Temas debatidos no CFO Fórum incluíram ainda acordos comerciais e oportunidades em tecnologia O presidente do IBEF-SP, José Filippo, o ex-presidente da república Michel Temer e Diego Fernandes, fundador da O8 Partners, no CFO Fórum — Foto: Nicolas Calligaro A crescente complexidade do ambiente de negócios global tem levado investidores a incorporar variáveis além dos indicadores macroeconômicos tradicionais na avaliação de riscos e oportunidades no Brasil. “Hoje eles analisam simultaneamente geopolítica, tecnologia, energia, segurança jurídica e estabilidade institucional”, pontuou Diego Fernandes, fundador da O8 Partners, no CFO Fórum, evento realizado pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (IBEF-SP), no último sábado (20), que contou com a presença do ex-presidente da república Michel Temer. A conferência, que reuniu mais de 60 diretores financeiros de grandes companhias nacionais e multinacionais, teve como destaque o painel de abertura com Temer, mediado por Fernandes e pelo presidente do IBEF-SP, José Filippo. O encontro discutiu temas estratégicos para a atração de capital e a relação entre segurança jurídica e desenvolvimento econômico. O ex-presidente apontou a Constituição Federal de 1988 como pilar para sustentação da confiança dos investidores no país. “Temos uma Constituição fortíssima, mas é preciso organizar o cumprimento do nosso estatuto. Caso contrário, cria-se uma instabilidade que impede o aporte nacional ou estrangeiro”, ponderou, ressaltando que o Executivo deve pautar sua atuação pelo diálogo e pela harmonia entre os Poderes. No contexto da geopolítica atual, Temer defendeu que o Brasil adote uma posição multilateralista para preservar suas frentes comerciais. “Hoje, nosso principal parceiro é a China, e o segundo são os Estados Unidos. Os países árabes compram 45% da nossa carne de frango, ao passo que temos acordos tecnológicos extraordinários com Israel. Ou seja, não devemos entrar na briga de outras nações”, argumentou. Tecnologia e futuro Na avaliação de Diego Fernandes, grandes fundos e investidores internacionais mantêm o Brasil no radar. “Estive recentemente com pessoas do Fundo Soberano da Arábia Saudita (Public Investment Fund) e percebo que há muito interesse no país. A questão das terras raras é uma grande oportunidade, bem como de inteligência artificial”, analisou. Por conta da crescente demanda global em áreas como tecnologia e infraestrutura energética, os participantes apostam no potencial brasileiro de atração de investimentos de longo prazo. “Nosso sistema financeiro é um dos mais modernos e sólidos do mundo e têm a confiança de grandes instituições”, acredita o fundador da O8 Partners. Temer reiterou o potencial de ativos nacionais reais, mencionando a segurança hídrica e a extensão de terras agriculturáveis. “O Brasil ainda é país do futuro e precisamos ser otimistas. A nação atravessa diversas crises, mas sempre foi maior do que todas elas.” Risco político Questionado por Fernandes sobre os impactos da polarização política no mercado financeiro, Temer diferenciou o antagonismo saudável de radicalização. “Um exemplo clássico da oposição impulsionando o governo vem do Reino Unido, onde há o gabinete da situação e o chamado gabinete das sombras, que fiscaliza as ações”, disse. Contudo, o ex-presidente afirmou que no Brasil o processo de extremismo vem dividindo a população, as corporações, as instituições e até mesmo os poderes da república. “Isso é o que cria insegurança jurídica, desmoraliza a atividade política e administrativa”, analisou. Diante do calendário eleitoral, Temer defendeu o debate centrado em programas de governo e projetos de longo prazo, reduzindo o apelo passional das campanhas.