Quando se começa um texto destes, ou se vai pela explicação do enredo e se estimula ou se estraga qualquer coisa, ou se vai pelo caminho da excepcionalidade: o que faz desta série, Hal & Harper, uma história que mereça ser contada na televisão e, por arrasto, num jornal? Vamos fazer as duas coisas mas de forma intercalada — se fosse possível, com montagens e muita música indie —, saltitando no tempo e fazendo uma coisa que as duas personagens do título, Hal e Harper, não fazem. Olhar de fora. A família aqui retratada tem tantas dificuldades em ver-se que todos vivem em apneia emocional, a fazer boca-a-boca uns aos outros.Hal e Harper são irmãos, na casa dos 20 anos, e filhos de uma tragédia. Hal & Harper, dizem pelo menos três críticos em que o PÚBLICO tropeçou, é uma série boa e podia ser um filme melhor. Cooper Raiff tem 29 anos e aos 28 escreveu, realizou e foi o Hal desta série que nasceu como comédia de sketches no YouTube (a geração YouTube está definitivamente a exercitar os seus músculos já fora do ginásio da Internet). Poucos lhe acharam piada. Raiff, cineasta indie autor dos filmes Shithouse e Cha Cha Real Smooth (Apple TV), decidiu, anos depois, fazer dela outra coisa.Essa outra coisa, pungente, melancólica, cómica e não dominada por Mark Ruffalo embora Mark Ruffalo esteja no elenco, é marcada pela Harper de Lili Reinhart e chega esta segunda-feira a Portugal. Hal & Harper estreia-se, às 22h10, no canal premium TVCine Edition e na TVCine+. Os quatro primeiros episódios passaram na última edição do Festival IndieLisboa e a série também fez algum furor no Festival de Sundance, nos Estados Unidos.Esta é a história de como todas as famílias são, como na música de Lola Young, um pouco “messy”; de como o amor nem sempre supera tudo; de como a casa fica criminosamente silenciosa quando os filhos vão para a outra entidade parental; de como não somos os belos amigos que pensávamos ser; de como por vezes crescemos demasiado rápido. Com muito pouca intriga e muita constatação visual.O PÚBLICO viu toda a série, originalmente estreada em oito episódios na plataforma de streaming Mubi e aqui partida em nove, dado que o último capítulo na versão do realizador era um episódio duplo (cada episódio tem cerca de 30 minutos). Hal & Harper mereceu passar para a televisão, apesar dos críticos de cinema e de televisão que a veriam com melhores olhos como um filme de três horas, pela sua universalidade e pela sua singularidade.Quase todos se podem identificar com a história de Hal e Harper e do seu pai e da sua mulher e dos pequenos sustos ou grandes abanões da vida. Hoje, muitos apreciarão a síntese de cada episódio, apesar de o recheio (os episódios do meio) parecer correr a uma velocidade de reprodução de 0,8x. Mas, sobretudo, hoje Hal & Harper é uma raridade televisiva porque é totalmente autoral.Não só porque a montagem oscila ao sabor do que Cooper Raiff sente, assoberbado pelas recordações e por isso acelerado nos flashbacks (em que Raiff e Reinhart se interpretam a si mesmos, corpos gigantes no meio de miúdos da primária, como na extinta série Pen15, sim), e por vezes diletante no presente. Mas também pelo que não se vê: é mesmo um produto de baixo orçamento, embora não se note. Sem qualquer plataforma ou estúdio envolvidos na produção, foi parar à Mubi (de a Filmin é uma descendente não-oficial) precisamente porque não havia quem quisesse acolher uma casa de infância tão condoída (e por vezes tão divertida).Depois, para os melómanos, há a banda sonora que espeta com Frank Ocean, Porches, Waxahatchee, Adrianne Lenker ou Phoebe Bridgers no coração de cada cena. Por vezes, muito 90s, a música torna-se parte da cena ao ponto de a asfixiar. Não se deve revelar o que se passa enquanto Bridgers canta “Someday, I'm gonna live/ In your house up on the hill/ And when your skinhead neighbor goes missing/ I'll plant a garden in the yard then”, mas a promessa é que não tem nada e tem tudo a ver.
Hal & Harper, a série sobre uma família em apneia emocional
Cooper Raiff escreve, realiza e protagoniza a nova série do TVCine Edition e do TVCine+. Mark Ruffalo é o primeiro nome no cartaz mas quem brilha é Lili Reinhart, heroína das cuidadoras do mundo.













