O menino abre o pacotinho de figurinhas da Copa e grita de alegria. É a figurinha especial bronze de um jogador dos Estados Unidos. A mãe acompanha a cena com um misto de ternura e surpresa e vai ver o menino colar a figurinha no álbum.

A figurinha, porém, não tem lugar no álbum, não existe para ser colada. Ela tem o propósito de ser mostrada ao Gael, ao Enzo e ao Noah, que ademais já têm as figurinhas especiais do Messi e do Cristiano Ronaldo. A felicidade do menino já não é a mesma. Melhor seria a figurinha especial do Yamal ou do Haaland, mas tudo bem.

A ternura da mãe se esvaiu. O álbum da Copa, além de caro, induz uma competição sem sentido entre as crianças.O pai contemporiza, explica que teria delirado com a figurinha ouro do Ataliba ou do Sócrates e, afinal, criança é assim.

Adultos também são. Marcelos, Ricardos, Danielas e Patrícias têm suas próprias competições. Novos modelos de carros, telefones e roupas exploram essa demanda por status. E quão diferente da figurinha especial ouro é o cartão de crédito diamante ultraplus?

Há muito para admirarmos no sistema de produção e nas economias de mercado de hoje.