Força Espacial simula plano em órbita para interceptar adversários, e especialistas temem que manobras desse tipo, sem 'leis de trânsito' globais, desencadeiem um conflito real 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O foguete Electron é lançado do Complexo de Lançamento 1 juntamente com uma espaçonave Pioneer da Rocket Lab para a missão VICTUS HAZE (Espaço de Resposta Tática) da Força Espacial dos EUA. — Foto: Divulgação/Rocket Lab RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 24/06/2026 - 20:32 Missão Secreta dos EUA Revela Risco de Conflitos no Espaço Uma missão secreta dos EUA, descoberta pelo astrofísico Jonathan McDowell, testou a capacidade de interceptação militar no espaço, levantando temores sobre conflitos sem regulamentação global. A operação envolveu o satélite Jackal e o Pioneer, simulando uma perseguição em órbita. Especialistas alertam para a ausência de normas espaciais que diferenciem ações rotineiras de ameaças, destacando a crescente militarização espacial sem diplomacia ativa. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Na madrugada de 19 de junho, um foguete decolou silenciosamente da Península de Māhia, na Nova Zelândia. Não houve transmissão ao vivo nem comunicado oficial. A Rocket Lab, empresa responsável pelo lançamento, e a Força Espacial dos Estados Unidos ficaram em silêncio por dias. Mas o que se descobriu foi que a missão secreta pôs uma espaçonave militar em órbita em menos de 17 horas para testar a perseguição de um possível adversário, feito inédito que pode alterar o equilíbrio estratégico entre as grandes potências. Esconder uma máquina de toneladas no espaço é, como provaria a sequência dos acontecimentos, tarefa quase impossível. O astrofísico britânico Jonathan McDowell, da Univerdidade Harvard, considerado a principal autoridade civil em rastreamento espacial por dados abertos, foi quem primeiro costurou as pistas. Cruzando avisos de tráfego aéreo emitidos para pilotos na Nova Zelândia — os chamados NOTAMs — com rotas de satélites já conhecidos, ele reconstituiu o lançamento antes de qualquer admissão do Pentágono. — A Força Espacial adicionou dois novos objetos ao seu catálogo público, sem revelar a trajetória, mas confirmando que algo havia subido. Juntando isso ao que já sabíamos sobre a missão Victus Haze, foi possível calcular a posição usando as leis de Kepler. Quando os militares divulgaram os dados dias depois, eles batiam com o nosso rastreamento — explicou McDowell ao GLOBO. O foguete Electron se prepara para o lançamento do Complexo de Lançamento 1, juntamente com uma espaçonave Pioneer da Rocket Lab, para a missão espacial tática VICTUS HAZE da Força Espacial dos EUA. — Foto: Divulgação/Rocket Lab O episódio expôs falhas de comunicação interna que revelam a burocracia por trás dos programas de defesa. A divisão governamental de rastreamento catalogou os objetos em poucas horas, mas o braço secreto que conduzia a operação levou três dias para confirmar o que a comunidade aeroespacial já tinha decifrado. — É muito estranho — avaliou McDowell. — Foi uma parte do governo não conversando com a outra. Satélite em fuga A missão Victus Haze é descrita pelos EUA como o exercício militar mais realista já conduzido em órbita baixa. A operação envolve dois equipamentos: o satélite Jackal, da empresa True Anomaly (lançado em maio pela SpaceX), e o Pioneer, da Rocket Lab. O objetivo é simular um cenário de crise, no qual o Pioneer deve localizar, aproximar-se e monitorar o alvo — que, por sua vez, manobrará para escapar. — A ideia de ter um alvo que não é apenas passivo, mas que tenta se defender, é inédita. O conceito sempre existiu, mas essa aplicação prática é muito nova. O Pioneer já se aproximou a cerca de 40 quilômetros do Jackal, mas o momento decisivo ocorrerá quando ambos igualarem suas órbitas para o início da perseguição real — observou McDowell. O especialista em astronáutica