A SpaceX está vendendo títulos de dívida com grau de investimento pela primeira vez, no que se espera ser o início de uma enorme onda de endividamento para financiar as ambições da empresa em inteligência artificial, após sua oferta pública inicial (IPO) recorde de US$ 75 bilhões. Bancos, incluindo o Goldman Sachs, estão organizando chamadas com investidores nesta segunda-feira, segundo uma pessoa com conhecimento do assunto, que pediu para não ser identificada porque não está autorizada a falar publicamente. Espera-se que uma emissão de títulos ocorra em seguida, com vencimentos entre cinco e trinta anos, de acordo com a mesma fonte. A emissão planejada é altamente incomum no mercado de títulos de alta qualidade (high grade), onde os investidores normalmente emprestam dinheiro a empresas consolidadas que fabricam automóveis ou vendem seguros de vida. A SpaceX ainda não é lucrativa e, segundo uma nota da S&P Global Ratings divulgada na semana passada, deverá continuar consumindo caixa até 2029. Grande parte do que a empresa oferece atualmente aos investidores é a expectativa de lucratividade futura. Em um memorando da oferta dos títulos visto pela Bloomberg, a SpaceX escreveu: “Nossa missão é construir os sistemas e tecnologias necessários para tornar a vida multiplanetária, compreender a verdadeira natureza do universo e estender a luz da consciência às estrelas”, ecoando a linguagem utilizada em seu prospecto de ações. Mas, para os compradores de títulos, isso pode ser uma proposta mais difícil de aceitar do que para investidores em ações. Os detentores dos títulos não participarão de lucros extraordinários caso tudo dê certo — eles receberão apenas os pagamentos de juros e, ao final, o valor principal investido. “Obviamente é algo que exige um certo ajuste de perspectiva e requer um pouco de fé”, disse Ross Pamphilon, diretor de investimentos em renda fixa da Impax Asset Management. A SpaceX busca levantar pelo menos US$ 20 bilhões com a venda da dívida, informou a Bloomberg na semana passada. Os recursos serão usados para refinanciar um empréstimo-ponte de valor semelhante, que representa a maior parte dos US$ 29,1 bilhões de dívida de longo prazo da empresa. Os mercados de títulos estão amplamente abertos para empresas que investem em inteligência artificial. Alphabet, Amazon.com e outras empresas levantaram mais de US$ 300 bilhões em dívidas relacionadas à IA desde novembro, em diversos mercados de crédito, segundo estrategistas do JPMorgan, ajudando a impulsionar emissões próximas de recordes neste ano. As vendas de títulos corporativos de grau de investimento nos Estados Unidos somam cerca de US$ 1,1 trilhão, alta de 30% em relação ao mesmo período do ano anterior. “A torneira de liquidez está certamente aberta, permitindo que empresas de diversos setores captem capital, desde tecnologia e semicondutores até agora o setor espacial”, afirmou Matthew Miskin, estrategista-chefe adjunto de investimentos da Manulife John Hancock Investments. Os bancos que organizam as reuniões com investidores nesta segunda-feira também incluem Bank of America, Citigroup, JPMorgan Chase & Co. e Morgan Stanley. Citigroup e JPMorgan se recusaram a comentar. A SpaceX e os demais bancos não responderam imediatamente aos pedidos de comentário.As ações da empresa caíram até 11% na segunda-feira após a divulgação da oferta, registrando o terceiro dia consecutivo de queda. Ainda assim, os papéis continuam sendo negociados acima do preço do IPO. Altos níveis de caixa A SpaceX possui alguns fatores importantes a seu favor. Em 19 de junho, a empresa tinha mais de US$ 100 bilhões em caixa e equivalentes de caixa, segundo informou em um documento apresentado na segunda-feira. Os cofres da empresa foram reforçados pelo IPO recorde, que a transformou em uma das companhias abertas mais valiosas do mundo e fez de seu fundador, Elon Musk, o primeiro trilionário do planeta. Na semana passada, a empresa recebeu classificações na faixa BBB das três principais agências de rating. A Moody’s e a Fitch atribuíram classificações Baa1 e BBB+, respectivamente, três níveis acima da categoria especulativa (“junk”). Já a S&P Global Ratings atribuiu nota BBB, um nível abaixo. Manter o grau de investimento é um objetivo explícito da empresa, funcionando como um limite para seus gastos futuros, segundo a nota da S&P divulgada na semana passada. Caso os níveis de endividamento comecem a ameaçar sua classificação de crédito, a empresa poderá tomar medidas como reduzir investimentos. A S&P acredita que a SpaceX provavelmente precisará captar tanto dívida quanto capital próprio para cobrir déficits de fluxo de caixa livre. Em reuniões anteriores com potenciais investidores em ações, o diretor financeiro Bret Johnsen e a presidente Gwynne Shotwell afirmaram que acreditam que o IPO foi a última vez que a SpaceX venderá ações. Em vez de levantar bilhões diluindo os acionistas — incluindo o próprio Musk — o plano é recorrer aos mercados de dívida, após destacar amplamente suas classificações de grau de investimento durante o processo do IPO, segundo pessoas familiarizadas com o assunto. “Ridiculamente baixa” Musk já utilizou extensivamente os mercados de dívida para adquirir ou expandir seus negócios, garantindo bilhões de dólares em financiamentos bancários e estruturando operações complexas. Porém, nem tudo ocorreu sem dificuldades. A aquisição do Twitter em 2022 carregou a empresa com cerca de US$ 12,5 bilhões em empréstimos, criando um conhecido problema de “dívida encalhada” para os bancos de Wall Street, que inicialmente não conseguiram vender esses papéis aos investidores. Eles só conseguiram fazê-lo no ano passado. Nenhuma das empresas de Musk havia emitido anteriormente títulos corporativos com grau de investimento no mercado público. Em uma publicação na rede X, Musk afirmou que a classificação de crédito da Tesla Inc. é “ridiculamente baixa”. Analistas da Oppenheimer & Co., liderados por Timothy Horan, projetam que a empresa acumulará mais de US$ 400 bilhões em dívida líquida até 2031. Esse valor é muito superior ao que quase todas as empresas americanas possuem atualmente e seria mais de três vezes a dívida da Oracle. Os analistas esperam que a dívida seja a principal fonte de financiamento da companhia, complementada por aproximadamente US$ 40 bilhões adicionais em capital próprio, conforme escreveram em nota de 18 de junho. A estreia da SpaceX no mercado de títulos de alta qualidade é o mais recente exemplo de uma onda de grandes emissões por empresas de tecnologia impulsionadas pelo boom da inteligência artificial. Até agora, os investidores têm absorvido facilmente essa oferta. A recente emissão de US$ 25 bilhões da Nvidia — a mais recente megacaptação — recebeu pedidos que superaram em mais de três vezes o tamanho da oferta. Espera-se que a IA seja uma importante fonte de lucros para a SpaceX nos próximos anos, já que a empresa garantiu contratos totalizando cerca de US$ 75 bilhões para fornecer capacidade computacional à Google e à Anthropic PBC. Esses contratos podem ser rescindidos por qualquer uma das partes mediante aviso prévio de 90 dias. A empresa opera a rede de banda larga Starlink, e sua relevância estratégica para o governo dos Estados Unidos — como principal fornecedora de lançamentos para a NASA e para o Departamento de Defesa — foi um dos fatores citados pela Moody’s ao conceder à companhia a classificação de grau de investimento.