Evento, que debate ameaças ao setor, terá abertura do espaço La Cité, com atrações o ano inteiro: 'Há uma crise da imagem em geral' 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Cinema do complexo foi inaugurado com “Kirikou e a feiticeira”, do veterano animador Michel Ocelot — Foto: Divulgação Localizada próxima à fronteira com a Suíça, Annecy é conhecida por sua herança pré-medieval, seus numerosos canais, o gigantesco lago de águas cristalinas de mesmo nome e, há pouco mais de 60 anos, por abrigar o Festival Internacional de Cinema de Animação de Annecy, o maior evento em torno do gênero no mundo. Todo mês de junho, a pequena cidade francesa de cerca de 53 mil habitantes se transforma na capital mundial da animação e, por uma semana, recebe profissionais, artistas e estudantes de todo o mundo para celebrar e discutir a arte. Com a inauguração, na última sexta-feira, antevéspera da abertura da 68ª edição do evento, da Cidade Internacional do Cinema de Animação, a festa ganha um espaço permanente, com atrações o ano inteiro. O La Cité, como o parque é chamado, ocupa os 2,7 hectares do antigo haras da cidade, um patrimônio histórico construído na segunda metade do século XIX no coração de Annecy. O projeto de ocupação e adaptação custou € 54,5 milhões, e inclui espaço de 800m² para exposições temporárias e permanentes, salas para oficinais de animação, um museu, uma casa para residência artística e uma sala de projeção dedicada à exibição de clássicos, retrospectivas e novas produções. O charmoso cinema com 322 assentos foi inaugurado com uma sessão de “Kirikou e a feiticeira” (1998), o primeiro filme do veterano animador francês Michel Ocelot, conhecido por trabalhos como “As aventuras Azur e Asmar” (2006), para uma plateia de crianças. — Queríamos dar a esta forma de arte um lar permanente, um lugar aberto ao público o ano todo e onde se pode descobrir obras, compreender técnicas, conhecer artistas, transmitir conhecimento às gerações mais jovens e receber profissionais de todo o mundo. Uma capital (da animação) não pode prosperar com uma atividade que dura apenas uma semana por ano — diz Mickaël Marin, diretor geral do Festival de Annecy, aberto oficialmente no último domingo com a première mundial de “Minions & monstros”, de Pierre Coffin, que entra no circuito brasileiro no dia 1º de julho. — Espero ver várias gerações crescerem com a Cité. Gostaria que ela se tornasse uma referência global, um lugar onde profissionais venham não apenas para celebrar obras e artistas, mas para refletir sobre o futuro do cinema de animação e para apoiar novos talentos. Cinema de la Cite — Foto: Divulgação Museu permanente O complexo é gerido pela Citia (a Cidade das Imagens em Movimento de Annecy), instituição pública francesa de apoio a indústrias criativas, que administra o festival e o seu mercado, o Mifa. O centro do complexo é um museu permanente de 450m² dedicado à história e às técnicas da animação. Em seu ano inaugural, o La Cité oferece duas grandes exposições dedicadas a estúdios que são figuras-chave da arte: “Ankama, do esboço à obra épica, 25 anos de criações” revisita a história do estúdio francês; já o americano Laika oferece uma prévia de seu próximo lançamento, “O bosque selvagem”, com fragmentos visuais do longa-metragem de Travis Knight (de “Mestres do Universo”, em cartaz no Brasil). O diretor participará de eventos do Festival de Annecy, cuja programação inclui o novo desenho animado do brasileiro Otto Guerra, “O filho da puta”, com codireção de Tania Anaya, Erica Maradona e Sávio Leite. — Essas duas exposições são um exemplo do diálogo que há entre o La Cité com o festival de animação. Elas destacam mundos diferentes e técnicas de animação únicas. Era importante acolhermos essa diversidade para nosso evento de inauguração — diz Peggy Zeigman-Lecarme, diretora de cultura da Citia e curadora das atividades da cidade da animação. Peggy Zeigman-Lecarme, diretora de cultura da Citia — Foto: Divulgação Diretora de cultura da Citia e curadora, Peggy Zeigman-Lecarme detalha o projeto, comenta ideia de residência artística e diz que é fã do trabalho do animador brasileiro Alê Abreu. Por que Michael Oscelot para abrir o cinema do La Cité? Foi algo que decidimos em conjunto com Michaël Marin, que também é o diretor executivo da Citia. Precisávamos de um símbolo poderoso para essa inauguração e ter a presença de Ocelot com um filme como “Kirikou e a feiticeira”, que é uma maravilhosa fábula de fraternidade, humanismo e paz, para uma plateia formada por crianças, era o que gostaríamos de compartilhar como nossa missão à frente do La Cité, que é destacar a animação como arte e abri-la para diferentes tipos de público. Abrir um espaço cultural neste momento não é algo fácil, especialmente um lugar em que você pode fazer perguntas, mas descansar também, se desligar e se reconectar com as artes. O La Cité dedicou as primeiras duas exposições a estúdios com filmes no festival. Haverá sempre este diálogo? Como o La Cité está baseado no mesmo DNA do festival, é natural que haja esse diálogo, mas tentamos montar a nossa programação de forma independente. Até porque o festival dura apenas uma semana, e temos que sustentar a agenda para o ano todo. Além disso, o festival é dedicado aos estudantes e aos profissionais da indústria de animação. Sim, há ecos entre uma e outra atividade, mas temos a consciência de que precisamos desenvolver atividades para um público que é diferente, mais abrangente, atraente a todos os tipos de pessoas. O Museu do Cinema de Animação pode ganhar algumas peças novas, mas é uma exposição permanente. E a residência artística? Nossa ideia é convidar até quatro artistas ao mesmo tempo para ocupar a vila dentro do parque do La Cité, o que nos permite desenvolver diferentes tipos de residência. Ano passado, o próprio Michaël Marin anunciou uma residência para diretoras mulheres, como forma de ajudá-las romper barreiras que ainda enfrentam. Estamos procurando parceiros para os diferentes tipos de residência, esperamos que a primeira aconteça em 2027. Uma de suas funções é estar atenta à situação da animação no mundo. Como estaria o estágio atual? Os últimos três anos foram muito difíceis para a animação em geral, em termos de financiamento de projetos. Mas o que posso dizer é que, apesar de todas as dificuldades, ainda há muita criatividade, muitos artistas com algo a dizer e muitos filmes maravilhosos. Temos até dificuldade em escolher filmes para a programação do festival. De novo, estamos falando de economia da arte, mas o que fazemos tem um significado em termos de responsabilidade. Daí nosso cuidado com o trabalho de educação sobre filmes, porque há uma crise da imagem em geral. Desde a invenção do cinema, em 1895, até alguns anos atrás, o cinema era uma linguagem poderosa. Agora vemos uma queda de qualidade e importância, vemos muitas imagens sem significado, que não compartilham algo bonito. Sim, há uma crise na indústria, que é basicamente financeira, em particular no setor de animação, mas não uma crise de artistas. O que você sabe sobre a animação brasileira? Não sou grande conhecedora da produção de animação brasileira. Mas sou fã do trabalho do Alê Abreu (autor de “O menino e o mundo”, que concorreu ao Oscar da categoria em 2016). Sei que ele anda ocupado com um novo projeto, e mal posso esperar para conhecê-lo. Isso mostra o quanto tenho ainda que aprender sobre o que vocês fazem em termos de animação