A vitória da França sobre o Iraque por 3-0, que garantiu aos franceses o apuramento para os 16 avos de final do Mundial de 2026, ficou marcada por um episódio insólito vivido em Filadélfia. Avisos de uma forte tempestade obrigaram à interrupção do encontro durante duas horas e 12 minutos, deixando jogadores, treinadores e adeptos numa longa espera que transformou a segunda parte num recomeço.Os franceses venciam por 1-0 quando o árbitro assinalou que era altura para o intervalo, às 17h48 locais. Pouco depois, o ecrã gigante do Lincoln Financial Field alertou para a aproximação de um violento temporal e foi pedido aos mais de 68 mil espectadores que procurassem abrigo. A chuva na verdade já se fazia sentir antes do descanso. O jornal Le Monde relata que a precipitação intensa levou alguns adeptos a abandonar os lugares sem cobertura e viam-se vários impermeáveis nas bancadas.A interrupção durou muito mais que o previsto. A FIFA aplica nos Estados Unidos as recomendações da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), que obrigam à suspensão dos eventos sempre que sejam detectados relâmpagos nas proximidades do recinto. Cada novo registo faz reiniciar o período de segurança de 30 minutos.Enquanto no exterior continuavam os trovões e a chuva intensa, começava uma espera inédita para os protagonistas do encontro. No final do jogo, Kylian Mbappé admitiu à BBC que manter a concentração durante quase duas horas fechados no balneário foi um desafio exigente do ponto de vista emocional e mental. A primeira preocupação da selecção francesa foi evitar que os jogadores arrefecessem demasiado. O Monde relata que, numa fase inicial, os "bleus" recorreram à bicicleta estática e a exercícios de mobilidade para se manterem activos, na expectativa de um regresso rápido ao relvado.Mas, à medida que os sucessivos horários previstos para a retoma eram adiados, a estratégia mudou. Jules Koundé explicou ao diário francês que os jogadores aproveitaram então para conversar, descontrair e recuperar energias, antes de voltarem a preparar-se para a segunda parte, que acabaria por ser encarada como um novo jogo.Do lado iraquiano, a pausa foi aproveitada para analisar o que tinha acontecido nos primeiros 45 minutos. A BBC conta que o seleccionador Graham Arnold reviu imagens da primeira parte com os jogadores e procurou ajudá-los a relaxar antes do recomeço. O técnico australiano, que disse nunca ter vivido uma situação semelhante nem como jogador nem como treinador, acreditava que a capacidade de voltar a "ligar" mentalmente seria decisiva.Didier Deschamps, técnico francês, tentou, por sua vez, aliviar a tensão. Questionado sobre a forma como tinha ocupado aquelas mais de duas horas, começou por responder em tom de brincadeira que os jogadores tinham estado a jogar às cartas. Rapidamente esclareceu que a equipa passou o tempo sobretudo à espera das constantes actualizações sobre a hora da retoma.Também os adeptos viveram uma longa noite de incerteza. De acordo com a emissora britânica, os anúncios sonoros foram mantendo o público informado sobre a evolução das condições meteorológicas e, quando a ameaça desapareceu, a notícia foi recebida com uma das maiores ovações da noite. Muitos regressaram aos lugares ainda de impermeável vestido e as bancadas voltaram a apresentar-se praticamente cheias. Mas nem assim o jogo recomeçou de imediato. A mesma fonte refere que os funcionários do estádio tiveram primeiro de retirar a água acumulada em algumas zonas do relvado. Só depois as duas equipas regressaram para um novo aquecimento de cerca de 20 minutos.No total, o jogo prolongou-se por três horas e 48 minutos. França aproveitou melhor o recomeço, marcou mais dois golos e fechou a vitória por 3-0, com Mbappé a bisar na sua 100.ª internacionalização.E se em Filadélfia a longa pausa foi imposta pelas condições meteorológicas, o Mundial de 2026 tem sido marcado por outro tipo de interrupções, essas previstas no regulamento: as de hidratação, ou "cooling breaks". Dados do El País, divulgados em parceria com a empresa de análise Driblab, mostram que 78% das pausas de hidratação analisadas tiveram impacto no ritmo dos jogos. O estudo, baseado em 56 interrupções dos primeiros 28 jogos do Campeonato do Mundo, concluiu que muitas equipas perderam o ascendente que tinham antes da paragem.