Com o movimento dos últimos dias, os juros futuros acumularam um salto de cerca de 60 pontos-base (ou 0,6 ponto percentual) nos vértices mais estressados da curva Os juros futuros fecharam em forte alta nesta sexta-feira (19), em especial nos vértices de médio e longo prazo da curva a termo, com o mercado de renda fixa ainda estressado pela comunicação do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central na sua decisão de quarta-feira (17). A percepção de que o comitê se mostrou mais leniente com uma inflação mais elevada faz o mercado precificar uma Selic mais alta no futuro, ainda que espere alguma flexibilização monetária no curto prazo ꟷ causando, assim, uma inclinação da estrutura a termo da curva. Com o movimento dos últimos dias, os juros futuros acumularam um salto de cerca de 60 pontos-base (ou 0,6 ponto percentual) nos vértices mais estressados da curva, dando sequência a um período de intensa volatilidade da renda fixa doméstica e jogando as taxas de volta a patamares próximos de 15%, registrados na primeira metade de junho. Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento para janeiro de 2027 oscilou de 14,245%, do ajuste de ontem, para 14,255%; a do DI de janeiro de 2028 subiu de 14,735% a 14,82%; a do DI de janeiro de 2029 saltou de 14,845% para 14,94% e a do DI de janeiro de 2031 anotou forte alta de 14,76% a 14,885%. O comunicado da última decisão do Copom continuou como objeto de pressão sobre as taxas mesmo depois do forte estresse da véspera. A opção por alongar o horizonte relevante da política monetária em um trimestre e delinear um cenário de Selic alternativo a fim de justificar o corte de 0,25 ponto percentual do juro básico, a despeito da piora do quadro inflacionário descrita pelo próprio Copom, foi percebida pelos investidores como um sinal de que o comitê se desviou da sua meta de inflação. Para Milena Landgraf, CIO da estratégia macro da Jubarte Capital, a comunicação deu a entender que o BC “forçou a barra” para encontrar espaço para baixar a Selic e continuar o processo de flexibilização monetária além de junho, o que gerou perda de credibilidade. Para ela, o BC tinha pouca “margem de erro” no contexto atual. “A maioria dos diretores foram indicados pelo governo atual, estamos num ano de eleição e com uma aceleração muito forte dos gastos com o objetivo claro de aumentar a popularidade [do governo]. O BC tem pouca margem de erro e qualquer deslize implica nessa perda de credibilidade”, aponta. Milena pondera, no entanto, que a ata da reunião desta semana, que será divulgada na próxima terça-feira (23), oferece uma oportunidade para o BC melhorar a mensagem do comunicado. Em particular, ela espera que o Copom esclareça dois pontos: quais são os cenários alternativos delineados pelo comitê na decisão de quarta-feira; e qual o espaço real que o BC enxerga para o ciclo de corte de juros. “Se houver mais transparência em relação ao que o BC está vendo de espaço para cortes, o mercado ficará mais tranquilo. O medo é que ele veja um espaço maior do que os fundamentos permitem, mas se foi apenas uma preferência por mais um corte de 0,25 ponto percentual, não há motivo para estresse”, argumenta a gestora. Nos preços atuais, o mercado espera a retomada da alta da Selic antes mesmo de 2026 terminar, além de um juro básico acima de 15% já no ano que vem. “Em síntese, a combinação de diagnóstico mais duro com decisão leniente produziu um comunicado contraditório, que fragilizou a credibilidade da autoridade monetária e contribuiu para a piora das condições financeiras”, escreve a equipe de economistas da consultoria 4Intelligence, em relatório divulgado hoje. Assim como Milena, eles avaliam que o Copom deve se concentrar em esclarecer a sua comunicação nos próximos dias. “Ainda há tempo para correção de rumo. A ata da reunião, o Relatório de Política Monetária de junho e a entrevista subsequente oferecem oportunidades concretas para alinhar mensagem e estratégia. A reancoragem das expectativas exigirá comunicação clara, consistente e inequivocamente comprometida com a meta. Sem isso, o custo desinflacionário tende a se elevar.” Além dos juros futuros, a sessão de hoje também exibiu um estresse relevante nas NTN-B, cujas taxas saltaram em ritmo similar ao dos DIs. Ontem, a fim de precificar uma inflação mais elevada diante da percepção de um BC leniente, as taxas das NTN-B pouco se moveram, contrastando com o estresse dos juros futuros. Uma elevação dos juros futuros em relação aos juros reais das NTN-B indica a expectativa por um IPCA mais elevado à frente ꟷ medida conhecida como “inflação implícita”. Hoje, porém, o movimento foi diferente: a taxa da NTN-B com vencimento de agosto de 2028, por exemplo, subiu de 8,82% para 8,84%, enquanto a da NTN-B para agosto de 2032 escalou de 8,52% a 8,65%. — Foto: Ali Rezaei/Unsplash