Quando a primeira partida da Copa do Mundo nos Estados Unidos começar, a maior parte das atenções estará voltada para a seleção anfitriã. Mas, para a pequena comunidade de paraguaios que vive no país, o momento também representa a volta aos holofotes de sua própria seleção, que retorna ao torneio após 16 anos de ausência. Torcedores paraguaios espalhados pelos Estados Unidos vêm organizando churrascos e encontros para assistir aos jogos da fase de grupos. Embora muitos tenham se assustado com os preços dos ingressos para a partida desta sexta-feira contra os EUA, com entradas sendo vendidas por mais de US$ 1.000, alguns já compraram ingressos para os confrontos seguintes. Santiago Araujo, de 32 anos, está entre eles. Sua família é proprietária de um dos poucos restaurantes paraguaios dos Estados Unidos, localizado na cidade litorânea de Pacific Grove, na Califórnia. Ele e o irmão conseguiram ingressos para assistir à partida contra a Austrália, em Santa Clara, cerca de 129 quilômetros de distância. “Todo paraguaio que eu conheço quer ir”, disse Araujo, que se mudou para a Califórnia com a família aos 11 anos. “Não existem temporadas de outros esportes no Paraguai. Eu costumava dormir abraçado a uma bola de futebol.” Há cerca de 37 mil paraguaios vivendo nos Estados Unidos, segundo estimativas do Censo americano, e eles aguardavam ansiosamente o retorno da seleção ao principal torneio da Fifa. Esta é a primeira vez que o Paraguai garante vaga em uma Copa desde 2010, quando alcançou sua melhor campanha, chegando às quartas de final. A equipe, atualmente na 40ª posição do ranking da Fifa, disputa sua nona Copa do Mundo. Estados Unidos e Paraguai integram o Grupo D ao lado de Turquia e Austrália. A seleção paraguaia enfrentará os turcos em 19 de junho e os australianos em 25 de junho, ambos os jogos em Santa Clara. Um dos veteranos do elenco é o meio-campista Miguel Almirón, que atua pelo Atlanta United, da MLS. Aos 32 anos, ele lembra de assistir à Copa de 2010 quando era criança e sonhar em um dia disputar o maior palco do futebol. A espera foi longa. “Vai ser algo lindo naquele momento, não apenas para mim, mas também para minha família, para todos os torcedores paraguaios e para todos que estiveram conosco nos momentos difíceis”, disse Almirón recentemente ao pensar na estreia. “Haverá muita emoção. Assumimos essa responsabilidade porque sabemos que muitas pessoas dependem de nós.” Jogadores da seleção paraguaia posam para foto antes do amistoso contra a Nicarágua, em preparação para a Copa do Mundo, em Assunção, no dia 5 de junho de 2026 — Foto: Jorge Saenz/AP Como os torcedores celebram nos EUA e no Paraguai O Paraguai está entre os países menos populosos da América do Sul, com cerca de 7 milhões de habitantes. Sem saída para o mar, é cercado por Argentina, Bolívia e Brasil, e é conhecido por suas savanas, paisagens exuberantes e pela cultura indígena guarani. Nos Estados Unidos, as comunidades paraguaias mais concentradas estão em Nova York e na cidade de Bernardsville, em Nova Jersey, visitada pelo presidente do Paraguai, Santiago Peña, em 2024. Para apoiar a seleção, os torcedores usarão as tradicionais camisas vermelhas e brancas e os característicos chapéus cilíndricos. No norte da Califórnia, o Café Guarani, administrado pela família de Araujo, organizará uma celebração entre os jogos com pratos típicos, como empanadas de mandioca e tereré gelado. No bairro do Queens, em Nova York, os torcedores se reunirão no restaurante I Love Paraguay para acompanhar as partidas. Ana Di Sessa, moradora de Nova Jersey, afirmou que adoraria assistir aos jogos na Califórnia, mas considera a viagem cara demais. “Não é só o ingresso. Você precisa pagar hotel e passagem aérea”, disse. “Muita gente não vai conseguir ir.” Zoraida Pereira, agente de viagens em Bernardsville, contou ter vendido pacotes para torcedores que irão a Santa Clara, mas não para a partida de abertura devido ao alto preço dos ingressos. Aos 43 anos, nascida no Paraguai e morando nos Estados Unidos há mais de três décadas, ela admite ter dificuldade em escolher um lado quando os dois países se enfrentam. “Desta vez estou torcendo pelo Paraguai”, afirmou. “Eles ficaram fora por muito tempo.” A mobilização também ocorre a mais de 8 mil quilômetros de distância, no Paraguai. O documentário "El Renacer Albirrojo" foi lançado recentemente para retratar a longa trajetória da seleção até retornar à Copa. A equipe foi despedida rumo aos Estados Unidos com fogos de artifício, e membros da comunidade paraguaia nos EUA afirmam que amigos e familiares viajarão do Paraguai para acompanhar os jogos. Rodrigo Valdez, engenheiro de computação em San Diego, planeja viajar mais de 720 quilômetros até Santa Clara para ver a seleção em campo. Nascido nos Estados Unidos, mas criado no Paraguai durante a infância, o jovem de 34 anos aprecia a atenção que a equipe vem recebendo. Ele assistirá ao jogo desta sexta-feira ao lado de familiares e amigos em San Diego. Apesar de ter um bebê de apenas quatro meses, contou que a esposa o incentivou a comprar um ingresso para a partida contra a Austrália como presente de seu primeiro Dia dos Pais. “Foi uma oportunidade única para nós, que moramos na Califórnia”, disse Valdez. “Vai ser muito significativo.” Rodrigo Valdez veste a camisa da seleção paraguaia de futebol enquanto posa para uma foto na sexta-feira, 5 de junho de 2026, em San Diego. — Foto: AP/Gregory Bull