"Se a Europa nos dá dinheiro, por que não devemos aproveitar?" É com esta questão que Nuno Palma nos desafia e nos inquieta no seu novo livro, lançado nestes dias. "Os fundos fazem mal a Portugal no longo prazo", afirma o historiador económico. E vai mais longe: a Europa está presa a uma política de coesão que, em vez de aproximar os países, alimenta dependências, distorce incentivos e adia reformas.O texto aprofunda uma das teses do seu anterior livro, As Causas do Atraso Português, que resumo da seguinte forma: sem instituições, sem capital humano, o excesso de dinheiro fácil corrompe as elites, afasta o controlo e promove a produção de protegidos e de pouco valor económico. Passamos a produzir para nós mesmos. Criamos uma indústria que existe apenas para sugar o dinheiro existente. Alias, não é preciso ter indústria, não é preciso produzir porque o dinheiro é fácil. Sobre a má utilização, refere que em Portugal, sendo tão mal governado, a má utilização é “inevitável, esteja quem estiver no poder”. E a história não é nova: estamos presos a esta maldição há vários séculos.O livro aponta que esta maldição dos recursos não é apenas portuguesa ou dos países da coesão. É uma doença que está a contaminar a Europa. Os fundos deixaram de existir para construir "aquela" estrada, "aquela" barragem, mas passaram a pagar as despesas correntes dos governos. O caso que há anos costumo ilustrar é o do PRR, o Plano de Recuperação e Resiliência: desde o nome até a prática, a ideia não era transformar o país, mas torná-lo resiliente, isto é, capaz de resistir à pressão para… voltar ao estado inicial. A ideia não é mudar. É ficar na mesma. Desde o início, o crescimento nunca foi um desígnio de transformação do país ou de promoção de bons crescimentos. Lembro‑me de salientar muitas vezes que os crescimentos estimados do produto interno bruto (PIB) após o PRR significavam apenas regressar ao mesmo ritmo de crescimento — um crescimento medíocre. Nunca foi sobre transformar a sério, como precisamos.Além do impacto europeu, há uma outra questão. É que a “má utilização” não é conjuntural; a má utilização é estrutural. Palma dá exemplos para mostrar que a ideia tem sido gastar. Executar os fundos. Não é ficar melhor, não é para o que servem, não é se se ficou melhor.Fulcral no debate que o livro abriu não é apenas a tese em si, é a reacção à tese. Porque uma coisa é discordar de Nuno Palma, discutir os seus pressupostos, contrariar os seus dados ou propor uma leitura alternativa. Outra, muito diferente, é recusar sequer olhar para a evidência. A negação da evidência, a negação dos dados, não é uma resposta honesta. O que o professor aponta não é um tema de trincheira ideológica. Estamos a falar de um historiador económico, de um académico cujo trabalho reconhecido foi citado pela Academia Sueca aquando da atribuição do último Prémio Nobel.Se Nuno Palma está errado, então que se mostre em que está errado. Com dados. Com história. Com argumentos. Não com indignação performativa, não com slogans, não com esse reflexo de transformar discordância em suspeita moral. É que nós não temos apenas um problema ao nível da subsidiodependência, temos um severo problema de maturidade política, falta de qualidade do debate público e ainda mais ao nível das políticas públicas.Há, assim, várias decisões a tomar. A vida, e sobretudo as decisões políticas, não podem na maior parte das vezes ser “ou zero ou cem”. Com o debate deste livro vem o que verdadeiramente incomoda: o (baixo) nível de investimento, a qualidade do investimento (medido na sua reprodução, o nível de (não) riqueza, a falta de competitividade, crescimentos medíocres, o desafio da convergência com a Europa, a má qualidade ao nível de elites, os corporativismos e regras viciadas, o conceito de custo de oportunidade. Todos eles são problemas sérios, multifactoriais, e que, não nos iludamos, nos denigrem e comprometem o futuro, económica, social e politicamente.