Em um centro de tratamento para ebola montado às pressas em Rwampara, na República Democrática do Congo (RDC), Papys Lame e seus colegas reidratam pacientes que chegam sofrendo crises intensas de diarreia e vômitos, fazem transfusões naqueles que apresentam hemorragias incontroláveis pelo nariz e pela boca e fornecem oxigênio aos pacientes com dificuldade respiratória. Eles monitoram o coração e a pressão arterial dos doentes e tratam suas dores intensas. Trata-se de uma melhora significativa em comparação com surtos nos quais Lame, coordenador da resposta ao ebola na RDC pela Aliança para a Ação Médica Internacional, trabalhou há apenas cinco anos. — Hoje temos mais opções, e mais pessoas sobrevivem — afirma. Mas ainda falta algo crucial: um tratamento que atue especificamente contra o vírus Bundibugyo, a espécie responsável pelo atual surto na África Oriental. Pelo menos 695 pessoas foram infectadas até agora, e 138 morreram. Cientistas estão trabalhando intensamente para encontrar medicamentos que possam funcionar. Por que não existem tratamentos para o vírus Bundibugyo? Ao longo dos últimos 50 anos, a maioria dos surtos de doença pelo ebola foi causada por uma espécie diferente do vírus, conhecida simplesmente como vírus Ebola. Com base em ensaios clínicos, a Organização Mundial da Saúde recomenda dois medicamentos para o tratamento do vírus Ebola. Mas o fato de um medicamento funcionar contra uma espécie viral não significa que funcionará contra outra. As diferenças evolutivas entre elas são grandes demais. Depois que o vírus Bundibugyo surgiu em 2007, cientistas realizaram experimentos preliminares com células e animais para verificar se algum medicamento poderia bloqueá-lo. Alguns estudos mostraram resultados promissores. No entanto, a pesquisa não avançou, porque até aquele momento haviam ocorrido apenas dois surtos relativamente pequenos causados por esse vírus. Com recursos limitados para pesquisas caras, os cientistas precisaram estabelecer prioridades. — Se você fosse apostar, provavelmente não apostaria que o Bundibugyo causaria um grande surto — lembra Thomas Geisbert, virologista da Universidade do Texas em Galveston, nos Estados Unidos. — E, claro, todos nós estávamos errados. Agora, os cientistas correm para identificar medicamentos que possam ser testados em ensaios clínicos contra o vírus Bundibugyo. A OMS já elaborou uma lista de candidatos prioritários para testes imediatos. O que um medicamento precisa fazer para funcionar? Um tipo de medicamento eficaz contra vírus é conhecido como anticorpo monoclonal. Essas moléculas se ligam à superfície do vírus e impedem que ele entre nas células. Outros medicamentos, chamados antivirais, impedem que o vírus se replique depois de já ter invadido as células. Alguns deles se ligam a proteínas virais e as inativam, impedindo que desempenhem funções essenciais, como produzir novos genes virais. Um anticorpo monoclonal chamado MBP-134 demonstrou ser eficaz contra infecções por Bundibugyo em macacos e também mostrou segurança em estudos clínicos iniciais realizados para o vírus Ebola. Em alguns casos, médicos já estão utilizando o MBP-134 para tratar infecções por Bundibugyo. Um médico americano, Peter Stafford, recebeu o medicamento após ser infectado na RDC e foi transferido para a Europa no mês passado. Ele também recebeu o remdesivir, um antiviral já utilizado em outras doenças, incluindo a Covid-19, que mostrou resultados promissores em estudos preliminares. Stafford recebeu alta do Hospital Charité, em Berlim, em 6 de junho. É impossível saber com certeza se o MBP-134 ou o remdesivir salvaram sua vida. Esse tipo de conhecimento só pode ser obtido por meio de ensaios clínicos cuidadosamente planejados, comparando pacientes que recebem medicamentos experimentais com aqueles que recebem apenas cuidados de suporte. Os ensaios clínicos podem começar em breve Para definir quais medicamentos devem ser priorizados, a OMS reuniu especialistas para revisar os estudos preliminares disponíveis. Em 28 de maio, eles recomendaram o avanço para ensaios clínicos de: MBP-134; remdesivir; outro anticorpo monoclonal, o maftivimab; e outro antiviral, o obeldesivir. Normalmente, um ensaio clínico pode levar meses ou até anos. É preciso obter aprovações regulatórias, organizar a logística e encontrar pacientes suficientes. Muitos surtos anteriores de ebola terminaram antes mesmo que os estudos pudessem começar. Mas este surto pode ser diferente, na opinição de Amanda Rojek, professora associada de Emergências em Saúde da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e veterana no combate ao