A cidade se tornou pioneira na legalização do procedimento no país em 2015, e virou referência mundial 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Quebec se tornou pioneira na legalização da morte assistida no Canadá — Foto: Hubert Hayaud/The New York Times RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 16/06/2026 - 17:11 Quebec lidera mortes assistidas, desafia valores católicos e levanta debate ético Em uma década, Quebec se tornou líder mundial em mortes assistidas, após legalizar a prática em 2015. O fenômeno, impulsionado pela integração ao sistema público de saúde e apoio popular, reflete uma transformação social que desafia ensinamentos católicos sobre eutanásia. Atualmente, 8% das mortes em Quebec são assistidas, levantando questões éticas e sociais, enquanto a prática é vista como uma forma digna de morrer. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A parede revestida de madeira, cercada por superfícies em tons suaves de branco e azul, dava ao ambiente o aspecto de um hotel boutique. Em uma fotografia emoldurada acima de uma cafeteira, de um aparelho de som e de um telefone fixo, um pássaro solitário voava próximo a um iceberg. Mas os sofás e poltronas estavam voltados não para a televisão fixada na parede, e sim para a cama hospitalar posicionada no centro da sala. Um grande recipiente plástico para descarte de seringas usadas dava mais uma pista sobre a finalidade do local: uma unidade destinada à morte assistida por médicos. O quarto fazia parte de um novo centro de cuidados paliativos em Lanaudière, região de Quebec, onde 13 em cada 100 pessoas morrem por meio da morte assistida. Trata-se da maior taxa da província, que por sua vez lidera o mundo nesse tipo de procedimento, segundo relatórios dos governos do Canadá e de Quebec. Construído com recursos de doadores privados e administrado pelo governo provincial, o centro reflete dois fatores que impulsionaram Quebec ao topo desse ranking: a integração da morte assistida ao sistema público de saúde e o amplo apoio popular à prática. Desde que Quebec se tornou pioneira na legalização da morte assistida no Canadá, em 2015, a medida provocou uma profunda transformação social na província francófona. Escolher morrer, nos próprios termos e sem sofrimento, passou a ser visto como um direito individual em uma sociedade que rejeitou os ensinamentos da Igreja Católica sobre a eutanásia, considerada um pecado grave. — Este é um fenômeno social que cresceu exponencialmente — afirma o médico Louis Daigle, especialista em medicina de emergência em Lanaudière, que realizou 662 procedimentos de morte assistida desde 2017. — Muitas pessoas passaram a idealizar essa forma de morrer, com dignidade, a ponto de eu acreditar que existe hoje a percepção de que há duas boas maneiras de morrer: de forma repentina ou por meio da morte assistida. O crescimento acelerado — atualmente 8% de todas as mortes em Quebec ocorrem por morte assistida, contra 5% no Canadá como um todo — tem levantado questionamentos dentro e fora da província. Na França, onde o tema está em debate, opositores apontam Quebec como um alerta para o risco de uma expansão gradual e da normalização da prática. A Comissão de Cuidados de Fim de Vida de Quebec, responsável pela supervisão da morte assistida na província, analisa cada caso após o falecimento para verificar se os procedimentos seguiram a legislação, explicou sua presidente, a médica Lucie Poitras. Segundo ela, diferentemente do restante do Canadá, Quebec promoveu um amplo debate público oficial, envolvendo legisladores, profissionais da saúde, especialistas em ética, pacientes e grupos religiosos, durante vários anos antes da legalização da prática em 2014. Esse processo ajudou a construir um consenso social em torno da “importância da autonomia e do controle sobre a própria morte”. — A taxa de Quebec é mais alta do que em qualquer outro lugar do mundo. Existe uma taxa ideal? Eu não acredito que exista. — afirma Poitras. Ainda assim, até mesmo alguns defensores da medida acreditam que a província precisa refletir sobre os fatores que a transformaram em líder mundial em apenas uma década, superando países com legislação consolidada sobre o tema, como a Holanda. Quebec se tornou pioneira na legalização da morte assistida no Canadá — Foto: Hubert Hayaud/The New York Times Manuelle Légaré, conhecida produtora de televisão, criou recentemente a peça Club Sandwich Mayonnaise, inspirada na morte assistida de seu pai, o humorista Pierre Légaré. A obra provocou debates ao levantar questões delicadas: a morte assistida continua sendo um último recurso? A insuficiência dos serviços de saúde estaria incentivando as pessoas a recorrerem a ela? Quebec ampliou o acesso de forma rápida demais — inicialmente restrito a pacientes terminais e, mais recentemente, estendido a pessoas com doenças crônicas ou demência? — Eu queria propor uma pausa para reflexão. Tivemos um grande debate antes da legalização, mas depois ela continuou evoluindo sem que muitas perguntas fossem feitas — diz Légaré, que apoia a prática. Pesquisadores apontam diversas razões para a expansão. Em Quebec, desde o