Famosa pela Festa do Tomate, Paty do Alferes (RJ), no Sul Fluminense, é a principal candidata a receber o Centro Tecnológico Nuclear e Ambiental (Centena), depósito definitivo de rejeitos de baixa e média radioatividade produzidos nas usinas termonucleares de Angra dos Reis (RJ) e em milhares de unidades médicas e industriais do país. É um projeto de R$ 350 milhões, mas as obras não têm data para começar, o que poderá exigir adequações nos depósitos de Angra 1 e 2. A Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), órgão do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) responsável pelo projeto, informou que a localização do Centena não está definida. Outras quatro cidades também são avaliadas, mas "trabalha-se com essa possibilidade de local, um terreno pertencente ao Exército Brasileiro, que caso escolhido seria objeto de cessão", diz uma nota enviada ao GLOBO. Paty, 'local preferencial' A prefeitura de Paty já teve reuniões com as autoridades federais, segundo apresentações e comunicados da Cnen — que se referem ao "local preferencial"; procurada, a prefeitura não respondeu aos contatos do GLOBO. A cidade foi citada em auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) e durante audiência na Câmara dos Deputados, em dezembro. Uma licitação, de março, contratou para lá serviços de “caracterização topográfica” por drone — que, segundo a Cnen, serve para avaliar a "adequação ou não do local". O deputado federal Julio Lopes (PP-RJ), coordenador da Frente Parlamentar Mista da Tecnologia e Atividades Nucleares, falou em Paty durante um seminário, no Rio, em abril. Fases iniciais A definição do local de instalação é fundamental para o Centena sair do papel, mas o Orçamento de 2026 destina apenas R$ 4 milhões para o projeto. Segundo a Cnen, mais R$ 7 milhões estão previstos para 2027. Por enquanto, os investimentos são para "estudos ambientais e de caracterização do local, bem como a obtenção das primeiras licenças ambiental e nuclear", e para a "adequação do local e da infraestrutura". Angra 3: Canteiro de obra de 40 anos é mantido à espera de decisão 1 de 11 Usinas Angra 2 (esq.) e Angra 1, no litoral sul do Rio. Foto: Alexandre Cassiano 2 de 11 Sala de controle de Angra 1: construída na década de 1980, a unidade recebeu autorização para funcionar por mais 20 anos. Foto: Alexandre Cassiano X de 11 Publicidade 11 fotos 3 de 11 Em Angra 1: combustível nuclear aquece água até formar vapor, que aciona turbina ornada com a bandeira nacional. Foto: Alexandre Cassiano 4 de 11 Prédio do reator de Angra 3 será exatamente igual ao de Angra 2, com formato esférico. Foto: Foto: Alexandre Cassiano X de 11 Publicidade 5 de 11 Prédio do reator de Angra 3 já tem as paredes da base levantadas. Foto: Alexandre Cassiano 6 de 11 Obra inacabada do prédio do reator de Angra 3. Foto: Alexandre Cassiano X de 11 Publicidade 7 de 11 Canteiro de obras de Angra 3. Foto: Alexandre Cassiano 8 de 11 Com 40 anos de obras de Angra 3, 1,3 mil volumes de maquinário já comprado são armazenados, parte deles embalados a vácuo. Foto: Alexandre Cassiano X de 11 Publicidade 9 de 11 No total, galpões da Eletronuclear guardam 12 mil volumes de maquinário e peças que poderão ser usados em Angra 3, se obras forem concluídas. Foto: Alexandre Cassiano 10 de 11 Enquanto projeto de depósito definitivo para rejeitos nucleares não sai do papel, complexo de usinas de Angra tem capacidade para armazenar materiais contaminados até por volta de 2030. Foto: Alexandre Cassiano X de 11 Publicidade 11 de 11 Combustível nuclear usado é armazenado em cilindros de concreto e aço de 4,6 metros de altura, tecnologia americana. Cascos resistem a impacto de avião ou mísseis, diz Eletronuclear. Foto: Alexandre Cassiano Se governo decidir por concluir empreendimento, construção seria retomada a pleno vapor a partir de 2026 Embora a geração nuclear esteja no sistema elétrico nacional há 40 anos e o uso de radioatividade para outros fins, como na medicina, venha aumentando, o Brasil ainda não tem um depósito definitivo de rejeitos de baixa e média radioatividade. São considerados assim os materiais contaminados nos locais que usam a tecnologia, como as usinas nucleares e hospitais. — Quando fazemos um exame de medicina nuclear, para tratamento ou diagnostico, os profissionais usam luvas e outros materiais. Tudo isso é radioativo, de muito baixa intensidade, mas precisa de destino correto. Não podemos jogar no meio da rua nem enviar para um lixão — explicou Celso Cunha, presidente da Abdan, associação das empresas da indústria nuclear. Como é hoje? Por enquanto, esses materiais vão para depósitos provisórios e intermediários, nos próprios locais que usam radiação ou em unidades da Cnen. Embora estejam em relativa segurança, o descarte inadequado de equipamentos do Instituto Goiano de Radioterapia, em Goiânia, em 1987, provocou a tragédia do Césio-137, que deixou quatro mortos e é considerado o maior acidente radiológico, fora de usinas nucleares, da história — um dos depósitos intermediários da Cnen é o repositório de Abadia de Goiás, que recebeu os rejeitos gerados no acidente com o Césio-137. O vazamento de Césio 137, em Goiânia, em outubro de 1987, deixou quatro mortos, no que é considerado o maior acidente