Com a possibilidade de um El Niño mais intenso, analistas mapeiam os riscos para empresas do agronegócio e apontam quais companhias podem sentir mais os efeitos do clima O El Niño ainda não chegou, mas já entrou no radar de algumas das principais empresas do agronegócio brasileiro. O clima foi um dos temas discutidos pela SLC Agrícola em encontro com investidores e também passou a ocupar relatórios de bancos e corretoras, que tentam prever os possíveis impactos sobre companhias como SLC, BrasilAgro, 3Tentos, São Martinho e Jalles Machado. Historicamente, o El Niño costuma alterar o regime de chuvas no Brasil, favorecendo algumas regiões e prejudicando outras. Isso significa que algumas empresas podem colher os benefícios de um clima mais favorável, enquanto outras correm o risco de ver a produtividade das lavouras diminuir. No caso da SLC Agrícola, a preocupação está concentrada nas áreas do Centro-Norte do país, onde a companhia mantém boa parte de suas operações. Em relatório divulgado após encontro com executivos da empresa, o BTG Pactual afirma que o El Niño aumenta o risco de condições mais secas nessas regiões e, consequentemente, de uma produtividade menor para a próxima safra. Apesar disso, o banco evita previsões mais alarmistas. Os analistas Thiago Duarte e Guilherme Guttilla lembram que o histórico do fenômeno climático não aponta necessariamente uma relação direta entre El Niño e quebra de safra. Ao analisar as últimas duas décadas em Mato Grosso, principal estado produtor de soja do país, o BTG observa que os impactos variaram bastante de um ciclo para outro. Em alguns episódios mais intensos, a produtividade caiu. Em outros, os efeitos sobre as lavouras foram bem mais limitados. Foi justamente a falta de um padrão claro nos episódios anteriores que levou o banco a adotar uma postura mais cautelosa. A instituição reduziu ligeiramente suas projeções de produtividade para a safra 2026/27, mas considera prematuro trabalhar com um cenário de fortes perdas. "O El Niño aumenta a probabilidade de uma produtividade menor, mas não oferece um roteiro claro para o que acontecerá em cada safra", resumem os analistas. Quem ganha e quem perde com o El Niño A SLC não é a única empresa do setor no radar dos analistas. A XP colocou a companhia e a BrasilAgro entre as empresas mais expostas aos efeitos do El Niño. E o motivo é geográfico, já que boa parte das fazendas das duas companhias está localizada em regiões do Norte e Nordeste do país, justamente onde o fenômeno costuma provocar redução das chuvas e temperaturas mais altas. Segundo a corretora, 53% das terras da SLC e 55% da área da BrasilAgro estão posicionadas em regiões potencialmente mais vulneráveis aos efeitos do fenômeno. A irrigação ajuda a reduzir parte desse risco, mas ainda representa uma parcela pequena da área total cultivada pelas empresas. Nem todas as companhias do setor, porém, aparecem do lado negativo dessa equação. A XP vê a 3Tentos como uma possível beneficiária caso o fenômeno se confirme. Com forte presença no Rio Grande do Sul, a empresa pode ser favorecida por um cenário de chuvas mais abundantes na região. Depois de anos marcados por estiagens e perdas agrícolas, uma normalização do clima teria potencial para melhorar a produtividade das lavouras, estimular a demanda por insumos e beneficiar outras áreas de atuação da companhia. Para as produtoras de açúcar e etanol São Martinho e Jalles Machado, os efeitos não estariam necessariamente dentro das fazendas brasileiras, mas na Ásia. Isso porque o El Niño costuma reduzir as chuvas em importantes regiões produtoras da Índia e da Tailândia, dois dos maiores fornecedores globais de açúcar. Se isso acontecer, a oferta mundial pode ficar mais apertada e sustentar preços maiores da commodity. O que esperar? Embora a possibilidade de um El Niño mais intenso tenha colocado o fenômeno de volta no radar dos investidores, a XP pondera que os impactos podem ser menos severos do que o mercado vem projetando. A própria corretora resume o cenário como um "tema quente, mas longe de garantir perdas de produtividade". Os analistas lembram que a agricultura brasileira tem demonstrado capacidade de adaptação crescente aos eventos climáticos. No caso da soja, por exemplo, o principal risco continua concentrado na região do Matopiba, área que reúne partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Já estados do Sul podem até registrar ganhos de produtividade em razão do aumento das chuvas. Mesmo sob um cenário climático mais adverso, a XP projeta uma queda de 5% na produtividade da soja brasileira. O impacto seria perceptível para os produtores, mas não a ponto de provocar uma quebra generalizada da safra. — Foto: Getty Images
El Niño preocupa empresas do agro na bolsa; veja quem pode ganhar e perder
Com a possibilidade de um El Niño mais intenso, analistas mapeiam os riscos para empresas do agronegócio e apontam quais companhias podem sentir mais os efeitos do clima
El Niño coloca SLC Agrícola e BrasilAgro em risco (53-55% terras vulneráveis); 3Tentos beneficia no Rio Grande do Sul. Resiliência operativa brasileira limita perdas (-5% soja); volatilidade sinaliza riscos macro nos mercados emergentes.