início, a prática foi apresentada como uma forma de morrer com dignidade, evitando termos como “eutanásia” ou “suicídio assistido”, usados em alguns países europeus. Além disso, apenas médicos e enfermeiros habilitados podem administrar o procedimento, enquanto em outras jurisdições cabe ao próprio paciente realizar o ato final. — Nos lugares onde os médicos apenas prescrevem a medicação e os pacientes precisam administrá-la sozinhos, as taxas são muito menores — explica Isabelle Marcoux, professora da Universidade de Ottawa e pesquisadora da área. A morte assistida é totalmente coberta pelo sistema público de saúde de Quebec. Além disso, médicos podem iniciar conversas com pacientes sobre essa possibilidade como uma opção de fim de vida, algo que não ocorre em locais como a Austrália e alguns estados norte-americanos, onde o tema deve partir do próprio paciente, observou a bioeticista Marie-Ève Bouthillier, da Universidade de Montreal. Especialistas afirmam, porém, que o crescimento da prática não pode ser compreendido sem considerar a história recente de Quebec. Durante a chamada Revolução Tranquila, nos anos 1960, a maioria francófona da província passou a se afastar da influência da Igreja Católica, que exercia forte controle sobre diversos aspectos da vida social. Em apenas uma geração, uma sociedade profundamente religiosa e conservadora passou a se definir por valores mais progressistas. A Igreja Católica permanece como a principal opositora da morte assistida em Quebec, argumentando que é moralmente errado encerrar uma vida, mesmo para aliviar o sofrimento, e que tais atos não podem ser considerados cuidados de saúde. Para muitos especialistas, a alta adesão à prática representa uma continuação desse afastamento dos ensinamentos religiosos. As taxas mais elevadas estão justamente em regiões com forte presença de franco-quebequenses, como Lanaudière, que se estende por cerca de 240 quilômetros ao nordeste de Montreal. Ali, 13,4% das mortes ocorrem por morte assistida, muito acima da média provincial de 7,9%. No norte da região, onde a população é predominantemente franco-quebequense e um quarto dos moradores tem mais de 65 anos, a prática é ainda mais frequente. Daigle afirma ouvir frequentemente referências à religião por parte de seus pacientes, a maioria com mais de 80 anos e em estágio avançado de câncer. — Eles dizem que, quando eram jovens, aprenderam que era preciso sofrer para alcançar o céu. Hoje afirmam que isso não faz sentido — conta. — Perceberam que aqueles antigos valores já não correspondiam à realidade e que não havia motivo para sofrer daquela forma. A mudança também se materializou no novo Centro de Cuidados Paliativos e de Fim de Vida de Saint-Charles-Borromée, município localizado a cerca de 80 quilômetros de Montreal. Quando uma fundação de saúde local iniciou uma campanha para construir o centro — incluindo um espaço para morte assistida — arrecadou rapidamente os 8 milhões de dólares canadenses necessários para a obra. Um dos doadores, Jean-François Champoux, presidente da serraria St-Michel, afirmou que o centro tornaria a região mais atraente e ajudaria empresas a recrutar trabalhadores. Quebec se tornou pioneira na legalização da morte assistida no Canadá — Foto: Hubert Hayaud/The New York Times — Há alguns anos seria impossível sequer falar sobre isso — lembra Champoux, de 48 anos, que contribuiu com cerca de 73 mil dólares canadenses em madeira para a construção. Durante muitos anos, médicos de cuidados paliativos se opuseram à morte assistida, embora muitos tenham passado a aceitá-la, explicou a médica Virginie Plante, que atua no centro. A mudança também foi impulsionada por uma lei aprovada em Quebec em 2023, que passou a exigir que centros de cuidados paliativos oferecessem a morte assistida entre seus serviços. No centro de Saint-Charles-Borromée, três funcionários administram um sistema centralizado que recebe todos os pedidos de morte assistida da região. Desde sua inauguração, em setembro do ano passado, mais de 300 pessoas morreram no local. — Em vez de permanecerem em casa ou em um hospital, elas vêm para cá. São acolhidas. O ambiente é tranquilo. Têm seu espaço para morrer com dignidade — afirma Caroline Léger, diretora do centro. Claude Rivest e Georgette Robillard doaram cerca de 150 mil dólares canadenses para o projeto após presenciarem pessoas próximas optarem pela morte assistida. Robillard, de 89 anos, recorda que compreendeu imediatamente a decisão do irmão quando o câncer de pâncreas avançou de forma irreversível. — Não havia nenhuma chance de cura. Era melhor aceitar a situação do que vê-lo sofrer — diz. Um funcionário de longa data, também com câncer terminal, escolheu recentemente a morte assistida, em parte para evitar que sua esposa, já debilitada, sofresse ainda mais com os cuidados exigidos pela doença. — Não acredito que Deus queira que soframos dessa maneira; para mim, Deus é bom — pontua Rivest, de 85 anos, que se afastou da Igreja ao longo dos anos, embora ainda acompanhe a missa pela televisão aos domingos. — Ele deve compreender que sofrer por mais um ou dois meses não traz benefício para ninguém.