O setor elétrico está na vida de Fabio Rogério Zanfelice desde 1988, quando, aos 14 anos de idade, na cidade de Rio Claro, interior paulista, ele ingressou no Senai como aprendiz de eletricista de manutenção. A vaga era na então estatal paulista Cesp, cujos ativos de geração tornaram-se, décadas mais tarde, o embrião da Auren, hoje a terceira maior geradora de energia do país, com um portfólio de 9 GW em projetos hidrelétricos, eólicos e solares. Quando Zanfelice iniciou a carreira, o Brasil gerava mais de 90% de sua eletricidade a partir de hidrelétricas, o sistema era amplamente dominado por estatais e projetos eólicos ou solares não passavam de exercício de futurologia. A geração descentralizada sequer existia. Ele também não se imaginava líder setorial, muito menos o condutor de uma corporação privada em um mercado em profunda alteração física e regulatória. Essa transição da base operacional para a liderança estratégica conferiu um trunfo, segundo ele: a experiência de quem conhece o setor tanto pelo lado técnico das turbinas quanto pelas planilhas de projeção de longo prazo. Para cruzar a fronteira entre o chão de fábrica e as salas de conselho, Zanfelice apostou nos livros. A Cesp lhe deu a oportunidade de fazer a graduação enquanto trabalhava. Ingressou no curso de engenharia elétrica na Universidade Estadual Paulista (Unesp) e não parou na graduação. Buscando decifrar as complexidades regulatórias e de planejamento de um setor que ensaiava sua privatização nos anos 1990, estendeu os estudos para o mestrado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e um MBA em economia e gestão de energia pelo Instituto Coppead da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Essa bagagem técnica e acadêmica foi o passaporte para deixar a operação pura e assumir funções de planejamento estratégico e estratégia em grandes grupos privados. Ele trabalhou 13 anos na Cesp, 14 na CPFL e sete na empresa de energia da Votorantim, até liderar a consolidação que deu origem à Auren. A escalada da base operacional à liderança exigiu uma mudança de mentalidade. O maior desafio nessa migração foi o desapego do controle estritamente técnico em prol da gestão de pessoas e riscos econômicos. Se no início da carreira o sucesso dependia de prever o comportamento exato de uma máquina ou circuito, na liderança corporativa a dinâmica passou a ser lidar com decisões sob imprevisibilidade do mercado, a volatilidade de preços e a necessidade de formar equipes altamente colaborativas. “A experiência é muito importante, ainda mais com a complexidade do setor, para lidar com as decisões.” Zanfelice enxerga na trajetória de resiliência do próprio sistema elétrico brasileiro uma metáfora para a liderança corporativa: a importância de ter bases firmes e flexibilidade para absorver os choques da realidade. Essa postura reflete-se diretamente em seu modelo de gestão na Auren. Para ele, dividir o protagonismo e fazer com que os colaboradores se sintam protagonistas das decisões não é um jargão de recursos humanos, mas uma convicção. A tomada de decisão descentralizada funciona porque as equipes ganham autonomia ancorada na confiança mútua. “Assim a equipe se sente participante do propósito que a empresa possui”, destaca. O executivo assistiu à transformação de um sistema estatal para um ambiente liderado por investimentos privados e à ascensão das fontes variáveis. E, agora, prepara a companhia para a potencial abertura total do mercado livre a partir de novembro de 2028. A geradora, que historicamente vende para grandes clientes, firmou uma joint venture com a operadora de telecomunicações Vivo, desenhando novos canais de comercialização para o varejo de energia. Empresas em que trabalhou: Cesp, CPFL Energia e Votorantim EnergiaIdade em que se tornou CEO: 39 anosMaior orgulho da carreira: fazer a aquisição e ser CEO da CespPessoas que o inspiram: muitas, ao longo da vidaHobby: ler
Executivo de Valor - Fabio Zanfelice, da Auren Energia: base sólida e flexibilidade para mudar
Diretor-presidente da Auren Energia prepara a companhia para a potencial abertura total do mercado livre a partir de novembro de 2028







