A mineradora Vale mais do que dobrou em um ano a produção de minério de ferro a partir do reaproveitamento de rejeito e estéril, que atingiu 26,3 milhões de toneladas em 2025, e elevou a mineração circular ao posto de oportunidade de negócio. Este é um dos principais destaques da segunda edição de seu Relatório de Informações Financeiras Relacionadas à Sustentabilidade , elaborado de acordo com as normas IFRS S1 e S2, do International Sustainability Standards Board (ISSB), e divulgado nesta segunda-feira (15). A publicação ainda é voluntária, mas a companhia adotou a divulgação desde o ano passado, sendo a primeira do setor no mundo e a primeira empresa brasileira a se antecipar à regra da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) que havia tornado o reporte obrigatório para companhias abertas a partir dos exercícios iniciados em 2026, mas voltou atrás recentemente. A principal mudança em relação ao documento do ano passado está no escopo, conforme explica ao Prática ESG Grazielle Parenti, vice-presidente executiva de Sustentabilidade da Vale. “Esta segunda edição do relatório alinhado ao ISSB reflete a evolução e a maturidade da agenda de sustentabilidade da Vale. Avançamos na integração entre sustentabilidade e finanças, oferecendo informações cada vez mais consistentes e relevantes para a tomada de decisão de investidores de forma responsável”, afirma Grazielle. Enquanto a primeira edição se concentrou nos dados de clima, esta segunda mantém os riscos e oportunidades já mapeados, com impactos atualizados, mas acrescenta quatro novos riscos, sendo um deles o rompimento de barragens, com potencial de danos graves a pessoas, ao patrimônio e ao meio ambiente. Os outros são; atraso ou não obtenção de licenças ambientais, que afeta a perspectiva de crescimento da capacidade produtiva e a lucratividade; conflitos com comunidades e impactos em direitos humanos, que podem gerar prejuízos financeiros, reputacionais e perda da licença social para operar; e os perigos operacionais associados a equipamentos móveis, veículos, instalações industriais e infraestruturas críticas, com potencial de acidentes graves ou fatais. No tema de comunidades e direitos humanos, em especial, a companhia mapeou 1,2 mil comunidades no entorno de suas operações no Brasil, das quais 170 são consideradas críticas e contam com planos ativos de engajamento, segundo Grazielle. A decisão de se antecipar à obrigatoriedade tem relação direta com a demanda de quem aloca capital. Grazielle relata que os temas do relatório aparecem de forma recorrente nas reuniões bilaterais com investidores e nas rodadas realizadas pela companhia, como as feitas recentemente em Londres (Inglaterra), na Escandinávia e em Nova York (EUA). Desde o lançamento da primeira edição, a Vale contabiliza cerca de 100 engajamentos com entidades nacionais e internacionais, empresas e investidores para discutir o documento e a forma como foi construído. Os questionamentos e demandas, então, contribuem para refinar indicadores, ampliar temas abordados e tornar mais objetiva a comunicação sobre riscos e oportunidades ligados à sustentabilidade. "Clientes globais demandam e fazem pedidos. Fizemos um tour recente com investidores da Escandinávia, Holanda e outros mercados e essas perguntas [sobre sustentabilidade] estão nas nossas reuniões bilaterais com investidores”, diz. "A transparência é valorizada”, acrescenta. A comparabilidade é o ponto central dessa cobrança. A executiva conta que ouviu de um gestor que avalia 2 mil empresas o questionamento sobre como comparar companhias que reportam de formas distintas, exatamente o problema que as normas do ISSB buscam resolver. Criadas em 2023, as IFRS S1 (requisitos gerais) e S2 (divulgações de clima) estabelecem uma linguagem comum de divulgação financeira relacionada à sustentabilidade, com foco na materialidade financeira: o que pode afetar fluxos de caixa, acesso a financiamento e custo de capital. Segundo Grazielle, as conversas com investidores mostram que o interesse do mercado vai além dos indicadores ambientais e sociais. A executiva afirma que a cultura organizacional tem surgido com frequência nas reuniões, como uma forma de avaliar se as práticas de sustentabilidade estão efetivamente incorporadas à gestão da companhia. Rejeito vira produto O tema da “mineração circular”, ou seja, a aplicação da economia circular às atividades minerárias, consiste em aproveitar ao máximo os recursos extraídos, prevenindo a geração de resíduos e reaproveitando os que são gerados no processo produtivo, como estéril e rejeito. Na Vale, a frente se materializa no Programa de Mineração Circular, batizado de Waste to Value, que já identificou mais de 100 iniciativas neste sentido na companhia. Os números justificam o destaque para o tema no relatório. Em 2025, a produção de minério de ferro da companhia por fontes circulares somou 26,3 milhões de toneladas, cerca de 8% do total anual, aumento de 107% sobre as 12,7 milhões de toneladas de 2024, quando a frente representava aproximadamente 4% da produção. A ambição é chegar a 10% até 2030, com benefício estimado de eliminação de 117 mil toneladas de CO₂ naquele ano, conforme reforçou a executiva. Segundo Grazielle, os ganhos vão além da receita adicional. As operações circulares exigem menos área e menos água e reduzem de forma substancial as emissões de gases de efeito estufa em comparação com minas convencionais. A tecnologia, porém, ainda é nova e impõe desafios operacionais. Cada pilha e cada barragem tem características próprias, o que obriga a companhia a customizar a operação caso a caso. A própria taxonomia da circularidade na mineração está em construção — a Vale trabalha o tema em fóruns internacionais, como o World Business Council for Sustainable Development, diz a executiva. Segue foto da Grazielle Parenti, VP de Sustentabilidade da Vale. — Foto: Vale/ Divulgação O caso emblemático do relatório é a mina de Capanema, em Ouro Preto (MG), reativada em 2025 após 22 anos paralisada, com investimentos de R$ 5,2 bilhões. A retomada partiu do aproveitamento de uma pilha de estéril, e a operação funciona a umidade natural — sem uso de água no processamento e sem gerar rejeito, o que dispensa barragem. A unidade deve adicionar cerca de 14 milhões de toneladas por ano à produção da Vale e integra o pacote de R$ 67 bilhões que a companhia investirá em Minas Gerais até 2030, voltado sobretudo à filtragem e ao empilhamento a seco do rejeito, para reduzir de 30% para 20% o uso de barragens no Estado. O portfólio circular inclui ainda o projeto Gelado, em Carajás (PA), que desde 2023 reaproveita com dragas elétricas o rejeito acumulado em barragem desde 1985 e a Areia Sustentável, coproduto do rejeito da mina de Brucutu (MG) que já soma mais de 3 milhões de toneladas vendidas à construção civil e deu origem à startup Agera. O relatório também quantifica oportunidades já mapeadas no documento anterior, como um aumento de US$ 1 por tonelada no prêmio de produtos como os briquetes, menos intensivos em carbono, representaria acréscimo de R$ 1,4 bilhão (1,8%) ao EBITDA ajustado do segmento de Soluções de Minério de Ferro em 2025. Já os preços realizados de cobre, metal-chave da transição energética, subiram 10,8% no ano, adicionando R$ 3,2 bilhões à receita. "O relatório serviu para tangibilizar a questão da sustentabilidade e mostrar como ela está conectada à estratégia de negócio”, comenta a executiva. "Sustentabilidade não tem estratégia de sustentabilidade; a sustentabilidade é uma das alavancas que entrega resultado esperado no negócio." A experiência de dois ciclos de divulgação deixou aprendizados. O primeiro, segundo Grazielle, é que o relatório é a ponta final de uma cadeia de atividades, uma vez que foi preciso estruturar sistemas e estabelecer uma governança específica para a coleta de dados, mesmo em uma empresa que já contava com infraestrutura robusta de informação. O segundo é que parte das agendas reportadas segue em evolução. A taxonomia da mineração circular ainda está sendo definida, e a mensuração dos impactos de eventos climáticos extremos avança a cada ciclo. Há ainda o desafio regulatório. Para a executiva, empresas e investidores precisam de previsibilidade e de harmonização entre os padrões globais e locais. Obrigatoriedade à vista? O movimento da Vale ocorre em um contexto regulatório que vinha avançando cedo no Brasil, mas que acaba de sofrer uma reviravolta. Com a Resolução CVM nº 193, de 2023, a Comissão de Valores Mobiliários saiu na dianteira mundial ao adotar os padrões ISSB de maneira obrigatória para companhias abertas a partir dos exercícios iniciados em 1º de janeiro de 2026, o que levaria os primeiros relatórios compulsórios ao mercado em 2027. Até agora, já aderiram de forma voluntária, além da Vale, Lojas Renner, Natura, Grendene e, para este ano, também a B3. Contudo, a duas semanas da divulgação do relatório da Vale, a regra caiu. Em 29 de maio, a CVM publicou a Resolução nº 244, que revogou a obrigatoriedade e manteve a elaboração e a divulgação do documento em caráter voluntário para todas as companhias abertas. O retrocesso pegou o mercado financeiro de surpresa. Como a exigência passaria a valer justamente a partir do exercício de 2026, ela não chega a produzir efeitos. No lugar da obrigação, a autarquia instituiu o modelo "pratique ou explique": a partir de 1º de janeiro de 2027, a companhia que optar por não arquivar o relatório terá de justificar publicamente a decisão, em comunicado ao mercado. A flexibilização veio com contrapartidas para dar consistência ao reporte voluntário. Quem decidir divulgar terá de fazê-lo por pelo menos três exercícios consecutivos, no lugar da regra anterior, pela qual um único reporte voluntário gerava obrigação permanente. Além disso, terá de comunicar previamente ao mercado uma eventual interrupção. A asseguração por auditor independente e a observância dos padrões CBPS e ISSB continuam exigidas das companhias que publicarem. Entre os gargalos apontados por especialistas sobre a implementação da medida estão a operacionalização da materialidade financeira, a definição de cenários climáticos, a qualidade e a rastreabilidade dos dados e o preparo para a asseguração externa das informações — etapas em que a maioria das companhias ainda está em estágio inicial.