ebola. Ela e outros pesquisadores desenvolveram um novo modelo de ensaio clínico que permite testar um mesmo medicamento em diferentes surtos causados por vírus distintos. Rojek iniciou um estudo com remdesivir em Ruanda em 2024, durante um surto do vírus Marburg, outro vírus capaz de provocar uma doença letal semelhante ao ebola. Agora, ela pretende combinar esses resultados com um novo estudo contra o vírus Bundibugyo. Apesar disso, ela alerta para diversos desafios: o surto ocorre em uma zona de conflito ativo, os centros de tratamento ainda estão sendo estruturados e a infraestrutura para pesquisas clínicas é limitada. Quais tratamentos serão testados? Diante da necessidade urgente, há surpreendentemente poucos candidatos realmente promissores. — Existe apenas um número limitado de candidatos disponíveis para ensaios clínicos. Isso significa que, se eles falharem, não há alternativas prontas aguardando na fila — diz Carmen Pérez Casas, responsável pela preparação para pandemias da agência internacional de saúde Unitaid. O estudo de Rojek testará dois dos tratamentos priorizados pela OMS. Alguns pacientes receberão apenas MBP-134. Outros receberão uma combinação de MBP-134 e remdesivir. — Acreditamos que possa haver um efeito combinado entre alguns desses agentes — explica. Segundo ela, o estudo está nas etapas finais de aprovação regulatória. — Estou razoavelmente otimista de que o remdesivir possa funcionar — prevê Salim Abdool Karim, que está no Congo e lidera o grupo de especialistas do Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças para esse surto. — Será possível demonstrar sua eficácia rapidamente, porque já temos pacientes hospitalizados. E, se funcionar, trata-se de um medicamento relativamente barato, com versões genéricas amplamente disponíveis. Existem medicamentos capazes de prevenir a doença? Possivelmente. Profissionais de saúde pública no Congo e em Uganda estão rastreando pessoas que tiveram contato com pacientes infectados e que podem ter sido expostas ao vírus. Atualmente, esses contatos permanecem isolados para observar se desenvolverão sintomas. Os pesquisadores esperam testar um antiviral que possa reduzir o risco de essas pessoas desenvolverem a doença. Essa estratégia é conhecida como profilaxia pós-exposição. O estudo avaliará um tratamento de dez dias com obeldesivir. O medicamento é, essencialmente, uma versão oral e mais barata do remdesivir. — Este é o potencial divisor de águas — afirmaArmand Sprecher, epidemiologista e médico de emergência da organização Médicos Sem Fronteiras. — Em alguém que está incubando a doença, poderíamos efetivamente curá-lo antes mesmo de ele adoecer. Além disso, essa pessoa deixaria de circular pela comunidade transmitindo o vírus. Indícios promissores surgiram em um estudo publicado no ano passado por Geisbert e seus colegas. Eles administraram obeldesivir em macacos apenas 24 horas após a infecção pelo vírus Ebola, muito antes do aparecimento dos sintomas. — Eles ficaram completamente protegidos. Nem sequer adoeceram — relata Geisbert. Os pesquisadores também testaram o medicamento contra o vírus Sudan e contra o vírus Marburg, com resultados igualmente positivos em animais. Se esses medicamentos funcionarem, os africanos terão acesso a eles? A questão do acesso aos tratamentos tem sido um problema recorrente nos surtos de ebola. Amanda Rojek classifica o acesso aos medicamentos após os ensaios clínicos como uma questão crítica e afirma que esse aspecto ainda está sendo discutido para os tratamentos que poderão ser testados neste surto. Em 2019, durante um surto de ebola na RDC, um estudo financiado em grande parte pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos testou quatro tratamentos baseados em anticorpos monoclonais. Dois deles reduziram a mortalidade dos pacientes em até 50%. Um desses medicamentos foi desenvolvido a partir do sangue de um sobrevivente congolês da doença. Mesmo assim, apesar do financiamento público e da origem local do tratamento, não havia garantia de que os medicamentos seriam disponibilizados na RDC. As empresas Regeneron e Ridgeback Biotherapeutics acabaram detendo a propriedade intelectual dos produtos. Nenhuma das duas registrou os medicamentos nos países onde os surtos de ebola costumam ocorrer. Em vez disso, o governo dos EUA comprou todo o estoque disponível de ambos os medicamentos para sua reserva estratégica nacional de segurança.
Cientistas correm para desenvolver tratamentos para o novo vírus do ebola e conter surto atual
Agente infeccioso que circula agora na África ainda não tem protocolos estabelecidos de combate








