Ameaçada diversas vezes pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a iraniana Ilha de Kharg, é um alvo atrativo para as tropas americanas, mas que também oferece grandes riscos operacionais e de alto custo político para o líder republicano. No local, estão localizadas instalações que até antes da guerra eram responsáveis por aproximadamente 90% das exportações de petróleo bruto do país persa. Aumentando o escopo de pontos negativos que uma tomada deste território tem a oferecer há também neste cálculo a preparação iraniana, já em curso há meses, para caso o Pentágono autorize uma operação do tipo. Na quinta-feira, Trump recuou sobre os ataques planejados contra o Irã no mesmo dia, anunciando horas mais tarde um "grande acordo" com Teerã para pôr fim à guerra no Oriente Médio, a ser supostamente assinado na Europa nos próximos dias. Não houve, contudo, confirmação por parte de Teerã até o momento, que classificou as afirmações como "especulativas". A declaração do mandatário americano ocorre após ameaças sobre um ataque nesta noite para "tomar o controle" do setor de petróleo e gás da nação persa, e em meio a um aprofundamento da crise regional. — Acabamos de chegar a um ótimo acordo para encerrar a guerra com o Irã— disse Trump a repórteres no Salão Oval, acrescentando que eles estariam "sujeitos à finalização dos documentos, o que deve acontecer nos próximos dias, provavelmente com uma assinatura, talvez na Europa. — É uma ótima notícia. O presidente americano disse que acredita que o líder supremo iraniano, o aiatolá Mojtaba Khamenei, aprovou pessoalmente o documento, e afirmou que o acordo significava que "o Irã jamais terá uma arma nuclear", mas não deu detalhes de como isso aconteceria. — Foi algo muito importante, mas em breve teremos a assinatura dos documentos, que estão praticamente finalizados, então veremos — disse, acrescentando que conversou com líderes regionais, incluindo o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. Pouco depois, a emissora estatal iraniana Irna, citando o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã , Esmail Baghaei, disse que essas afirmações eram "especulativas". O Irã ainda não havia chegado a uma decisão final sobre o acordo, informou a emissora, acrescentando que "nada foi finalizado". Segundo ele, a maior parte do texto foi "finalizada", mas ainda há uma série de "exigências excessivas" por parte de Washington. Ele também reiterou que o país não "se afastaria de suas linhas vermelhas". Anteriormente, essas linhas vermelhas incluíam a capacidade de manter um programa nuclear. Estado da Índia mais populoso que o Brasi é ameaçado por guerra no Irã 1 de 10 Firozabad é famosa pela produção de pulseiras de vidro coloridas, um adorno diário para muitas mulheres indianas — Foto: Atul Loke/The New York Times 2 de 10 Pessoas em busca de trabalho temporário em um mercado a céu aberto em Firozabad — Foto: Atul Loke/The New York Times X de 10 Publicidade 10 fotos 3 de 10 Artesãos da RK Potteries em Khurja, na Índia, onde proprietário disse que produção de uma caneca pode exigir o trabalho de 30 operários — Foto: Atul Loke/The New York Times 4 de 10 Na Índia, Firozabad depende da indústria vidreira há séculos, e os preços dos combustíveis estão começando a afetar gravemente os negócios, que já estavam sob pressão — Foto: Atul Loke/The New York Times X de 10 Publicidade 5 de 10 Em Firozabad, a tradição de fabricação de vidro remonta ao século XVI, mas a escassez de gás ameaça as fábricas que resistiram por séculos — Foto: Atul Loke/The New York Times 6 de 10 Firozabad depende da indústria vidreira há séculos, e os preços dos combustíveis estão começando a afetar gravemente os negócios, que já estavam sob pressão — Foto: Atul Loke/The New York Times X de 10 Publicidade 7 de 10 Binni Mittal, proprietário de uma empresa que fabrica pulseiras de vidro, teme pelo futuro da indústria caso a guerra continue e os preços da energia permaneçam altos — Foto: Atul Loke/The New York Times 8 de 10 Operários carregam produtos de vidro acabados em um caminhão em uma fábrica de vidro em Firozabad, na Índia — Foto: Atul Loke/The New York Times X de 10 Publicidade 9 de 10 Um forno em funcionamento em uma fábrica de vidro em Firozabad, na Índia — Foto: Atul Loke/The New York Times 10 de 10 Mukesh Bansal, fabricante de vidro local e vice-presidente da Federação de Fabricantes de Vidro da Índia, disse que escassez de gás o obrigou a quase extinguir um de seus dois fornos em sua fábrica de vidro — Foto: Atul Loke/The New York Times X de 10 Publicidade Sem poder usar carvão por proximidade com o Taj Mahal, fábricas enfrentam escassez de petróleo Viabilidade da operação Especialistas têm destacado com ênfase que uma tomada de poder por uma ação militar terrestre em Teerã, como aconteceu no Iraque em 2003, seria quase impossível. Fatores como a geografia diferenciada do terreno, de relevo montanhoso, e a preparação intensa que o regime dos aiatolás tem executado para lidar com tal cenário diminuem substancialmente as chances de sucesso americano. Outras opções, considerando as tropas e recursos disponíveis na região, seriam a tomada da Ilha de Kharg ou a invasão de outras ilhas menores, localizadas perto do Estreito de Ormuz. Com a possibilidade de realizar uma invasão tradicional no território iraniano descartada, e mesmo com um contingente maior na região, os planos de tomar a Ilha de Kharg ou qualquer outro terreno próximo ao estreito seriam altamente arriscados para as tropas americanas. No caso das ilhas que cercam a entrada do Golfo, como Qeshm e Kish, o risco se concentra na proximidade delas com o continente, o que deixaria os soldados muito expostos e vulneráveis a ataques iranianos. A tomada da Ilha de Kharg, por outro lado, garantiria uma blindagem adicional aos americanos, uma vez que Teerã não realizaria ataques descontrolados contra o local, pelo risco de destruir ou danificar a infraestrutura petrolífera da ilha. Neste cenário, os navios americanos não entrariam no Golfo Pérsico, dada a impossibilidade de cruzar o estreito em segurança. Diante de mais esse fator limitante, o professor de Geopolítica e Oceanopolítica da EGN, Leonardo Mattos, explica que as tropas americanas teriam que se movimentar de helicóptero e isso também colocaria os fuzileiros em mais uma situação de vulnerabilidade. — Se os EUA posicionarem os navios anfíbios ali no Mar da Arábia, que é mais próximo de Omã, há uma distância de cem quilômetros, mais ou menos, até o Estreito de Ormuz. Mas de lá para Kharg são de 600 a 800 quilômetros, dependendo da posição em que o navio esteja. Isso representa um tempo de voo muito grande para esses militares ficarem expostos nos helicópteros — detalha o especialista. A perda de vidas americanas, sem garantia de que os EUA consigam neutralizar o poder do regime iraniano, representa um dos principais riscos dessas abordagens, tendo impacto político para o presidente. Esse cenário prejudicaria consideravelmente a percepção do eleitorado dos EUA sobre o governo Trump — que foi eleito sob promessa de centrar-se nos problemas internos do país — e consequentemente sobre os aliados republicanos, às vésperas das eleições legislativas. A decisão de realizar ou não uma incursão terrestre no Irã, destaca o Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Estudos Marítimos (PPGEM) da Escola de Guerra Naval (EGN), André Beirão, envolverá danos colaterais independente da escolha que a Casa Branca faça. — Em minutos as pessoas verão soldado americano morrendo e criança iraniana morrendo. Isso tem um custo político. E existe também o custo político de ir até lá, usar todo o poder bélico da força que se diz superior e não conseguir neutralizar o poder — diz o professor. Além disso, segundo a rede CNN, Teerã tem instalado armadilhas, como minas ao redor da ilha, onde as tropas americanas poderiam realizar um desembarque anfíbio. Em março, o comandante das