Pedro Palotta, do canal Space Orbit, no YouTube, ressalta que a logística terrestre é tão impressionante quanto a coreografia espacial. O foguete e a carga ficam em prontidão permanente. Quando a ordem chega, a equipe precisa abastecer o veículo, recalcular trajetórias para desviar de detritos e acertar o destino orbital em questão de horas. — A Rocket Lab tinha 24 horas para agir e conseguiu em cerca de 16, o que é excelente. Isso oficializa um mercado altamente lucrativo para empresas com capacidade de resposta rápida, lidando com segredos militares e proteção de propriedade intelectual — afirmou Palotta. Um técnico da Rocket Lab realiza as verificações finais da espaçonave Pioneer antes do lançamento da missão espacial VICTUS HAZE, que visa combater a névoa vulcânica, para a Força Espacial dos EUA. — Foto: Divulgação/Rocket Lab Retórica armada e bilhões em jogo O sucesso técnico da missão traz consigo um dilema que não tem resposta simples: qual é a diferença entre um satélite de inspeção e uma arma antissatélite? — Pense em um carro: ele serve para transporte rotineiro. Mas, se você decidir, pode jogá-lo contra uma multidão. Com satélites manobráveis operando próximos uns dos outros é exatamente o mesmo problema. A tecnologia que permite inspecionar também permite colidir deliberadamente — responde o astrofísico. O que agrava o cenário, segundo ele, é a ausência de “leis de trânsito” espaciais. Sem um acordo internacional que defina qual distância de aproximação é segura, qualquer manobra pode ser interpretada como ameaça ou pretexto para escalar o tabuleiro geopolítico. — Se um tratado estabelecesse que aproximar-se a dez quilômetros é aceitável, mas a um quilômetro não, teríamos critérios para distinguir a rotina de provocação. Como não temos regras, sobram discordâncias sobre o que é uma ação maliciosa — explica o pesquisador. Espaçonave Pioneer da Rocket Lab, para a missão espacial tática VICTUS HAZE da Força Espacial dos EUA. — Foto: Divulgação/Rocket Lab Para McDowell, essa área cinzenta é frequentemente explorada de forma deliberada. A tensão militar é amplificada para justificar os repasses bilionários. — Diversos atores inflam situações normais dizendo que são perigosas para obter financiamento voltado ao desenvolvimento de suas próprias armas espaciais — alertou. Do outro lado da equação, a indústria aeroespacial responde a esses incentivos com entusiasmo e agilidade. A Rocket Lab, segunda empresa com mais lançamentos no mundo depois da SpaceX, constrói uma base de contratos de Defesa que garante seu crescimento. O foco da companhia agora é o desenvolvimento do foguete Neutron, maior e reutilizável, pensado para cargas militares mais pesadas. Batalha nas estrelas McDowell, que rastreia atividades espaciais há décadas, enxerga na retórica atual uma ruptura perigosa com o passado. Durante anos, qualquer discussão sobre tensão militar no espaço vinha acompanhada de apelos à diplomacia. O britânico avalia que esse equilíbrio desapareceu. — Antigamente, qualquer discussão vinha acompanhada de: “Precisamos conversar para impedir isso”. Essa diplomacia desapareceu. Foi substituída por: “Precisamos construir armas para vencer quando começar”. Ainda não cruzamos essa fronteira bélica de fato, mas estamos nos preparando como se já tivéssemos cruzado — alertou o astrofísico. Questionado sobre quem poderia liderar uma reversão desse caminho, McDowell não vê saídas fáceis. EUA, Rússia e China não demonstram interesse em recuar. Fóruns como o Comitê para os Usos Pacíficos do Espaço Exterior da ONU esbarram na falta de mandato para intervir em defesa militar. A principal aposta do britânico passa pela Conferência sobre o Desarmamento e, sobretudo, pela pressão da sociedade civil americana sobre seu próprio governo. Enquanto o debate diplomático não avança, espaçonaves de prontidão pavimentam o caminho para as perseguições silenciosas 400Km acima da Terra.