Os casos de Ebola ultrapassaram mil na República Democrática do Congo, onde profissionais de saúde estão sendo infectados antes mesmo que alguém perceba que estão tratando o vírus mortal, expondo uma perigosa fragilidade nos esforços para conter um dos surtos de crescimento mais rápido do mundo. Pelo menos 78 enfermeiros, médicos e outros profissionais de saúde adoeceram e 18 morreram durante a epidemia, de acordo com o Instituto Nacional de Saúde Pública do Congo. Muitas das infecções ocorreram em clínicas e hospitais comuns, e não em centros especializados no tratamento do Ebola, segundo especialistas que atuam no combate ao surto. — Até o momento, todos os profissionais de saúde infectados contraíram a doença fora de instalações de tratamento de Ebola — afirma Abdou Sebushishe, coordenador médico do International Medical Corps no Congo. O surto de Ebola em Bundibugyo geralmente começa com sintomas semelhantes aos da malária e outras doenças comuns, o que significa que os profissionais de saúde podem ser expostos antes que a doença seja suspeitada e medidas rigorosas de controle de infecção sejam implementadas. Sebushishe disse que as infecções foram amplamente relacionadas a medidas de controle de infecção deficientes, escassez de equipamentos de proteção, treinamento inadequado e vigilância precária em instalações de saúde. A Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou que a transmissão do Ebola é amplificada em ambientes de saúde quando as medidas de prevenção de infecção são inadequadas. Os sintomas iniciais são inespecíficos e podem atrasar o diagnóstico, informou a agência na sexta-feira, em uma atualização sobre o surto. O Congo registrou 1.003 casos confirmados e 254 mortes até 20 de junho, de acordo com dados divulgados pelo governo no domingo. O número de pacientes recuperados subiu para 100 após oito pessoas adicionais serem declaradas curadas. O surto permanece concentrado na província de Ituri, que responde por mais de 90% das infecções confirmadas. As instalações de tratamento na região estão sob crescente pressão, com enfermarias de isolamento operando acima da capacidade, à medida que o número de pacientes que necessitam de cuidados continua a aumentar. Tratamento gratuito As autoridades estão oferecendo atendimento médico gratuito em toda Ituri durante o surto para incentivar o diagnóstico e o tratamento precoces. A capacidade laboratorial foi ampliada e a vigilância reforçada, enquanto os profissionais de saúde estão sendo requalificados em prevenção e controle de infecções. Mesmo assim, a resposta continua a enfrentar grandes desafios. A proporção de contatos identificados que foram rastreados com sucesso pelas autoridades de saúde caiu para 58% no sábado, ante mais de 70% no início da semana, o que evidencia a dificuldade de rastrear as cadeias de transmissão em áreas afetadas por conflitos. "Em uma escala de zero a 10, considerando o nível necessário para esta resposta, eu diria que estamos em torno de três ou quatro", disse Marie Roseline Belizaire, líder da resposta a emergências da OMS na África, em entrevista à ONU News. "Agora contamos com apoio psicossocial e nutricional que oferece assistência aos pacientes confirmados, suas famílias e os contatos que estamos monitorando, para que possamos adotar uma abordagem holística para este surto." Apesar dos contratempos, as autoridades afirmam que mais pacientes estão sobrevivendo à doença e que os esforços de divulgação junto à comunidade estão sendo ampliados. Doadores internacionais e líderes africanos prometeram, neste mês, cerca de US$ 910 milhões para ações de resposta e preparação contra o Ebola, refletindo a preocupação de que o surto possa se prolongar por meses, apesar da crescente escala da resposta. De porta em porta Dezenas de estações de rádio no Congo começaram a transmitir mensagens pré-gravadas para disseminar informações de segurança. Em uma delas, uma voz feminina otimista informa aos ouvintes que podem lavar as mãos com cloro caso não haja água disponível. Em Uganda, a televisão deve dedicar 30 minutos de sua programação diária ao ebola. Líderes religiosos, incluindo o arcebispo de Goma, fizeram um apelo à população para que adote medidas preventivas. As comunidades precisam entender que “elas são as que têm o poder de impedir isso”, disse Grace Wairima Ndungu, gerente sênior de comunicação e mídia para a África da Mercy Corps. Agora, voluntários também começaram a levar as informações diretamente para as casas das pessoas. O Unicef, por meio de uma parceria com a ONG Remed, ajudou a treinar 900 homens e mulheres de várias aldeias e comunidades nas zonas de saúde de Mongbwalu e Nyankunde na semana passada para irem de porta em porta e conversarem com as