A desigualdade regional expõe os limites da digitalização financeira e mantém o atendimento humano como peça central da inclusão no país. 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Márcio Alaor de Araújo — Foto: Divulgação A expansão dos serviços financeiros digitais no Brasil alterou de forma significativa o acesso da população a produtos bancários. Pix, aplicativos de instituições financeiras e plataformas de crédito ampliaram a velocidade e a praticidade das operações cotidianas. No entanto, essa transformação não foi uniforme em todo o país. O executivo do mercado financeiro, Márcio Alaor de Araújo, explica que o sistema financeiro brasileiro é marcado por uma combinação de alta tecnologia e desigualdade regional que ainda define, de forma concreta, quem tem acesso real aos serviços e quem permanece à margem deles. Em diversas cidades do interior e regiões afastadas dos grandes centros urbanos, o acesso ao sistema financeiro formal ainda depende fortemente de atendimento presencial. Nesse contexto, os correspondentes bancários continuam exercendo papel central na intermediação de serviços financeiros e no apoio à tomada de decisão de consumidores. Mais do que um ponto de atendimento, esses profissionais atuam como facilitadores do acesso ao crédito e à compreensão de produtos financeiros. Em muitos casos, são a principal referência local para orientação sobre empréstimos, financiamentos e renegociação de dívidas. Por que a digitalização avançou de forma desigual no Brasil? O cenário evidencia um desafio estrutural do país. Apesar do avanço da digitalização, o Brasil ainda convive com disparidades importantes no acesso a serviços financeiros, educação financeira e infraestrutura bancária. Regiões com menor renda per capita, menor cobertura de internet banda larga e menor familiaridade com ferramentas digitais ficaram para trás nesse processo de modernização, criando um mapa de inclusão financeira que não acompanha o ritmo das inovações tecnológicas disponíveis nos grandes centros. Esse descompasso não é apenas geográfico. Ele também é geracional e socioeconômico. Consumidores mais velhos, com menor escolaridade ou com histórico de exclusão bancária, enfrentam barreiras adicionais para acessar e utilizar serviços financeiros digitais de forma autônoma e segura. Para esse perfil de consumidor, a presença de um profissional capacitado para explicar condições contratuais e orientar escolhas financeiras continua sendo determinante. Qual é o papel real dos correspondentes bancários nesse cenário? Em regiões com menor presença de agências, os correspondentes acabam exercendo função que vai além da intermediação comercial. Eles atuam também como agentes de informação, explicando condições contratuais e auxiliando consumidores com menor familiaridade com produtos financeiros. Sua presença é mais forte justamente em localidades onde há menor densidade bancária e menor oferta de serviços financeiros tradicionais. Nessas regiões, funcionam como ponte entre consumidores e instituições financeiras, preenchendo uma lacuna que a digitalização ainda não conseguiu suprir. Márcio Alaor de Araújo observa que essa realidade mostra que a digitalização não substituiu completamente a necessidade de atendimento humano, especialmente em contextos de menor inclusão financeira. "A tecnologia ampliou o acesso, mas não eliminou as diferenças de compreensão e uso dos serviços financeiros", pontua o executivo. Esse descompasso ajuda a explicar a permanência dos correspondentes bancários como parte relevante da estrutura de distribuição de crédito no país. Como tecnologia e atendimento humano podem coexistir sem ampliar desigualdades? Especialistas destacam que a evolução do sistema financeiro brasileiro deve considerar não apenas a expansão tecnológica, mas também o fortalecimento da inclusão financeira. Isso envolve tanto o acesso a ferramentas digitais quanto a capacidade de utilização dessas ferramentas de forma consciente e adequada. Uma população que tem acesso a um aplicativo bancário, mas não compreende as condições dos produtos que contrata, não está verdadeiramente incluída no sistema financeiro. Nesse sentido, o atendimento humano continua sendo um componente importante para garantir que a modernização do sistema financeiro não amplie desigualdades já existentes. A questão não é escolher entre digital e presencial, mas compreender que cada canal cumpre uma função específica dentro de uma jornada financeira que ainda é muito diferente dependendo de onde o consumidor vive e de qual é o seu histórico de acesso a serviços bancários. O futuro do sistema financeiro passa pela inclusão, não apenas pela inovação A tendência observada por analistas é a convivência entre canais digitais e atendimento presencial, com funções diferentes, mas complementares dentro do ecossistema financeiro. Instituições que conseguirem estruturar essa divisão de forma clara e eficiente tendem a ocupar posições mais sólidas num mercado que valoriza tanto a agilidade tecnológica quanto a capacidade de atender consumidores em diferentes estágios de inclusão financeira. Para Márcio Alaor de Araújo, a transformação do sistema financeiro brasileiro não se completa sem que a inclusão acompanhe a inovação. Modernizar sem incluir significa ampliar uma divisão que já existe e que se reflete, de forma concreta, na vida de milhões de brasileiros que ainda dependem de um correspondente bancário no interior do país para acessar serviços que nas grandes cidades estão a um toque de tela de distância.