Bombeiros e funcionários afadigavam-se esta segunda-feira nos trabalhos de limpeza e de rescaldo na Catedral da Dormição, em Kiev, após aquele que a Ucrânia classificou como um ataque deliberado da Rússia ter causado sérios danos a este monumento praticamente milenar, famoso pelos seus frescos históricos e pelos seus objectos de prata.O ataque incendiou o telhado da catedral, o principal monumento do complexo monasterial de Pechersk Lavra, ícone da história espiritual e cultural da Ucrânia, cujas cúpulas douradas dominam há séculos a paisagem da capital.O ministro-adjunto da Cultura, Ivan Verbytskyi, disse à televisão ucraniana que as relíquias religiosas tinham sido previamente retiradas do complexo, que já se encontrava sinalizado na lista do património mundial em perigo da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO, na sigla inglesa). Embora o telhado tenha sido substancialmente consumido pelas chamas, a estrutura e as paredes da catedral ficaram de pé, afirmou, acrescentando que a iconóstase (o biombo ornamentado que separa a nave do santuário nas igrejas de rito ortodoxo) não sofreu danos significativos.Enormes colunas de fumo negro cobriam as cúpulas douradas da catedral nas primeiras horas desta segunda-feira, enquanto os bombeiros recorriam a gruas, escadas e helicópteros para dominar as chamas. O incêndio foi declarado extinto às 9h da manhã locais (6h em Portugal).Dentro da catedral, a água escorria pelas paredes pintadas a fresco e os funcionários do complexo apressavam-se para salvar tudo o que podiam, removendo mobiliário e recolhendo a água acumulada no chão. Os frescos do monumento, naturalmente frágeis, e a integridade dos artefactos religiosos são agora as suas principais preocupações.O Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, descreveu o ataque ao complexo como "um dos mais sérios crimes cometidos pela Rússia contra a cultura cristã até à data".Os serviços secretos ucranianos dizem ter recuperado do local do ataque fragmentos de um Geran-2, um drone "suicida" ou "kamikaze" de fabrico russo, e publicaram imagens dos destroços. A Reuters não conseguiu autenticar a fiabilidade desta informação. A Rússia negou entretanto ter atacado o mosteiro, alegando que ele terá sido danificado por um míssil Patriot norte-americano.Património históricoNão é a primeira vez que este complexo é atingido no decurso da actual ofensiva russa contra a Ucrânia, que se iniciou em Fevereiro de 2022 quando o Presidente russo, Vladimir Putin, enviou dezenas de milhares de soldados para a Ucrânia."O mosteiro de Pechersk Lavra foi atingido pela primeira vez no Inverno de 2025, mas o ataque da noite de ontem [domingo] foi o primeiro a ter o complexo como alvo preciso e deliberado", disse à Reuters o director-geral do monumento, Maksym Ostapenko. "Foi também a primeira vez que vimos danos desta dimensão.""De momento, podemos constatar danos severos em todas as partes superiores da catedral. Há um grande risco de danos na parte inferior: pinturas, frescos, iconóstase."O director-geral apontou em particular para os painéis de prata que, explica, foram recuperados durante os trabalhos de escavação decorridos após a explosão da catedral em 1941, por ordem do ditador russo Josef Estaline.Cerca de 80% da catedral ficou destruído na sequência dessa explosão. Foi reconstruída há 25 anos, tendo o restauro da iconóstase ficado concluído apenas no ano passado, acrescentou."Este é um dos mais notáveis exemplos do património histórico e cultural da Ucrânia e a Rússia atacou-o deliberadamente com a intenção de o destruir", disse ainda.Pelo menos quatro pessoas terão morrido em consequência deste ataque, que provocou ainda 25 feridos, incluindo duas crianças.