As ações do Azzas 2154 saltaram quase 10,5% ontem na Bolsa, após a companhia ter anunciado, na última sexta-feira, que contratou o Morgan Stanley para assessorá-lo na “avaliação de alternativas estratégicas envolvendo os ativos relacionados à marca ‘Farm Rio’, com o objetivo de destravar valor dessa marca”, embora tenha ponderado que não há qualquer decisão tomada sobre o futuro da grife carioca. A notícia — que tem como pano de fundo a guerra judicial entre os dois principais acionistas da empresa, Alexandre Birman e Roberto Jatahy — fez com que a Faria Lima começasse a calcular quanto valeria a Farm, que tem sido a alavanca de crescimento de um conglomerado cujas disputas de governança ofuscam seu potencial. Em uma eventual cisão, a Farm poderia ser vendida por cerca de US$ 1 bilhão. Ontem, os papéis do Azzas subiram 10,48%, a R$ 19,40. No mercado, executivos fazem duas leituras sobre essa alta. A primeira é que a saída para a crise que se abateu sobre o grupo passa por uma solução que voe junto com seu ativo mais rentável, a Farm. A outra é uma piscadela positiva para o mercado de que a liderança da companhia entendeu o quanto os desentendimentos entre Birman e Jatahy estavam mordendo do valor do negócio. Em março de 2025, quando veio a público que o divórcio era iminente, as ações tombaram 10,42%. Pechincha Junto com a informação da contratação do Morgan Stanley, o Azzas anunciou ainda que Birman encerrou um processo arbitral que havia iniciado na B3 sob a alegação de que Jatahy teria violado o acordo de acionistas. A mediação será feita de forma conjunta com o processo aberto pelo antigo dono do Soma. “Por anos, a Farm Rio foi, ao mesmo tempo, um dos maiores pontos fortes e um enigma na avaliação do Grupo Soma e, posteriormente, do Azzas. A marca entregou consistentemente crescimento superior, maior rentabilidade e relevância internacional mais significativa do que a maior parte dos ativos do portfólio. Ainda assim, os investidores raramente a avaliaram separadamente, aplicando, em vez disso, um desconto ao conglomerado motivado por preocupações com integração, governança, execução e ambiente macroeconômico”, resumiram os analistas do BTG Pactual em relatório. Na sexta-feira, o site de negócios Neofeed publicou reportagem segundo a qual o Azzas estaria planejando vender a Farm por perto de US$ 1 bilhão, ou R$ 5,1 bilhões. O valor supera a capitalização de mercado do próprio Azzas, avaliado agora em R$ 4 bilhões, mesmo após o salto nas ações — depois da fusão, chegou a valer R$ 10 bilhões. Para o BTG, se for mesmo esse o preço, sairá barato. Isso porque a cifra avaliaria a Farm em cerca de 1,5 vez sua receita projetada para 2025. O banco especula que a marca opere com uma margem Ebitda (uma métrica de lucratividade) entre 15% e 20%, o que levaria a uma relação entre o valor total da companhia e o Ebitda de 7,7 a 10,3 vezes. “Empresas como Ralph Lauren e Tapestry são negociadas a cerca de 2,0x a 2,5x a receita futura e 9x a 11x o Ebitda futuro, enquanto marcas premium de maior crescimento, como a Moncler, são negociadas mais próximas de 4,0x a receita e 13x a 15x o Ebitda. Embora a Farm ainda seja menor e opere parcialmente em um mercado emergente, seu perfil de crescimento de receita, o forte valor de sua marca e a crescente exposição internacional a colocam, possivelmente, mais próxima do universo global de moda premium do que dos tradicionais varejistas brasileiros de vestuário”, argumentaram os analistas. O plano que vai selar o destino da Farm não está desenhado. Em 2025, a marca respondeu, sozinha, por 23% da receita do grupo. No primeiro trimestre deste ano, a divisão de moda feminina, sob o comando de Jatahy, foi a única com avanço em faturamento. O masculino, calçados e acessórios e a Hering recuaram em resultado ante a igual período do ano passado. Investidor estratégico A cisão da Farm, diz uma fonte próxima à companhia, vem de seus fundadores, Kátia Barros e Marcello Bastos. Surge ainda no tabuleiro, conta outra pessoa próxima ao grupo, a possível busca por um investidor estratégico para o Soma. Há ao menos dois modelos de redivisão do Azzas sendo discutidos. Um repartiria as marcas por seus antigos donos. Mas Birman levaria, além de Arezzo&Co e Reserva, também Hering e Farm. O outro propõe a criação de três novas empresas: Arezzo&Co e Hering; o antigo Soma, mas com a Reserva, e a Farm em voo solo. O BTG observa que a Farm já vende mais de R$ 1 bilhão no exterior, característica “excepcionalmente rara” entre marcas brasileiras de consumo e que “justifica um prêmio de avaliação”. Se o negócio saísse por perto de US$ 1 bilhão, os analistas sentenciam que “o comprador estaria adquirindo uma plataforma de moda em expansão global a um múltiplo mais próximo ao de empresas maduras do setor de vestuário do que ao de marcas internacionais de lifestyle de alto crescimento”.