Eventos fortuitos e alheios à ação dos governantes —como o desempenho da seleção na Copa— influenciam o comportamento dos agentes políticos? A democracia funciona quando os eleitores recompensam bons governantes e punem maus governantes. Mas se os cidadãos atribuem responsabilidade a governos por acontecimentos que não controlam, a racionalidade do processo democrático está em xeque. Autocratas mobilizam sucessos em eventos para alavancar popularidade, mas sua sobrevivência no cargo depende de força bruta e abuso de poder, não de eleições.

O debate está polarizado e teve início com um estudo clássico sobre a campanha presidencial americana de 1916 que concluiu que uma série de ataques de tubarão na costa de Nova Jersey teria reduzido o apoio eleitoral ao presidente Woodrow Wilson nas localidades afetadas.

Eventos negativos geram respostas emotivas –como quando pessoas descontam em seu pet as agruras de um dia desastroso. Seus críticos afirmam que não se trata de irracionalidade, mas de política da atenção. Eventos negativos deslocam itens positivos da agenda pública. E vice-versa. Eventos positivos encobrem escândalos. Em casos de desastres há o chamado efeito "rally round the flag" (união nacional), que pode mitigar os efeitos negativos. E também um segundo mecanismo: o efeito "limelight" (ribalta): o desastre joga luz sobre o incumbente. Este hiperfoco expõe incompetência ou irregularidades, magnificando o desgaste. Em raros casos, ocorre o contrário, e o comportamento supereficiente é premiado. Assim, a racionalidade intrínseca ao punir e premiar pelo desempenho continua lá. O que muda é apenas a centralidade da questão na agenda e/ou janela de atenção.