Os termômetros passavam dos 30 graus Celsius em Liège, no fim de maio, quando um grupo restrito de jornalistas atravessou os portões da unidade da Thales Belgium em Herstal, na região francófona da Valônia. Pela primeira vez em anos, a empresa abriu à imprensa suas instalações após uma expansão que transformou a fábrica em um dos símbolos mais visíveis do maior ciclo de rearmamento europeu desde a Guerra Fria. Ali funciona a única linha de montagem da Europa dedicada à produção dos foguetes guiados de 70 milímetros padrão Otan. O sistema ganhou importância por ocupar um espaço cada vez mais valioso nos conflitos modernos: é suficientemente barato para enfrentar drones de baixo custo e preciso o bastante para evitar o desperdício de mísseis sofisticados, cujo valor pode chegar a centenas de milhares ou até milhões de dólares por unidade. A transformação da fábrica acompanha uma mudança muito maior em curso no continente. Segundo o relatório mais recente do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri), os gastos militares da Europa cresceram 14% em 2025, alcançando US$ 864 bilhões (R$ 4,4 trilhões) — o maior ritmo de expansão desde 1953. Alemanha e Espanha lideraram parte desse movimento, impulsionado não apenas pela guerra na Ucrânia, mas também pela percepção de que o continente precisa estar preparado para um cenário de crises simultâneas. Unidade da Thales que produz foguetes usados pela Otan ampliou sua capacidade em meio ao maior ciclo de gastos militares do continente desde 1953 — Foto: Thales Group / Divulgação Durante décadas, a segurança europeia apoiou-se na garantia militar americana e na convicção de que grandes conflitos tinham se tornado improváveis no continente. Mas a guerra na Ucrânia expôs o ritmo de consumo de munições de um conflito convencional, enquanto as crises no Oriente Médio e no Indo-Pacífico ampliaram dúvidas sobre a capacidade dos EUA de sustentar simultaneamente diferentes frentes de batalha: — O grande dilema europeu hoje é produzir mais com menos — afirmou Giuseppe Spatafora, analista do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia (EUISS). — Produzir mais significa reconstruir capacidades industriais que não víamos desde a Guerra Fria. O “menos” reflete uma realidade nova: mesmo que os Estados Unidos queiram continuar apoiando seus aliados, existem limites físicos para sua capacidade de produção. Apenas nas primeiras semanas do conflito envolvendo EUA, Israel e Irã neste ano foram utilizados cerca de 850 mísseis Tomahawk, um volume equivalente a vários anos da capacidade atual de produção americana, segundo dados compilados pelo Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS). O consumo acelerado de interceptadores Patriot produziu preocupações semelhantes. Alta precisão O ambiente da unidade em Herstal lembra mais uma instalação de alta tecnologia do que uma fábrica de armamentos convencional. Ali se concentram as atividades classificadas pela empresa como “inertes”: produção dos kits de guiagem, montagem das aletas, integração eletrônica e calibração dos sensores a laser. Antes de seguir para a etapa seguinte, cada sistema passa por sucessivas simulações mecânicas e eletrônicas capazes de reproduzir as condições extremas enfrentadas pelo foguete após o disparo. Em uma das áreas mais sensíveis da planta, mesas apoiadas sobre fundações antissísmicas eliminam vibrações capazes de comprometer a precisão dos equipamentos. A maior parte do processo, porém, continua sendo manual. — A precisão necessária é comparável à fabricação de relógios de luxo — explicou Thomas Collinet, diretor de Veículos e Sistemas Táticos da Thales Belgium. Thales multiplicou por cinco a produção, passando de mil unidades anuais para 5 mil — Foto: Thales Group / Divulgação Nos últimos anos, a Thales multiplicou por cinco a produção dos foguetes guiados de 70 milímetros, passando de cerca de mil unidades anuais para 5 mil. A meta agora é dobrar novamente essa capacidade até o fim de 2026, em um movimento que reflete o esforço europeu para recompor estoques e reduzir a dependência de fornecedores externos. — Muitas empresas aguardaram os programas de financiamento da União Europeia antes de ampliar sua capacidade produtiva. Nós decidimos investir antes porque entendíamos que não havia tempo para esperar — afirmou Alain Quevrin, diretor da Thales Belgium. A decisão antecipou uma tendência que hoje se espalha pelo continente. A expansão da produção faz parte de um esforço mais amplo da União Europeia para reconstruir sua base industrial de defesa. Programas como o SAFE, que prevê € 150 bilhões (R$ 885 bilhões) em empréstimos para projetos conjuntos, e o ASAP, voltado à ampliação da capacidade produtiva de munições, buscam reduzir vulnerabilidades acumuladas ao longo de décadas. Para Marc Darmon, vice-presidente sênior da Thales para a Europa, a questão vai muito além da capacidade produtiva. — O fato de a União Europeia adquirir hoje cerca de 80% de seus equipamentos fora do bloco representa um problema real de soberania e resiliência. Não é apenas uma questão industrial. É uma questão operacional. Em caso de conflito, você precisa ser capaz de manter e reparar sistemas o mais próximo possível da linha de frente. A poucos quilômetros de Herstal, atrás dos muros do Forte d’Evegnée — uma fortificação construída no final do século XIX para integrar o sistema defensivo belga — funciona a outra metade da cadeia produtiva da Thales Belgium. Linhas de montagem Evegnée concentra todas as atividades relacionadas aos componentes energéticos dos foguetes. Ali são montados motores, espoletas e ignitores; realizados testes ambientais e disparos experimentais; e armazenados os produtos finalizados. Os protocolos de segurança são ainda mais rígidos. Dispositivos eletrônicos só podem ser usados em áreas previamente autorizadas, sempre em modo avião e com os serviços de localização desativados. Os deslocamentos ocorrem exclusivamente por trajetos demarcados. Por segurança, o forte opera com um limite simultâneo de apenas 50 pessoas, entre funcionários e visitantes. Tudo ali envolve materiais sensíveis e altamente inflamáveis. Nem mesmo nas áreas externas é permitido fumar. Da cafeteria instalada no segundo andar de um dos edifícios do complexo, fomos convidados a acompanhar o lançamento de um foguete de 70 milímetros. O teste, porém, ocorreu de forma quase clínica. Com as janelas fechadas, observávamos a galeria onde o disparo seria realizado, enquanto uma voz no rádio iniciava, em francês, a contagem regressiva. Segundos depois, o foguete deixou o lançador e desapareceu rapidamente do campo de visão. A cena — talvez frustrante para quem esperava uma simulação mais realista de combate — revelou algo mais importante. A guerra moderna não é feita apenas de imagens espetaculares na linha de frente. Ela também é construída em laboratórios, linhas de montagem e campos de teste submetidos a protocolos rigorosos. Em Herstal e Evegnée, a Europa tenta reconstruir capacidades industriais que considerava desnecessárias após o fim da Guerra Fria. Mais do que produzir foguetes, as duas instalações ajudam a explicar uma mudança estratégica mais profunda: a percepção de que, em um mundo marcado por crises simultâneas, a segurança voltou a depender de fábricas, cadeias de suprimentos e capacidade produtiva. Depois de décadas sob o guarda-chuva americano, os europeus descobriram que nem mesmo os EUA conseguem produzir munição suficiente para todos os conflitos do século XXI. *A repórter viajou a convite da Thales Group