Joana Martins levou as mãos à cabeça muito pouco tempo depois de ter tornado pública a sua própria ideia. Propôs-se a ser casamenteira e encontrar par para as mulheres lésbicas que assim quisessem. E 262 quiseram.A ideia veio de um desabafo: “Uma mãe mandou-me mensagem a dizer que a filha tinha 24 anos, era muito trabalhadora e muito gira, que tinha tido uma namorada durante dois anos, mas há um ano e meio estava sozinha”, começa por contar a comunicadora e produtora de conteúdos de 39 anos. “Perguntou-me se eu achava que estava difícil para as mulheres conseguirem outras mulheres.”Mas Joana, casada há dois anos e numa relação há dez, não se sentia propriamente qualificada para responder. Perguntou às suas seguidoras e as respostas foram na mesma onda: “Se souberes onde se encontra alguém, diz-me.”

Joana Martins começou o Lezzie Matchmaker no Instagram

Rui Gaudêncio

É que a excessiva gamificação das aplicações de encontros e a dificuldade em conhecer alguém interessante (um dos principais motivos apontados para a desistência destas apps) têm levado a uma morte há algum tempo anunciada: o Tinder caiu de 65,4 milhões de utilizadores activos mensais em 2021 para 50,5 milhões em 2025, segundo um estudo da Sensor Tower, empresa de recolha de dados de economia digital, que estimou também que 75% dos utilizadores são homens.Foi assim que Joana se começou a ver no papel da amiga que apresenta outra amiga porque encontra uma possível conexão entre as duas. Era o início do Lezzie Matchmaker, como chamou a esta ideia.Abriu um formulário. “É o mês do Pride, como não ia à marcha porque estava a trabalhar, pensei que podia ser a minha forma de participar. Achava que iam ser 50 pessoas [a inscreverem-se].” O que aconteceu a seguir foi “inesperado”: ao fim de três horas, estavam 72 pessoas inscritas; depois de oito horas, 260. Decidiu que era melhor fechar as “candidaturas”, já que a tarefa começava a parecer hercúlea.No formulário quis saber coisas como “idade, localização (e se estes eram factores de exclusão), se já tinham estado numa relação com uma mulher, se já tinham feito o coming out, e perguntas sobre o que faziam num dia livre, se eram aventureiras, que papel tem a comunidade LGBT nas suas vidas”. Mulheres entre os 30 e os 40 anos foram as que mais participaram, mas Joana viu mais pessoas com 19 e 20 anos a inscreverem-se do que as que estava à espera.