Há 25 anos, Jimmy Wales pede o seu dinheiro para manter vivo o maior projeto colaborativo da história da internet, a Wikipédia. As doações, que chegaram a US$ 189,5 milhões em 2025, se tornaram ainda mais importantes nos últimos anos, que viu a formação da tempestade perfeita pra a distorção dos fatos: polarização, era da pós-verdade e inteligência artificial (IA). A enciclopédia digital ganhou mais confiança na internet, mas nem sempre foi assim. No começo, o projeto era visto com certo ceticismo pela suposta falta de qualidade — afinal, como poderiam voluntários desconhecidos escrever a maior enciclopédia do mundo sem tropeçar na qualidade e precisão? Foi um trabalho que exigiu a colocar em prática princípios profundos de confiança e colaboração, dois dos pilares daquilo que ficou conhecido como Web 2.0. Agora, Wales divide essa experiência no livro "As sete regras da confiança" (Objetiva, R$ 79,90), escrito em parceria com o jornalista Dan Gardner. Wales conversou com o GLOBO sobre como a Wikipédia navega o atual momento, que exige equilíbrio entre o impacto de algoritmos na operação da organização, os ataques que recebe da direita americana e o extremismo gerado por redes sociais — como muitos, ele se recusa a chamar o "Twitter" de "X". Apesar de demonstrar diversas vezes que não gosta da pracinha virtual de Elon Musk, mantém otimismo: " As pessoas não são tão horríveis quanto parecem no Twitter". Veja os melhores momentos da conversa abaixo. Em 25 anos, a Wikipédia passou de um lugar que merecia desconfiança por sua qualidade para um lugar que merece confiança por sua qualidade. O que mudou? A nossa relação com o ambiente digital piorou? Eu sempre digo que não éramos tão ruins quanto pensavam que éramos, e não somos tão bons quanto pensam que somos. Então, parte disso se deve ao fato de que a qualidade melhorou. Tivemos mais tempo para trabalhar nisso. E parte disso é que as pessoas tiveram tempo para se acostumar com a ideia e perceber que temos fontes e regras. Não é mais algo estranho. Isso tem mais a ver com o fato de termos nos tornado mais digitais. Também acho que as pessoas perceberam quanta informação ruim existe por aí. Na Wikipédia, você não vai ser enganado por algum meme de redes sociais. Uma das suas regras é: presuma boa-fé. Isso ainda funciona? Obviamente você tem que ter pensamento crítico sobre tudo o que vê, mas, no dia a dia, a maioria das pessoas que você encontra aleatoriamente são legais. Algumas delas sempre serão ruins, e um dos problemas que temos é que os algoritmos das redes sociais tendem a promover o tipo errado de pessoa. Eles promovem aquelas que estão com raiva, que estão trollando, que espalham desinformação. Isso gera ainda mais incentivo, porque se você quer ficar popular nas redes sociais, precisa ser um troll realmente talentoso. Se você for muito bom nisso, pode até se tornar presidente dos Estados Unidos. Mas as pessoas não são tão horríveis quanto parecem ser no Twitter. Então, o senhor está me dizendo que a Wikipédia nunca terá algoritmos de recomendação? Não temos interesse nisso. A Wikipédia é a Wikipédia. Estamos bem do jeito que estamos. Estamos há mais de 10 anos falando de polarização e era da pós-verdade na internet. Tem alguma solução? Fizemos algum progresso? Algumas dessas coisas são difíceis de medir. Certamente, quando olhamos para a pesquisa do Edelman Trust Barometer, a confiança continuou a diminuir, e isso é bastante ruim. Mas vejo alguns sinais positivos, embora eu sempre avise às pessoas que sou um otimista patológico. Acho que as pessoas estão cada vez mais entendendo que as redes sociais podem ser ruins. Pessoalmente, tirei o Twitter do meu celular há algum tempo, e isso melhorou minha vida. Acho que as pessoas em posições de liderança precisam levar muito a sério essa questão de confiança. Os custos