Um apelido criado por um jornal esportivo que caiu no gosto do público, cresceu e se tornou uma marca milionária para uma seleção nacional de futebol — não antes de uma disputa judicial que envolveu um empresário e que quase fez a confederação buscar outro apelido. Foi assim que a seleção da África do Sul, que joga nesta quinta-feira (11) contra o México na Copa do Mundo 2026, se tornou a "Bafana Bafana" para os torcedores, nome explorado tanto no marketing como em produtos oficiais pela associação sul-africana de futebol até hoje. Nos estádios, durante os jogos, o apelido é o grito de incentivo aos jogadores. "Bafana Bafana" estampa camisetas, faixas e outros itens. Para se ter ideia, hoje o apelido é tão intrínseco à marca do time que os perfis oficial da seleção sul-africana de futebol são o @bafanabafanaofficial. A hashtag de apoio à seleção é a #BafanaPride. Tudo começou a partir das manchetes do jornal local Sowetan, baseado em Joanesburgo. Os jornalistas adaptaram uma gíria popular que ouviram torcedores usar nas arquibancadas: no caso, "abafana bethu" (nossos rapazes, em tradução literal do zulu, uma das 11 línguas oficiais da África do Sul), no início dos anos 1990. Daí, nasceu a seleção "Bafana Bafana". Batalha judicial pelo apelido O apelido logo ganhou as graças dos torcedores. Vendo o início da popularização e o potencial de ganho, um empresário local chamado Wayne Smidt registrou "Bafana Bafana" como marca em nome de sua empresa, a 'on Woodrush (Pty) Ltd. A Associação de Futebol da África do Sul (Safa), por sua vez, ignorou a oportunidade na ocasião. Os anos passam, e cada vez mais a seleção nacional foi sendo chamada pelo apelido informal. Anos depois, ao notar que perdeu a oportunidade de registro, a Safa resolve brigar pela propriedade de marca. Um processo judicial começa em meados de 1996 e, em 2002, o empresário venceu o primeiro round, o que impediu que a Safa capitalizasse totalmente em cima do "Bafana Bafana" com produtos e patrocínios. O empresário pedia US$ 41 milhões pelo título. A demora da Safa em registrar o nome rendeu até uma bronca da justiça sul-africana, apontou uma análise publicada pelo jornal local Daily Maverick na época. "A Suprema Corte de Apelações disse à Safa que eles deveriam ter pensado em registrar o nome primeiro", escreveu o jornalista Sipho Hlongwane. Com a chegada da Copa do Mundo de 2010, sediada na própria África do Sul, a seleção nacional decide por um acordo pela exploração da marca: Wayne Smidt passou a deter 49,5% de uma empresa conjunta criada para explorar a marca, e a Safa os outros 50,5%. Assim, ambos dividiram os royalties arrecadados com a exploração. Na época, jornais internacionais chegaram a especular que a seleção sul-africana seria obrigada a abandonar o uso do apelido para sempre para que pudesse ter o domínio total sobre o uso da marca. A mudança, que já começava a ser ventilada pelo alto escalão em entrevistas, gerou reação negativa por parte dos torcedores e da mídia especializada. No ano seguinte, porém, uma boa notícia: a Safa finalmente conseguiu comprar os direitos totais sobre seu apelido comprando a outra metade dos direitos em um acordo de US$ 5 milhões, segundo publicado na época pelo Bizcommunity, site de negócios sul-africano.