Dividindo-se entre projetos como cineasta e ator, artista comenta dificuldades desde a infância na Baixada Fluminense e reforça: ‘Meu compromisso é falar sobre esse povo forte e alegre’ 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Silvio Guindane completa 30 anos de carreira dirigindo filme sobre Zeca Pagodinho — Foto: Guito Moreto / Agência O Globo Silvio Guindane tinha 12 anos quando apresentou no Festival de Gramado de 1996 seu primeiro trabalho como ator, “Como nascem os anjos”, de Murilo Salles. E retornou da Serra Gaúcha com um item precioso na bagagem: um Kikito de Prêmio Especial do Júri, dividido com a colega de elenco Priscila Assum. O artista de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, hoje com 42 anos, acaba de concluir, como diretor, as filmagens de “Deixa a vida me levar”, aguardada cinebiografia de Zeca Pagodinho (prevista para 2027). Silvio também trabalha na pós-produção de outro longa como diretor, “Crisálida”, com Leandro Hassum, e prepara o lançamento, para o segundo semestre, da série “Verônika com K”, do Globoplay. Como ator, chegou aos cinemas semana passada numa participação em “Quinze dias”, adaptação de best-seller de Vitor Martins dirigida por Daniel Lieff. Guindane também tem volta confirmada a Gramado, onde será um dos apresentadores das sessões oficiais do festival, de 12 a 22 de agosto. — Silvio Guindane foi uma aparição na minha vida. Além de inteligente e talentoso, é muito engraçado, gaiato — diz Murilo Salles, que lembra a recepção de “Como nascem os anjos” no Festival de Brasília, também em 1996. — Terminou o filme, a sala veio abaixo, com aplausos como nunca vi na vida. As pessoas cercaram o Silvio, a Priscila e a mim, formaram uma montanha em torno de nós, emocionados. Ator e diretor Silvio Guindane — Foto: Guito Moreto / Agência O Globo Celebrando três décadas de carreira, Silvio conversou com o GLOBO sobre seus projetos e o momento profissional. Confira a seguir. Sonho de palhaço “Eu era aquele menino pobre de Duque de Caxias que sonhava em ser palhaço. Quando tinha 9 anos, um circo foi na minha rua. Fui no circo na sexta, no sábado, e no domingo eu queria ir embora com o circo. Comecei a fazer aula de palhaçaria e circo. Aos 11, li no jornal que estava tendo testes para um filme do Murilo Salles e pedi para minha mãe me levar. Os sonhos vão se transformando com o tempo. O desejo de ser palhaço me levou ao trabalho de ator, que me levou ao trabalho de diretor. Tive a sorte de saber muito novo o que queria ser. E o cinema me salvou.” Exceção à regra “Dos amigos de colégio, a maioria já morreu ou está presa, que é essa a realidade crua do Brasil. Hoje, olho e penso: consegui permanecer fazendo o que amo. Posso dizer que o sistema se ferrou, porque ele faz de tudo para interromper esse sonho. Mas essa paixão louca pelo cinema, pelos livros, pelo palco, foi me salvando e fez com que conseguisse sustentar minha família.” ‘Deixa a vida me levar’ “O filme do Zeca é uma epopeia, um filme gigante. Um dia o (roteirista e produtor) Marco Altberg me ligou e falou que estava tentando fazer a cinebiografia do Zeca Pagodinho há dez anos e que me via contando essa história. Eu li um tratamento do roteiro e falei: tenho que fazer esse filme. Tive que reorganizar minha agenda toda, mas consegui. Recebi 300 testes para o personagem do Zeca. E o (cantor) Mosquito foi o primeiro que vi. Na hora, senti que tinha que ser ele. As pessoas me falavam: ‘Mas ele não é ator.’ E eu falei: ‘Ele vai ser, eu sou ator e vou pegar esse cara no colo’. Ele já tinha uma relação com a música, é inteligente e é muito entregue. Foram três meses de ensaios e aproximamos ele bastante do Zeca para ele ir encontrando o seu próprio Zeca.” Mosquito como Zeca Pagodinho em "Deixa a vida me levar" — Foto: Divulgação / Arthur Goulart Zeca renderia 5 filmes “Daria para fazer uns cinco filmes sobre Zeca. Parece que esse cara viveu 18 vidas. Ele esteve muito presente no set e fez uma participação no filme. Eu tinha algum receio dessa coisa de fazer a cinebio de alguém ainda vivo, mas ele não enche o saco. Nos deu toda a liberdade e disse que vai ver o filme comendo pipoca, como espectador. Foi especial conhecer esse cara que é o Zeca, esse ser humano que ajuda tanta gente, que não tem rejeição, que fala com a esquerda e com a direita, que vai à igreja católica, mas que tem com ele o espiritismo e a umbanda, e que é casado com uma evangélica. Queremos entregar ao público um filme do tamanho que o Zeca merece.” Brasileiros com sonhos “Gosto de histórias de personagens brasileiros com sonhos que o sistema falhou em destruir. Como foi com o Mussum (ele dirigiu “Mussum, o filmis”, lançado em 2023) e o Zeca Pagodinho. Gosto de usar o cinema como uma estratégia de entretenimento através do sonho. Meu pensamento de militância como contador de histórias e artista preto é levar essas histórias para o grande público. O nosso cinema tem essa força e essa capacidade de falar com o povo. Eu não tenho o mínimo interesse em filmar a miséria. O meu compromisso é falar sobre os miseráveis, sobre esse povo forte e alegre.” Aílton Graça em cena como Mussum em "Mussum, o filmis" — Foto: Divulgação/Desiree do Valle O bandido e o delegado “Depois que eu fiz ‘Como nascem os anjos’, fui convidado para interpretar o bandido ou moleque de rua umas 500 vezes. Mesmo precisando da grana, muitas vezes eu disse ‘não’ e fui fazer teatro para tentar conquistar outras coisas; 30 anos depois fico feliz com projetos como ‘A divisão’, em que interpreto um delegado e sou chamado de doutor. Como ator e diretor negro, tentaram muitas vezes me colocar dentro de uma caixa.” Filme com Hassum “Estou finalizando um outro filme, que é o ‘Crisálida’, com Leandro Hassum. É um filme que discute o racismo estrutural a partir de um protagonista branco. Temos que parar de pregar para devotos. Quis falar sobre esse racista estrutural que está na esquina, na porta ao lado, mas que não se acha racista porque ele tem um amigo preto. É a adaptação de uma HQ linda do Vinicius Velo sobre pai e filho, dois caras brancos (Hassum e Vinícius de Oliveira), com posicionamentos políticos totalmente diferentes, que têm a vida transformada pela presença dessa menina preta de 5 anos (Malu Mauricio).” Silvio Guindane dirige "Crisálida", com Leando Hassum e Malu Mauricio — Foto: Divulgação / Diogo Cavalcanti Luta com amor “Temos que ser estratégicos e inteligentes para tratar do racismo. Quero que o filme termine e o espectador pense ‘será que eu sou racista?’ Não é algo fácil, mas acho que podemos conversar sobre isso através do amor, do afeto. Quando acabou a Segunda Guerra Mundial, vários cineastas que haviam servido ao Exército americano voltaram para Hollywood e foram fazer faroestes ou filmes de guerra. Já o Frank Capra estava lá fazendo um filme utópico de amor, como ‘A felicidade não se compra’ (1946). O cinema é este veículo capaz de levar o sonho e tratar mesmo de temas sérios com empatia.” Brilho nos olhos “Meu desafio diário na terapia, na vida, é manter a vontade daquele garoto que queria fugir com o circo, manter o brilho no olho. No momento que você perde isso, melhor trocar de profissão. Esse garoto está comigo e não o deixo ir embora. Porque é ele que faz com que não me leve tão a sério, que faz com que seja um apaixonado pelo meu trabalho. O sucesso corrompe. Você começa a acreditar no que dizem que você é. Então, é importante guardar essa parte de si.”
Silvio Guindane celebra 30 anos de carreira dirigindo filme sobre Zeca Pagodinho: 'Não tenho interesse em filmar a miséria'
Dividindo-se entre projetos como cineasta e ator, artista comenta dificuldades desde a infância na Baixada Fluminense e reforça: ‘Meu compromisso é falar sobre esse povo forte e alegre’