de não fazer isso são bem altos, quando vemos a ascensão de governos autoritários ao redor do mundo ou a desinformação médica. Como o senhor reage quando encontra um verbete na Wikipédia de que não gosta? Depende. Para mim, dar minha opinião é algo um pouco sério, então tento ser um pouco mais moderado. Deixar uma mensagem na página de discussão é sempre algo bem simples e também é possível editar. Recentemente, me diverti bastante com uma situação. Vi um post no Reddit, que levava a um link na Wikipédia. O post dizia que um sobrevivente do Titanic também foi figurante no filme. Mas a fonte não parecia confiável, então me aprofundei no tema, e descobri que ela era o trecho de um livro de ficção. Ao final, editei o verbete na Wikipédia e me senti bem. Passei umas duas horas trabalhando nisso Senti que deixei o mundo um pouquinho melhor. Novo livro de Jimmy Wales discute os princípios da confiança — Foto: Divulgação/Objetiva Mas esse assunto não é tão controverso. Como o senhor trataria a guerra na Ucrânia, por exemplo? Na minha posição, faço um pouco diferente do que outras pessoas deveriam fazer. Tenho uma posição um tanto incomum, que trata-se realmente de falar sobre os valores, sobre o que estamos tentando fazer, sobre ser neutro e citar as fontes. Sempre digo que tenho uma tendência a ser mais “eventualista”, ou seja, que em algum momento vamos acertar. Assuntos como esse são questões emocionais. Não seria surpresa se a Wikipédia ucraniana fosse um pouco mais negativa em relação a Putin do que em outros países línguas. Esses temas podem ser bastante desgastantes emocionalmente para pensar e lidar de maneira ponderada. Nos últimos anos, a Wikipédia tem sido atacada pela direita, especialmente nos EUA. Por que? É complicado. Quando Elon Musk nos chama de "Wokepédia" e diz que fomos dominados por ativistas de extrema-esquerda, eu fico: “isso não é verdade e é ridículo”. É o mesmo que dizer que o New York Times ou o Washington Post foram dominados por ativistas de extrema-esquerda. Isso não quer dizer que eles não têm nenhum viés, mas a minha resposta para isso é que, temos que lidar com isso. Temos que refletir sobre isso. E se alguém nos critica por termos um viés, não devemos apenas rebater e ignorar, devemos dizer: "Ok, venha conversar com a gente". Como podemos ser melhores? Normalmente, eu acho que somos menos tendenciosos do que a própria mídia que utilizamos como fonte. Mas sempre podemos melhorar. Vamos conversar sobre isso. Vamos debater, porque eu não acho que a Wikipédia seja mágica. Podemos errar, assim como qualquer outra pessoa. Ao mesmo tempo, também precisamos dizer que existem pessoas que estão em guerra com a realidade. E eu não posso fazer muita coisa por elas. Teve uma história no Twitter de malucos por OVNIs que ficaram super irritados com a Wikipédia porque não estamos relatando o “fato óbvio” de que a Terra está sendo dominada por marcianos. Nessa, eu não posso te ajudar. Por que a Grokipédia, de Elon Musk, não deu certo? Bem, acho que o principal motivo do fracasso é que a qualidade simplesmente não existe. E também tem o fato de que, embora o Elon tenha dito que ela seria mais neutra do que a Wikipédia, a Grokpédia parece concordar com muitas das posições políticas mais exóticas dele, o que não é exatamente o que eu chamaria de neutralidade. Há um problema de confiança aí. As pessoas olham para aquilo e dizem: "Bom, essa é a visão de mundo do Elon. Isso é verdade? É propaganda?". Esse é um dos motivos pelos quais fico muito feliz em sempre dizer que a Wikipédia nem sempre concorda comigo. Às vezes acho que estamos errados. Às vezes acho que não estamos acertando. E tudo bem. Isso faz parte do processo. O que a torna confiável é justamente o fato de eu não estar nos bastidores ditando o que ela deve dizer. Como proteger a Wikipédia dos