Durante anos combati e denunciei os abusos da Operação Lava Jato, tanto nas dezenas de processos em que atuei quanto em manifestações públicas, seja em artigos, debates ou nas redes sociais. Apesar das contundentes críticas, jamais deixei de apontar parte do legado positivo da operação —e um deles ficou facilmente percebido no meu dia a dia profissional.

Há determinados setores da economia que sempre viveram do binômio extorsão/corrupção do poder público. São áreas em que a corrupção é quase normalizada. Pagar "alguns por cento" para um funcionário público fazer ou deixar de fazer algo já está na conta do negócio.

O mercado funciona assim; é o que dizem. A Lava Jato, durante um bom tempo, colocou freios nessa quase romantização da corrupção. Ouvi de vários empresários que as coisas tinham mudado.

Ou porque os atores envolvidos no crime passaram a ter medo de serem presos, ou porque políticas de integridade reais foram introduzidas no âmbito corporativo. Ou, ainda, do ponto de vista prático, corromper estava difícil; afinal, grande parte dessas transações se dava com dinheiro em espécie, e os operadores de dinheiro vivo estavam também presos.

Pois bem, as coisas mudaram. Ou, melhor, voltaram. E voltaram para pior.