forças terrestres do Exército iraniano, brigadeiro-general Ali Jahanshahi, afirmou que uma guerra em solo será muito mais "perigosa, custosa e irreparável para o inimigo". — Todos os movimentos inimigos nas fronteiras são monitorados e estamos preparados para qualquer cenário — disse Jahanshahi, acrescentando que “cada centímetro do território iraniano está protegido”. A ilha possui defesas em camadas, e os iranianos deslocaram para lá, desde o início do conflito, sistemas adicionais de mísseis terra-ar portáteis, de acordo com a CNN. Um mês após o início da guerra, as Forças Armadas dos EUA atacaram Kharg e, segundo o Comando Central americano, 90 alvos foram atingidos, incluindo “instalações de armazenamento de minas navais, bunkers de armazenamento de mísseis e vários outros locais militares”. Na ocasião, Trump anunciou o ataque dizendo que as forças americanas evitaram atingir a infraestrutura petrolífera da ilha “por razões de decência”. Após o ataque, o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, alertou os "inimigos" contra qualquer tentativa de ocupar ilhas iranianas. “Com base em alguns dados, os inimigos do Irã, com o apoio de um dos países da região, estão se preparando para ocupar uma das ilhas iranianas”, publicou Ghalibaf no X. “Todos os movimentos inimigos estão sob vigilância constante. Se ultrapassarem os limites, toda a infraestrutura vital desse país na região se tornará, sem restrições, alvo de ataques implacáveis. Estamos monitorando de perto todos os movimentos dos EUA na região, especialmente o envio de tropas". Papel estratégico Desde a década de 1960, Teerã depende de Kharg para escoar sua produção de por via marítima. Por causa da profundidade das águas ao redor da ilha, grandes navios-petroleiros conseguem atracar em suas proximidades — algo raro no restante da costa iraniana no Golfo Pérsico, onde as águas são mais rasas. Nos últimos anos, o terminal passou a ter capacidade para carregar até dez superpetroleiros simultaneamente. A infraestrutura desenvolvida no local também acentua o papel estratégico. Kharg abriga grandes áreas de armazenamento e uma rede de oleodutos conectada aos principais campos de petróleo e gás iranianos. Antes do começo da guerra, as O principal destino do petróleo escoado pela ilha era a China, que comprava o combustível antes da guerra por meio da chamada "frota fantasma" de petroleiros, usada para contornar sanções ocidentais. As exportações para a China equivaliam a aproximadamente metade de todos os gastos do governo iraniano, enquanto o país respondia por cerca de 13% das importações de petróleo chinesas. Uma interrupção nessas estruturas poderia atingir diretamente a economia do Irã e provocar efeitos ainda mais profundos no já abalado mercado de energia global. Três grandes complexos energéticos operam na ilha, incluindo a Falat Iran Oil Company, considerada a maior do país. O regime dos aiatolás estabeleceu as instalações da ilha como uma linha vermelha em meio à guerra com EUA e Israel. A última vez que a Ilha de Kharg sofreu bombardeios significativos foi durante a Guerra Irã‑Iraque, nos anos 1980, quando forças iraquianas sob o comando de Saddam Hussein realizaram ataques intensos contra a infraestrutura petrolífera da ilha, causando grandes danos. Apesar disso, ataques aéreos foram direcionados ao local. As forças americanas disseram ter mirado, até aqui, somente depósitos de mísseis e minas navais, evitando o aparato do setor econômico. Em contrapartida, fontes iranianas mencionaram impactos a instalações petrolíferas, e ao menos em uma ocasião foi detectado um vazamento de óleo perto da ilha, levantando a suspeita de que o local pode ter sofrido dano.
Tomada da Ilha de Kharg oferece riscos consideráveis a tropas americanas enquanto Irã se prepara para ataque terrestre
Território estrategicamente e economicamente importante para a República Islâmica foi novamente ameaçado por Trump, que recuou horas depois













