Há algo de desconcertante na primeira vez que se vê a obra do alto das margens do Sena. A Pont Neuf, a ponte mais velha de Paris, desapareceu. No lugar da pedra secular e dos arcos familiares, surge uma formação rochosa que parece ter brotado das profundezas do rio —uma caverna de 120 metros de comprimento e até 18 metros de altura, toda em tons de branco, preto e cinza, que apaga a elegância clássica da cidade e põe no seu lugar algo ancestral, bruto, quase pré-histórico.

Quem passa pelos cais ou atravessa uma das pontes vizinhas chega à beira, olha duas vezes e fica ali parado, tentando resolver a equação visual. A sensação pode ser a de um monte coberto de neve, pode ser a de uma cordilheira em miniatura encaixada entre a Île de la Cité e a Rive Droite. Pode ser simplesmente o espanto de ver Paris ser outra coisa.

É essa desorientação calculada que o artista e fotógrafo JR passou anos preparando. "La Caverne du Pont Neuf", ou a caverna da Pont Neuf, sua intervenção mais ambiciosa até hoje, é uma estrutura inflável revestida de tela impressa que recria a aparência irregular do calcário extraído das pedreiras da região de Oise —a mesma pedra com que a ponte foi construída há mais de quatro séculos.