O mote do Reuse Portugal Summit, que decorreu na Fundação Cidade de Lisboa, fazia antever uma jornada desafiante: debater a reutilização e a reparação, apontadas pela organização como “dois pilares críticos da gestão de recursos”. A profecia cumpriu-se e a jornada acabaria por unir os vários intervenientes numa quase missão de urgência de distinguir os papéis da reciclagem, cujo propósito é recuperar materiais, e da reutilização, que exige condições operacionais para manter embalagens em circulação contínua durante múltiplos ciclos.Da teoria à prática, foram apontados inúmeros exemplos nacionais e internacionais, que visaram demonstrar que a reutilização e a reparação já estão a gerar valor económico, novas oportunidades de mercado e respostas mais estruturais para reduzir a dependência do descartável.Um exemplo desta nova abordagem é o CopoMais. Com epicentro no Bairro Alto, a iniciativa transforma Lisboa na primeira capital europeia a testar um sistema urbano integrado de copos reutilizáveis em larga escala, nas zonas de entretenimento e turismo mais densas da cidade.O conceito, muito mais do que a tecnologia da máquina de devolução instalada na via pública, é suportado pela complexidade do circuito que corre nos bastidores. O CopoMais opera assente numa engrenagem que une depósito, retorno, reembolso digital, lavagem profissional, logística de recolha e rastreabilidade digital, antes de garantir a reintegração segura do produto no circuito dos bares aderentes.Na prática, o consumidor paga uma caução pelo copo, utiliza-o, devolve-o numa máquina pública e recebe o mesmo valor de volta por via digital. Os copos recolhidos seguem depois para lavagem industrial, são inspeccionados e validados antes de regressarem ao sistema.Integrado num dos painéis principais da cimeira dedicada aos sistemas urbanos de devolução, João Jalé, da TOMRA, sublinhou que a eficácia técnica do circuito já se encontra plenamente validada. “No pré-piloto realizado em Lisboa, as taxas de retorno superaram os 90%”, revelou o responsável. “Estes dados demonstram que, quando a solução apresentada ao cidadão é simples, visível e conveniente, os consumidores devolvem efectivamente os copos. É um resultado consistente com a experiência que acumulámos em Aarhus, na Dinamarca, onde o sistema urbano também alcança taxas próximas de 90%”, apontou.O projecto abrange uma zona crítica de tráfego nocturno delimitada entre o Príncipe Real e o Cais do Sodré, passando pelo Bairro Alto. Questionado sobre os prazos de implementação e a transição da fase preliminar com bares privados para a rede pública, João Jalé clarificou que o cenário actual não decorre de qualquer limitação técnica do sistema. “O processo de licenciamento para instalar os equipamentos na esfera pública envolve trâmites demorados”, explicou. “Estamos a intervir numa zona protegida da cidade, o que exige validações minuciosas de património, arqueologia, além de critérios operacionais, técnicos e eléctricos complexos. As localizações já foram aprovadas pela Câmara Municipal e a instalação física está a avançar de forma faseada para que a cobertura cresça o mais rapidamente possível”, acrescentou.A conveniência para o consumidor surge como o pilar central para a mudança de comportamentos. “Sabemos que, se uma pessoa tiver de caminhar 300 ou 400 metros para devolver um copo, em princípio não vai utilizar o equipamento. A conveniência é o factor-chave”, defendeu o representante da operadora tecnológica. “Quanto mais próximas estiverem as máquinas dos pontos de consumo, mais fácil será para os bares e para os cidadãos integrarem este sistema nas suas rotinas. É por isso que fechar a rede completa de 17 máquinas públicas com acesso 24 horas por dia, sete dias por semana, é crucial.”Durante a sua intervenção, João Jalé fez questão de desmistificar preconceitos relacionados com a higiene e a segurança do circuito de reutilização. Conforme detalhado no summit, os copos recolhidos pelas máquinas são transportados para uma infra-estrutura de lavagem industrial que cumpre rigorosamente as normas de segurança alimentar, sendo inspeccionados e validados digitalmente antes de voltarem aos balcões. “O consumidor está protegido porque o depósito pago é exactamente o valor que recebe de volta, e o copo