Sistema permite tomadas de decisão operacionais mais eficientes e em tempo real Guilherme Bohnen: “Dado que não muda uma decisão, não é um ativo. É um custo” — Foto: Divulgação Em uma economia cada vez mais digital, novas ferramentas remodelam indústrias e cadeias produtivas, transformam a expectativa do consumidor e criam oportunidades inimagináveis há alguns anos. Essa transformação traz um desafio de adaptação, de execução e de crescimento às empresas. “A maioria das empresas não tem um problema de dados, tem um problema de decisão”, avalia Guilherme Bohnen, CEO da OTO CRM, presente ao Web Summit Rio 2026. Segundo ele, as empresas coletam tudo, armazenam tudo, criam painéis para tudo e não decidem nada diferente do que sempre decidiram. “Dado que não muda uma decisão, não é um ativo. É um custo”. Bohnen acredita que as empresas devem trabalhar para transformar os dados em um diferencial competitivo, com sistemas capazes de gerenciar grandes volumes de informação para tomadas de decisão operacionais cada vez mais eficientes, em tempo real. É o caso da Turbi, startup que promete uma experiência de locação de veículos 100% digital, sem lojas, sem filas. Desde que começou a operar, em 2017, a empresa guarda informações sobre os veículos e como os clientes estão dirigindo. São dados sobre velocidade, frenagem, temperatura do motor etc. Na prática, cada vez que um cliente aluga um carro, a empresa recebe mais de 100 tipos de dados a cada 5 a 10 segundos. “Quando começamos a armazenar essas informações, não sabíamos o que fazer com elas”, admite Daniel Prado, CEO da Turbi. “Hoje, com o avanço da tecnologia, é possível aproveitar os dados.” Isso significa usar os dados para prevenir defeitos nos veículos e gerenciar a manutenção da frota. O resultado é o aumento na vida útil dos carros, menos custos de manutenção e maior disponibilidade da frota. Os dados também são usados para precificar os serviços com mais precisão. Prado explica que embora o preço possa flutuar com a demanda, o objetivo não é fazer a tarifa subir a ponto de “deixar o cliente com raiva”. A ideia é usar as informações sobre o comportamento dos motoristas para alterar as taxas de depósito e de seguro, para reduzir o risco da operação e oferecer melhores condições para quem aluga os veículos. Prado acredita que o modelo de dados foi possível porque a empresa já nasceu digital e isso dá à Turbi uma vantagem sobre as concorrentes estabelecidas no mercado. “E, com o passar do tempo, os dados vão ficar cada vez mais importantes para nós”, afirma. Os dados também são a base para a operação da Loggi, plataforma de logística voltada para o e-commerce. Segundo Rafael Szarf, CEO da companhia, eles são fundamentais para garantir a excelência operacional na oferta de serviços para o varejo eletrônico. “Muitas empresas ainda enxergam a logística como um centro de custos e não como um fator competitivo. Isso é um erro estratégico”, diz. Szarf acredita que o comércio eletrônico continuará crescendo fortemente nos próximos anos, impulsionado por consumidores cada vez mais digitais. Esse movimento atrai os pequenos players para o mercado. Ele estima que, a cada dia, 200 a 500 novas lojas são abertas por pequenos empreendedores no e-commerce brasileiro. O CEO da Loggi entende que a logística não pode ser uma barreira de entrada para o pequeno empresário no comércio eletrônico. “Ainda mais, quando a qualidade da entrega se tornou um diferencial competitivo. Hoje, não é mais só velocidade e preço de frete.” Para isso, a inteligência de dados está em cada passo da operação da Loggi. A começar pela análise de demanda que ajuda a definir a localização dos 2 mil pontos de coleta da empresa pelo país, até a gestão de uma operação capaz de realizar entregas em até três dias com uma cobertura que atende 60% da população. Isso permite que a logística seja “invisível”. “Na verdade, o cliente só lembra da logística quando acontece algum problema”, diz Szarf. Para o empresário, garantir esse nível de serviço permite que o pequeno lojista supere a complexidade do e-commerce e dá a ele credibilidade no mercado. “Ter o selo da Loggi na loja on-line ou no marketplace, hoje, aumenta a confiança do consumidor e isso é essencial para o pequeno varejista no e-commerce”, afirma. Os dados também são essenciais para a Daki, supermercado 100% on-line que opera em São Paulo e Minas Gerais. A arquitetura operacional da empresa garante entrega de compras em até 15 minutos com 99% de precisão no atendimento aos pedidos. O desempenho vem garantindo crescimento anualizado de 50% e margem de contribuição de dois dígitos. Segundo Rafael Vasto, o segredo está em usar os dados para previsão de demanda e posicionamento das “dark stores”, lojas que funcionam exclusivamente para delivery. Hoje são 40 lojas estrategicamente posicionadas, que atendem os pedidos em um raio de no máximo dois quilômetros. Os dados também são utilizados para manter estoques otimizados, evitando excesso ou falta de mercadoria. Ao mesmo tempo, o modelo de loja, onde clientes não entram, garante agilidade na separação dos pedidos. Um sistema de monitoramento impede que pedidos incompletos ou com itens errados saiam da loja. “Tudo isso reduz perdas e ineficiências presentes nos supermercados tradicionais, que sacrificariam nossa margem”, diz Vasto. As vantagens da inteligência de dados não se limitam, no entanto, ao varejo ou à mobilidade. Ela também pode gerar ganhos de eficiência logística para gigantes no setor de commodities. A Vale, por exemplo, usou IA para mapear os pontos de frenagem das suas rotas ferroviárias. Desse modo, foi possível reduzir em 11 milhões de litros por ano o consumo de diesel no transporte de minérios. O resultado são menos custos, com mais eficiência e sustentabilidade na cadeia produtiva da empresa. Os benefícios da tecnologia também alimentam o sonho de startups como a Driver Job, do Rio de Janeiro, que conecta empresas com demanda de transporte a profissionais e condutores verificados para suprir a logística de última milha. Segundo o CEO e fundador da startup, Bruno Nascimento, além de aplicar inteligência artificial na gestão da plataforma, a Driver Job usa o ecossistema da Google para otimizar a entrega dos serviços, oferecendo mapas, rastreamento de mercadorias e previsões automáticas de entrega para os clientes. “Queremos chegar ao varejo que não tem condições de manter uma estrutura própria de entrega”, explica Nascimento. Bohnen, da OTO CRM, resume o cenário: empresas que reduzem o tempo entre a informação e a ação a quase zero estão fazendo uma revolução que vai além da tecnologia em si. “São empresas com capacidade de ter inteligência operacional, na velocidade que o consumidor exige”, conclui.
Coleta e análise de dados é diferencial para aumentar a competitividade da empresa
Sistema permite tomadas de decisão operacionais mais eficientes e em tempo real










