Ritual da "fika" faz parte da cultura e do dia a dia dos suecos Seleção da Suécia durante pausa para hidratação em jogo da Copa do Mundo 2026 — Foto: Henry Romero/Reuters Na Suécia, fazer uma "fika" duas vezes por dia é quase tão obrigatório quanto a nova pausa para hidratação da Copa do Mundo de 2026 – e a seleção sueca leva esse espírito ao campo, quando enfrenta a Holanda neste sábado (20). Essa cultura da "fika" ajuda a explicar por que o país valoriza tanto o equilíbrio entre trabalho e qualidade de vida, dentro e fora dos gramados. A origem do ritual está relacionada com a introdução do café no país no século XVIII. Ao longo dos anos, a tradição foi se consolidando na cultura sueca, principalmente após a adição de bolos e doces na pausa. A palavra "fika", inclusive, não tem tradução e é "kaffi" ao contrário, que é a antiga ortografia da palavra "café" no idioma oficial, explicou a Embaixada da Suécia no Brasil ao Valor. Por estar presente no dia a dia em todo o país, empresas agendam os intervalos de "fika". Algumas companhias reservam até dois momentos: um durante a manhã, normalmente às 10h, e um à tarde, às 15h. A Embaixada explicou ainda que, apesar da pausa oferecida, não há a obrigatoriedade de o funcionário seguir o ritual. O hábito é considerado importante, e não apenas para o descanso, mas para as relações interpessoais no trabalho. “A 'fika' é praticamente sagrada. São poucas as profissões que não a adotam, mas escritórios, médicos e professores sempre param para a "fika" durante 10 ou 15 minutos”, informou ao Valor o sueco David Ringbäck, de 44 anos. Antes de vir para o Brasil em 2005, Ringbäck trabalhou como professor de Ensino Médio na Suécia. Ele explica que, independentemente da ocupação, as demandas do dia já são planejadas pensando na pausa para a "fika". Seja para um café coletivo ou não, a pausa “é uma necessidade, é como ir ao banheiro” e, por isso, não é vista como algo prejudicial para a produtividade, uma preocupação não faz parte da mentalidade da população, diz Ringbäck. David Ringbäck, que vive no Brasil desde 2005 com a esposa brasileira — Foto: Acervo pessoal Ele afirma ainda que o ritual é a “liga” entre as pessoas e um momento importante de conexão entre família e amigos. Como a Suécia é um país frio e escuro – em que poucos dias do ano há sol – o café da fika vem como estímulo e comunhão para a população, ressalta. Nos locais de trabalho, conta ele, normalmente há o fikarum – ou copa, para os brasileiros – que é justamente o lugar específico para a fika. Quando o horário marcado da pausa chega, os suecos vão até essa sala para tomar café, comer bolo e conversar sobre assuntos corriqueiros da sociedade, eventos, últimas notícias e, até mesmo, trabalho, diz o professor. Apesar de ser um costume diário, não há uma regra específica sobre como esse ritual deve acontecer, lembra a Embaixada da Suécia no Brasil. A única obrigatoriedade é fazer uma pausa genuína e aproveitar o momento. A "fika" também está ligada ao "lagom", que significa "na quantidade certa" e é um conceito usual na vida e comportamento dos suecos, explicou a Embaixada. “A verdade é que não existe uma tradução literal, mas a interpretação é de que não se deve exagerar em nada e que o equilíbrio é fundamental para uma vida saudável e feliz. Fika, que pode ser usada tanto como substantivo quanto como verbo, entra nesse movimento como parte essencial desse equilíbrio, entre trabalho e descanso” , exemplificou o órgão. *Estagiária sob supervisão de Diogo Max