pessoas que conhecem. O programa está sendo ampliado a cada semana. O treinamento de um dia ensina as pessoas sobre prevenção, como ajudar a rastrear contatos e para onde levar alguém que esteja doente, de acordo com Boureima Konate, chefe de mudança social e comportamental do Unicef no Congo. — As pessoas estarão mais propensas a ouvir alguém em quem confiam, alguém que sabem que é sério e confiável — diz ele. — Alguém que conhece sua esposa, que conhece seus filhos, que compareceu ao casamento da sua filha. É ele quem virá e lhe dirá que o Ebola está aqui, que é real, que precisamos ter cuidado. Alguns grupos inesperados também estão se juntando à luta. Em 10 de junho, dezenas de mototaxistas invadiram as ruas de Bunia e Rwampara em uma procissão buzinando, vestindo camisetas com os dizeres “Pare o Ebola” estampados em letras vermelhas. Eles compartilharam instruções de segurança e distribuíram álcool em gel. Fuga dos centros de tratamento Pacientes com Ebola estão fugindo de centros de tratamento na República Democrática do Congo em busca de comida, o que evidencia como a fome se tornou um dos maiores obstáculos para conter o vírus. Equipes de resposta ao surto estão “vindo até nós, batendo à nossa porta e dizendo: ‘Precisamos de assistência alimentar se quisermos acabar com o Ebola’”, disse David Stevenson, que dirige as operações do Programa Mundial de Alimentos no Congo e passou três décadas trabalhando em emergências humanitárias. — Nunca vi nada parecido. Relatórios do governo documentaram mais de 150 fugas de instalações de tratamento e isolamento do Ebola desde o final de maio. Em um incidente, 11 pacientes suspeitos fugiram de um hospital em Bambu, a cerca de 40 quilômetros do epicentro do surto, próximo à cidade mineradora de ouro de Mongbwalu, devido ao suporte nutricional inadequado, segundo autoridades de saúde. Outros relatos relacionaram as fugas de pacientes à escassez de alimentos e às más condições de vida. Mesmo antes do surto, o leste do Congo já enfrentava deslocamentos generalizados, conflitos e uma das piores crises de fome do mundo. Agora, essas pressões se somam aos esforços para conter um vírus que já infectou quase 900 pessoas, matando mais de um quarto delas. A insegurança alimentar afeta quase 10 milhões de pessoas nas províncias do leste do país, complicando não apenas os esforços para isolar pacientes, mas também para monitorar pessoas expostas ao vírus. As autoridades de saúde estão atualmente monitorando cerca de 6.400 pessoas que podem ter sido expostas ao Ebola. As famílias que precisam permanecer sob observação frequentemente perdem o acesso ao trabalho, aos mercados e a outras fontes de renda. — Se você confina as pessoas, elas precisam de apoio alimentar. E se não receberem comida, elas irão se deslocar — diz Olivier Nkakudulu, chefe de operações de campo em Ituri, província que concentra mais de 90% dos casos confirmados, do Programa Mundial de Alimentos. As consequências podem ser especialmente graves quando a pessoa em observação é o principal provedor da família. — Imagine se colocássemos uma mãe solteira em isolamento, o que aconteceria com as crianças? — questiona Godfrey Ayena, diretor nacional da organização Food for the Hungry em Uganda. Desafios semelhantes podem surgir em famílias chefiadas por crianças ou idosos, acrescentou. Em grande parte da região, as famílias costumam fornecer alimentos para parentes hospitalizados, o que significa que as regras de isolamento para o Ebola podem cortar abruptamente os pacientes de suas redes de apoio habituais. A agência de assistência alimentar das Nações Unidas está agora fornecendo refeições quentes em centros de tratamento do Ebola e entregando alimentos a pacientes, contatos monitorados e famílias afetadas. Esta semana, 590 refeições quentes foram distribuídas em um único dia para pacientes suspeitos e confirmados, contatos sob observação e cuidadores. Profissionais de saúde lembram-se de ter enfrentado desafios semelhantes em surtos anteriores. — Quando as pessoas não têm comida, isso as leva ao desespero — diz Kenneth Kobba, um médico de saúde pública ugandense que se prepara para ser enviado ao leste do Congo, onde responderá à sua quarta crise de Ebola.
Ebola: casos chegam a mil enquanto pacientes fogem de centros de tratamento em busca de comida
Voluntários também começaram a levar as informações diretamente para as casas das pessoas em busca de ampliar a conscientização
Ebola na RDC: mil casos (1.003 confirmados, 254 mortos), com 78 profissionais infectados em centros não especializados por sintomas iniciais vagos. Controle de infecção inadequado, vigilância fraca e êxodo de pacientes por fome expõem falhas sistêmicas na resposta sanitária em conflito.









