Diálogo entre banqueiro e Fabiano Zettel e voo com empresário ocorreram em anos diferentes; corporação diz que ‘erro material’ não altera existência de conversa sobre pagamentos a presidente do PP e viagem em aeronave 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Da esquerda para a direita: o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro; Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, foragido da Justiça; e o senador Ciro Nogueira (PP-PI) — Foto: Ana Paula Paiva/Valor, Reprodução e Brenno Carvalho/O Globo A Polícia Federal (PF) comunicou ao Supremo Tribunal Federal (STF) que se equivocou ao correlacionar as datas de um diálogo do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, sobre o pagamento de R$ 350 mil em espécie ao senador Ciro Nogueira (PP-PI) e um voo fretado entre São Paulo e Brasília que transportava o empresário Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, hoje foragido e investigado na Operação Carbono Oculto. Em pelo menos dois dos relatórios que embasaram a operação contra o presidente nacional do PP, tornados públicos na semana passada pelo relator do caso no STF, ministro André Mendonça, a PF destacou que Vorcaro discutiu em 6 de agosto de 2025 o envio do dinheiro a Ciro com seu cunhado e operador financeiro, Fabiano Zettel. Os investigadores cruzaram a data com o relato do piloto Mauro Caputti Mattosinho, que trabalhou até setembro do ano passado na Táxi Aéreo Piracicaba (TAP), à imprensa de que teria transportado um malote – presumivelmente com dinheiro – em um voo que tinha Beto Louco entre seus passageiros e se deslocou entre São Paulo e Brasília e teria ouvido o empresário citar Ciro em diversas ocasiões. Posteriormente, porém, a PF reconheceu que a viagem do empresário ocorreu em 6 de agosto de 2024, ou seja, exatamente um ano antes da conversa entre Vorcaro e Zettel. A correção foi encaminhada ao STF em 28 de abril, mais de um mês após o protocolo da representação original, mas antes da realização da operação da PF. A retificação foi reiterada ao ministro André Mendonça por meio de um segundo ofício assinado pelo delegado Anderson Rodrigo Andrade de Lima. O material foi anexado de forma avulsa ao acervo de milhares de páginas do inquérito do Master disponibilizadas simultaneamente no último dia 16 por determinação do magistrado, que incluía ainda os relatórios defasados com a correlação incorreta inferida pela PF, que foram acessados e repercutidos pela equipe do blog nesta matéria. “A inconsistência foi verificada durante reanálise dos elementos constantes dos autos e refere-se exclusivamente à indicação temporal de comunicações utilizadas na análise”, diz o documento submetido pela Polícia Federal à Corte. “Entretanto, a partir de reavaliação detalhada do material extraído, constatou-se que houve equívoco na indicação do ano das referidas comunicações, tendo sido verificado que os diálogos ocorreram, na realidade, em 06/08/2025, e não em 06/08/2024 (data do referido voo), como inicialmente consignado”, afirmou a PF, que afastou a correlação temporal entre os dois fatos. Na petição, assinada pelos agentes Wilker Goulart e Felipe Silva de Oliveira, os investigadores ponderam que o erro de “natureza meramente material” não muda o fato de que houve o voo investigado pela PF e as conversas sobre o pagamento em espécie para Ciro Nogueira. “Por fim, destaca‑se que a correção ora comunicada não implica juízo conclusivo acerca da materialidade ou da destinação dos valores mencionados, tampouco invalida outras análises constantes da IPJ [informação de Polícia Judiciária], devendo o equívoco ser considerado apenas sob o aspecto temporal anteriormente exposto”, argumenta o ofício. Relatório citava malote aéreo Na primeira versão do relatório da PF, os investigadores destacaram diálogos em que Daniel Vorcaro cobra de Fabiano Zettel o pagamento do valor a Ciro Nogueira quando o Master ainda tentava vender parte de seus ativos para o Banco BRB. “Resolve Ciro e galerias hoje. Manda agora lá”, escreveu o então CEO do banco. Zettel, então, reclama que uma transferência TED não havia chegado e detalha os valores pendentes, que incluem textualmente “Nota Ciro mais impostos 2” e “Espécie Ciro 350k”. Vorcaro, então, afirma que fará parte das transferências naquele momento e orienta que o cunhado priorize as pendências referentes ao senador e outros gastos referentes a “galerias”. A PF então apostou na tese de que o malote foi transportado no jatinho que, na verdade, havia transportado Beto Louco um ano antes. O jatinho Gulfstream G150 de prefiro PR-SMG pertence oficialmente à TAP, também na mira da Operação Carbono Oculto, que apura o esquema de fraudes no setor de combustíveis liderado pelo empresário e Mohamad Hussein Mourad, o Primo, que controlavam a distribuidora Copape. Ainda de acordo com a PF, outras mensagens obtidas no celular de Daniel Vorcaro demonstraram que o dono do Banco Master usou o mesmo jato Gulfstream G150 em diversas ocasiões “para viagens de seus interesses”, o que indicaria “fortemente a prática dos crimes de corrupção passiva e ativa”. Inicialmente o relatório destacou que Mattosinho declarou em entrevistas que o Beto Louco mencionou Ciro diversas vezes durante o trajeto, perguntando, por exemplo, se “estava tudo certo com o Ciro” e se “o Ciro já estava os aguardando”. O empresário está foragido e tenta há meses negociar uma delação com a Justiça brasileira. Seu último paradeiro rastreado pela PF foi a Líbia, país no norte da África. As investigações apontam para a participação do Primeiro Comando da Capital (PCC) nas fraudes, mas a defesa de Beto Louco vem negando peremptoriamente qualquer relação dele com a facção criminosa.