que utiliza passou por uma higienização industrial validada que garante segurança alimentar total”, garantiu João Jalé.Para o responsável da TOMRA, a eficácia global de iniciativas como o CopoMais dependerá também da existência de mecanismos económicos — incentivo ou taxação — capazes de estimular a resposta do mercado, exigindo, ao mesmo tempo, uma articulação tripartida entre tecnologia, comércio local e poder público. “Este sistema tem de assentar sempre em três pilares essenciais: o fornecedor da tecnologia e da operação, que é a TOMRA em parceria com a autarquia; a entidade que liga a operação ao comércio local, que é a AHRESP; e o município e as entidades competentes, que têm de fazer cumprir a sua regulamentação”, lembrou João Jalé. “O papel da TOMRA é assegurar que exista uma alternativa tecnológica, logística e operacional viável, segura e conveniente para que a reutilização funcione, de facto, à escala da cidade.”Reuse Portugal CoalitionDo summit concluiu-se uma outra ideia-chave: a reciclagem e a reutilização não são a mesma coisa, nem são estratégias inimigas, mas sim ferramentas complementares. Ainda assim, Ana Matos Almeida, da Circular Economy Portugal, entidade promotora do evento, reforçou na mensagem de abertura a ideia de que é preciso ir além do fim de linha e que a reciclagem, por si só, não responde ao problema actual. “Não basta actuar no final de linha. Enquanto estivermos a produzir, e a quantidade produzida continuar a aumentar e continuarmos a pôr essa quantidade no mercado, não vamos conseguir resolver o problema apenas com a reciclagem. A reutilização e a reparação são meios para agir a montante”, garantiu.Segundo a responsável, Portugal continua assente num sistema “pensado para usar e deitar fora, para reciclar depois”. Enquanto for mais vantajoso colocar embalagens descartáveis no mercado do que investir em sistemas de reutilização, o resultado tenderá a manter-se.Uma ideia reforçada por Sílvia Ricardo, da Agência Portuguesa do Ambiente, que enquadrou o tema da reutilização e da prevenção de resíduos do ponto de vista regulatório. “Portugal tem tido um aumento da produção de resíduos e tem ainda um longo caminho nesta questão da prevenção e da reutilização. Os dados não mostram uma situação que era aquela que nós gostaríamos”, admitiu a dirigente da APA, antes de hierarquizar os resíduos: “A primeira opção na hierarquia de resíduos é a prevenção. Depois a reutilização. E só depois a reciclagem.”O summit foi também o palco para o lançamento da Reuse Portugal Coalition, “um movimento que unirá os principais actores nacionais em torno de uma agenda comum de mudança”, assumiu a organização, reforçando que o objectivo é acelerar a transição para modelos menos dependentes do descartável.Entre as prioridades identificadas estão a criação de sistemas interoperáveis, o desenvolvimento de modelos de negócio e a definição de regras que favoreçam a reutilização face ao uso único. “O que esperamos ver nos próximos anos é um conjunto de compromissos alinhados e coerentes: empresas que desenham para reutilizar e investem em sistemas, municípios que criam a infra-estrutura e os incentivos locais, entidades públicas que definem regras claras e ambiciosas”, afirmou Ana Matos Almeida.Para a responsável, a transição dependerá menos de apelos individuais ao consumo responsável e mais de alterações estruturais. “É essa mudança estrutural, e não apenas mais apelos à consciência individual, que pode tirar a reutilização de embalagens do estatuto de boa intenção para a nova normalidade em Portugal”, concluiu.Câmara de Lisboa e ASAE perante os desafios da economia circularNuma transição para a economia circular que ainda enfrenta obstáculos técnicos, logísticos e legais, a Câmara Municipal de Lisboa e a ASAE assumem-se como parceiros essenciais para a criação de sistemas de reutilização mais robustos e compatíveis com as exigências de segurança alimentar.A autarquia aponta o projecto CopoMais, desenvolvido em parceria com a TOMRA e a AHRESP, como um dos principais testes em curso, e reforça os números apresentados pelo operador tecnológico na experiência-piloto realizada durante dois meses, em duas máquinas, na qual se registaram taxas de devolução superiores a 90% e uma circulação de 12.848 copos.