Diálogos captados por câmeras corporais apontam que agentes acreditavam que um traficante estava no veículo de Daniel Patrício Santos de Oliveira, assassinado há dois meses 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Imagens de câmeras corporais mostraram ação dos PMs minutos antes da morte do empresário na Zona Norte do Rio: carro da vítima foi alvo de mais de 20 tiros — Foto: Reprodução RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 21/06/2026 - 20:45 Morte de empresário na Pavuna expõe operação clandestina policial Imagens recentes de câmeras corporais revelam que a morte do empresário Daniel Patrício Santos de Oliveira, na Pavuna, foi parte de uma operação clandestina. Policiais à paisana usaram ilegalmente um drone particular para monitorar a vítima, acreditando que havia traficantes no veículo. Após atirarem sem abordar, lamentaram o resultado. O caso está sob investigação, e os envolvidos permanecem presos. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Novas imagens de câmeras corporais usadas pelos policiais militares acusados do assassinato do empresário Daniel Patrício Santos de Oliveira, ocorrido há dois meses, na Pavuna, Zona Norte do Rio, revelam que o crime foi resultado de uma operação clandestina com uso irregular de um drone particular para monitorar a vítima. As gravações mostram ainda a participação de agentes à paisana e fora de serviço. Já diálogos captados pelas câmeras nas horas anteriores ao homicídio descartam a hipótese de que a morte tivesse sido encomendada: os policiais acreditavam que havia traficantes armados na picape em que Oliveira trafegava quando foi baleado. Pouco mais de 30 minutos antes dos disparos, às 2h33 do dia 22 de abril, os dois agentes hoje presos pelo crime — o sargento Rafael Assunção Marinho e o cabo Rodrigo da Silva Alves, ambos do 41º BPM (Irajá) — pararam a viatura e começaram a conversar com um homem à paisana, do lado de fora do carro. “Aí, não quer ajudar a gente, não?”, perguntou Assunção. Em seguida, o PM mostrou a tela do celular ao interlocutor e disse que estava monitorando uma moto: “Tá andando pra lá e pra cá na Estrada de Botafogo, não sei se tá com fuzil”. O homem à paisana respondeu: “Quem tá aqui é quem vai entrar agora, cinco horas” — ou seja, ele era um policial que integrava uma equipe do batalhão que só assumiria formalmente o plantão dali a mais de duas horas. Policiais usaram drone para monitorar vítima e localizar seu carro Na sequência, o agente à paisana citou uma série de veículos que considerava suspeitos próximos a “uma festa na choperia”, entre eles uma Rampage branca — justamente o modelo e a cor da picape da vítima. Quando foi baleado, o empresário voltava com amigos de um pagode. Uso de drone O mesmo policial à paisana revelou, então, que havia ao menos mais um agente fazendo o monitoramento: “O tenente tá ali segurando o drone”, disse o homem. Minutos depois, esse oficial — também à paisana — se aproximou do grupo e foi filmado pela câmera corporal de um dos agentes com um controle remoto de drone nas mãos. Os quatro passaram a monitorar juntos a movimentação de uma moto pela tela do aparelho, enquanto o tenente guiava o equipamento: “Ela rodou todas as bocas”, afirmou um dos agentes. Minutos depois, os policiais comemoraram ter supostamente encontrado algo nas imagens: “Vê se ele tá com alguma coisa boa, chefe”, disse Assunção ao tenente. Foi nesse momento que o sargento Assunção e o cabo Alves retiraram as câmeras dos coletes e as deixaram dentro da viatura. Por nove minutos, conversaram com os outros agentes sem serem gravados, até voltarem ao carro e partirem em direção ao local do crime. Nos 15 minutos seguintes, foram guiados por telefone até o ponto em que bateriam de frente com a Rampage da vítima. Após atirar contra o carro da vítima sem dar ordem de parada ou abordar seus ocupantes, a dupla ligou para um dos colegas que fazia o monitoramento, que logo perguntou sobre o sucesso da operação. “Deu bom?”, quis saber o interlocutor. Assunção respondeu negativamente, lamentando o resultado da ação. Oficial afastado Uma hora depois, já a caminho da delegacia, o cabo Alves voltou a mencionar a participação de mais policiais na ação. “Pela sua experiência, como vai ficar isso aí? Cadê os caras lá de cima agora?”, perguntou ao colega. Antes de saírem da viatura, Alves fez mais uma pergunta: “O tenente falou mais alguma coisa?”. Assunção se limitou a dizer que não. Procurada, a PM afirmou em nota que “o Inquérito Policial Militar relativo ao caso segue em curso”. Segundo a corporação, o oficial que participou da ação “foi afastado do serviço nas ruas e está sob investigação no procedimento”. A PM também acrescentou que “a utilização de aeronaves remotamente pilotadas (drones) em suas atividades segue estritamente a legislação brasileira e as normas de segurança aérea vigentes”. Já nos depoimentos que prestaram após o crime, os dois PMs acusados omitiram o uso de drones e a participação dos agentes à paisana na ação. Com base na análise das imagens, o Ministério Público do Rio e a Corregedoria da PM identificaram os policiais à paisana que aparecem nas gravações. Ouvidos, eles confirmaram que o drone usado na ação não pertencia à corporação e afirmaram que o aparelho era de um colaborador. Pela norma interna da PM, todo drone usado em ações oficiais “é equivalente a uma viatura e, consequentemente, requer um número de ordem (prefixo) para fins de emprego operacional”. Ou seja, o uso de aparelhos particulares não é permitido. Para tentar localizar a aeronave usada naquele dia, a Justiça expediu mandados de busca e apreensão contra os agentes. O drone, no entanto, não foi encontrado nem nos endereços particulares dos policiais nem no batalhão. Assunção e Alves seguem presos. O carro que Oliveira dirigia, com outros três ocupantes que escaparam ilesos, foi alvo de mais de 20 tiros de fuzil.