvendo a Americanas e segue colaborando com as autoridades”. O Bradesco disse que acompanha o caso e “está à disposição das autoridades”. Procurada, a CVM informou que não comenta investigações e inquéritos em andamento. A defesa de Sergio Rial não respondeu.