radiológico, fora de usinas nucleares, da história — Foto: Gilberto Alves Esses depósitos são fiscalizados pela Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN), recém-criada a partir de uma cisão da Cnen, para cuidar apenas da fiscalização e regulação do setor. As usinas nucleares são a principal fonte dos rejeitos, contribuindo com de 50% a 60% do total do país no momento atual, disse Ailton Fernando Dias, diretor de Instalações Nucleares e Salvaguardas da ANSN, alertando que a estimativa não se baseava num levantamento preciso dos estoques — e o peso da geração de eletricidade no total de rejeitos tende a crescer no longo prazo, especialmente se Angra 3, a terceira usina do país, for concluída. Depósitos se esgotando Os atrasos provocaram auditorias do TCU. Na audiência de dezembro na Câmara, André de Araújo Carneiro, auditor da Unidade de Auditoria Especializada em Energia Elétrica e Nuclear do TCU, disse que era para o Centena ter sido concluído em 2013 e alertou que os depósitos intermediários estão com a capacidade “quase esgotando”. Segundo Carneiro disse na Câmara, o depósito de Angra 1 deverá se esgotar em 2028. No fim de 2024, a Eletronuclear informou ao GLOBO a projeção de capacidade total até 2030 — naquela ocasião, os três depósitos do complexo de usinas nucleares, que ocupam 3 mil metros quadrados, tinham 7,8 mil embalados de baixa e média radioatividade, ocupando 70% da capacidade. Rejeitos de baixa e média radioatividade, armazenada em cilindros, no depósito das usinas de Angra — Foto: Alexandre Cassiano/26-11-2024 Procurada agora, a estatal não comentou sobre o depósito de rejeitos. No início do mês, a ANSN informou num comunicado que a Eletronuclear apresentou ao órgão um plano de ampliação — seria possível adiar o esgotamento da capacidade com readequações, sem grandes investimentos, disse uma fonte. Sem prazo nem valores garantidos A Cnen não deu um prazo para o início das obras do Centena. A construção "será iniciada após aprovação das licenças de local e construção, emitidas pelo Ibama e pela ANSN", diz a nota do órgão. Sobre os R$ 350 milhões necessários para o projeto, a Cnen informou que está em elaboração um convênio em com a Eletronuclear para usar os recursos do fundo de descomissionamento das usinas de Angra — valores que, por lei, a estatal reserva, em aplicações financeiras, para arcar com os custos de desmonte, daqui a décadas. Essa solução exigirá aval do TCU e da ANSN. Cunha, da Abdan, considera temerário lançar mão do fundo. Diante das dificuldades orçamentárias, o executivo defende a privatização. Uma concessão pode ser economicamente viável e atrair empresas privadas para operar o depósito definitivo. — O país não tem dinheiro para esse tipo de coisa. Existe a política do poluidor pagador: quem gerou o rejeito paga por ele, não é nada demais. Se uma clínica que faz tratamento do câncer usa material radioativo, tem que pagar pelo destino final do rejeito. E o Estado faz a fiscalização — disse Cunha. Nada a ver com descarte do combustível Voltado para os rejeitos de baixa e média radioatividade, o Centena não tem nada a ver com o destino do combustível usado para aquecer a água que move as turbinas de Angra 1 e 2. Em 2021, a Eletronuclear inaugurou a Unidade de Armazenamento Complementar a Seco de Combustível Irradiado (UAS), quando as piscinas de resfriamento de Angra 1 e 2 chegaram perto do limite. Cascos cilíndricos com combustível usado no complexo de usinas de Angra: estruturas resistem a míssel — Foto: Alexandre Cassiano/26-11-2024 Na UAS, o combustível usado é armazenado em cascos cilíndricos de 2 metros de diâmetro e 4,6 metros de altura, tecnologia desenvolvida pela americana Holtec e usada em várias usinas nucleares nos EUA. Antes, o material é colocado em cilindros menores, de aço inoxidável. Depois, esses cilindros são instalados dentro dos cascos, cujas paredes são revestidas com duas chapas de aço e concreto de alta densidade — são projetados para resistir ao impacto de um avião, de um míssil ou de uma bomba. A capacidade vai até 2045, informou a Eletronuclear no fim de 2024. Apesar disso, o combustível usado não é considerado rejeito, pois pode ser reaproveitado, lembrou Cunha, da Abdan. Tecnologia aplicada em países desenvolvidos permite mais de uma reciclagem, estendendo a vida útil do combustível para um potencial de 100 anos, segundo o executivo — a exportação do combustível usado para reaproveitamento pode ser até uma fonte de receita. Quando a reciclagem não é mais possível, a saída são depósitos subterrâneos, explicou Cunha: — A Finlândia fez um projeto de armazenamento profundo que é um sucesso.
Paty do Alferes, no Sul Fluminense, poderá receber depósito definitivo de rejeitos radioativos
Documentos citam cidade, mas Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) informa que ainda não há decisão final sobre local da unidade que receberá materiais de baixa e média radiação. Obra de R$ 350 milhões ainda não tem data para começar
Paty é candidata para o Centena, depósito de rejeitos nucleares de R$ 350M da Cnen, mas construção não tem data de início. Atraso até 2030 força Angra a manter depósitos temporários, expondo gap em governance de infraestrutura crítica no país.