impulsos de compras de bilionários não só hoje, mas também no futuro? Somos uma instituição filantrópica. Somos uma organização sem fins lucrativos. Somos mantidos pelo público geral.A grande maioria das doações vem de pequenos doadores. Isso é fundamental para a nossa independência intelectual. Não somos dependentes. No passado, algumas pessoas me diziam: "Ah, por que vocês estão sempre pedindo dinheiro? Por que não deixam o Google ou alguém como o Elon Musk pagar por isso?" Hoje em dia não dizem tanto porque agora elas entendem... E eu respondia: "Bem, pare para pensar. Isso não teria sido uma boa ideia". Inclusive, o Elon já nos doou dinheiro no passado. Imagine se, há 10 anos, o Elon tivesse dito: "Jimmy, você está perdendo muito tempo com arrecadação de fundos. Prefiro que você foque apenas na enciclopédia. Eu financio tudo". Isso teria sido muito tentador, mas agora estaríamos encrencados. Ficaríamos totalmente dependentes de uma única pessoa. Seria um verdadeiro desastre. Então, ter essa base ampla de doações é crucial para manter a Wikipédia segura. Por isso, a todos que doam, obrigado. Isso nos ajuda bastante. Uma vez o Elon tuitou "cortem os fundos da Wikipédia", e nós arrecadamos cerca de US$ 5 milhões naquele dia. Então, tudo bem. Além de tomar conteúdo sem autorização, chatbots de IA colocam muita pressão na infraestrutura da Wikipédia. Os acordos atuais são justos? De que maneiras essas big techs deveriam remunerar a Wikipédia? Os editores deveriam ser remunerados também? Somos um pouco diferentes da maioria dos publishers e devemos deixar isso claro desde o início, porque somos uma organização sem fins lucrativos com a missão de oferecer a todos no mundo uma enciclopédia gratuita. Todo o nosso conteúdo está sob uma licença livre. É como um software de código aberto, mas há uma exigência de atribuição, e a IA é muito ruim com isso. A segunda questão é sobre a sobrecarrega de nossos servidores. Nossa licença não diz que você tem permissão para sobrecarregar nossos servidores e é por isso que estamos direcionando essas empresas para o feed, nosso produto enterprise. Mas somos diferentes em comparação com os editores de notícias, que têm conteúdo protegido por direitos autorais. Esse será um campo de batalha emergente nos próximos anos. Uma das coisas com as quais precisamos ter cuidado é que os fatos não são protegidos por direitos autorais e não acho que devemos mudar isso, porque isso prejudica o fluxo de informação na sociedade. Quando o senhor criou a Wikipédia e sua licença de uso, não estava pensando na extração sistemática de seus dados para que organizações tivessem lucros enormes. A gente não sabia nada sobre IA, mas isso não é algo que nos incomoda particularmente. Imagine como seria ruim para a sociedade se a IA fosse treinada apenas com dados do Twitter. Ela seria muito raivosa e estúpida. Estamos felizes por fazer parte da infraestrutura do mundo. Quais ferramentas de IA o senhor usa em sua rotina e para quais tarefas? Uso as principais o tempo todo: Claude, Gemini e o ChatGPT. Uso também modelos locais, que podem ser baixados. Eu inclusive comprei o notebook mais caro da minha vida para conseguir rodar uma IA melhor localmente. Você pode fazer muita coisa bacana com modelos de código aberto, como o Qwen ou o DeepSeek. Eu sou programador, mas não sou muito bom. Então, eu brinco escrevendo pequenos scripts e fazendo um "vibe coding" de algumas coisas por diversão. Mas, na maior parte do tempo, estou apenas usando para explorar, para aprender.
'As pessoas não são tão horríveis quanto parecem' nas redes, diz fundador da Wikipédia, que conta sua saga em livro
Em entrevista ao GLOBO, Jimmy Wales fala sobre confiança no ambiente digital, os ataques que recebe da direita e o momento da enciclopédia na era da inteligência artificial














