Há dez anos, um homem mudou de número de telefone, de endereço, de continente, pôs um oceano entre ele e os pais e sentencia que esses dez anos foram os melhores de sua vida.

"O Aniversário", que valeu a Andrea Bajani o Prêmio Strega em 2025, começa com uma pergunta que a mãe fez na última vez que se viram: "Você vem nos visitar de novo?"

A narrativa que se segue ao capítulo introdutório é a resposta a essa pergunta, ou melhor, é o desdobramento analítico dessa pergunta que a mãe não teria conseguido formular e que o autor tenta recriar a partir de suas lembranças imprecisas.

O romance é pontuado por fórmulas que enfatizam esse caráter impreciso das lembranças que compõem seu relato familiar e a possibilidade de que os eventos não tenham ocorrido da forma como relata. Ora, essa é exatamente a natureza de qualquer memória, sobretudo as traumáticas —repetir essa afirmação interrompe desnecessariamente o relato e tira um pouco do ritmo intimista que o autor imprime tão bem ao texto.

É um fato notável que a literatura contemporânea está dominada por relatos autoficcionais que reconstroem cenas da vida familiar dos autores. No caso de "O Aniversário" não é diferente: o romance reconstrói a vida da mãe do narrador, uma mulher que passou a vida habitando sua própria invisibilidade como quem mora num cômodo sem janelas.