Diretor que deu primeira oportunidade ao ator, aos 12 anos, relembra trabalho em plena Retomada do cinema brasileiro 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Silvio Guindane e Priscila Assum em cena de 'Como nascem os anjos', de Murilo Salles — Foto: Divulgação Silvio Guindane foi uma aparição na minha vida. Corta. Teste de elenco para "Como nascem os anjos" (1996). Produtor, Sergio Luz. Primeiro dia. Era o teste com a Priscila Assum. A mãe de Priscila era diretora de uma escola, e não podia acompanhar a filha. A lei obriga menores estarem acompanhados por adultos. A mãe de Silvio Guindane, era amiga da mãe de Priscila. Ela perguntou se podia levar a filha no teste. E assim foi, o primeiro teste do filme foi com Priscila Assum. E acompanhando a mãe e amiga, estava Silvio. O Sergio percebeu que o menino era muito gaiato e falador. Convidou-o para fazer o teste do Japa. Foi ali mesmo, no mesmo dia, na mesma hora. Quando conto essa história, as pessoas acham que estou mentindo, mas é a pura verdade: no primeiro teste, no primeiro dia de teste, encontramos a Priscila e o Silvio, protagonistas do filme. O resto, está em “Como nascem os anjos”. A trinca, Silvio, Priscila e André Mattos, foi uma dádiva dos céus. E o Silvio, além de muito inteligente e talentoso, é muito engraçado, muito gaiato. Era um garoto! Tenho uma história, que diz muito sobre a personalidade de Silvio. Estávamos filmando e tudo correndo a mil maravilhas, os três dando show. A equipe se emocionava. Foram algumas vezes aplaudidos ao vivo no set. "Anjos" não foi meu primeiro filme, tinha uma careira consolidada como diretor de fotografia e era o terceiro filme que dirigia. Nunca antes tinha visto ator ser aplaudido em cena no set. Hoje em dia acontece, mas até então nunca. Tudo corria a mil maravilhas, até que chegou o dia que teria que filmar a cena da morte dos dois anjos. Para quem não viu o filme aqui vai um spoiler, a narrativa do filme é conduzida pela ação entre os dois personagens principais, Branquinha e Japa. Priscila e Silvio. Bem, o filme termina a partir da cena em que os dois acabam por se matar, absurdamente, meio sem querer. Essa era a cena que iríamos filmar no dia seguinte, uma quarta feira, a cena da morte do Japa. Uma hora da manhã, toca meu telefone, era a mãe do Silvio, dizendo-se desesperada, porque Silvio não parava de chorar porque o Japa ia morrer. E me pedia para conversar com ele. Meu Deus! Estava dormindo e dei de cara com essa tempestade emocional. Silvio estava desconsolado ao telefone, falava magoado do fundo do coração que o Japa ia morrer. "O Japa vai morrer!", ele repetia. Fiquei paralisado, o que dizer? Mas lembrei que na quinta-feira iríamos filmar novamente com o Japa vivo. E foi por aí... "O Japa vai morrer, Silvio, mas é apenas uma das cenas! Ele morre amanhã, mas estará vivo em você no dia seguinte. Você vai trazê-lo a vida novamente no set. Em você. E você eternizará o Japa. Ele será eterno, Silvio, graças a você. Um dia após o outro a vida do Japa virá do fundo do seu coração e da sua mente!", disse. Ele ficou um tempo em silencio, ainda soluçando. Eu arriscando perguntei, "você entendeu que o Japa vai entrar no set e existir novamente na quinta-feira?". Ele, com voz muito embargada, apenas disse sim. Entregou o telefone para a mãe e foi para o quarto. Eu pedi para ela ficar um pouco com ele, e se precisasse eu iria até a casa deles. 10 minutos depois ela me ligou para dizer que ele dormia profundamente. No dia seguinte, Silvio Guindane entrou no set, e performou uma cena que levou o Cine Brasília a loucura, juntamente com a Priscila. Era o Festival de Brasília de 1996. A sala repleta. Muita gente jovem. Terminou o filme, a sala veio a baixo, aplausos como nunca vi na vida. As pessoas cercaram o Silvio a Priscila e a mim que estava ao lado deles, e formaram uma montanha de seres humanos agarrando em torno de nós, emocionados. Fiquei até temeroso, mas apenas nos abraçavam e nos envolviam, em delírio. Numa cena inesquecível. Isso só foi possível por causa do Silvio e da Priscila, apesar de todo o elenco do filme estar magnífico. Silvio entrou na minha vida. Meu novo filme que ainda vai estrear, "A vida de cada um", foi o Silvio que arrancou de mim a vontade de fazê-lo. Mas o Silvio está distante. Vive a glória de sua vida, eu fico aqui, um senhorzinho, que o amo e torço para que tudo dê certo, tal como um pai. Te amo, Silvio Guindane. *Murilo Salles é diretor e roteirista conhecido por filmes como "Como nascem os anjos" e "Nome próprio"
Artigo: 'Silvio Guindane foi uma aparição na minha vida', lembra Murilo Salles 30 anos após 'Como nascem os anjos'
Diretor que deu primeira oportunidade ao ator, aos 12 anos, relembra trabalho em plena Retomada do cinema brasileiro






