O problema da subida do nível do mar é muitas vezes apresentado como algo distante, quase abstracto. Um problema para finais do século, quando falamos dos resultados de modelos climáticos e de cenários de emissões. Mas há dois novos estudos que trazem esta questão para o presente.Os artigos científicos publicados esta quarta-feira nas revistas Nature Climate Change e Science Advances vêm desfazer aquela que pode ser uma confortável ilusão que olha para a subida do nível do mar como uma ameaça futura: o impacto já está cá, é mensurável, inequívoco e, sobretudo, acelerado. “A costa de Portugal está a registar aumentos um pouco mais rápidos nos eventos extremos do nível do mar do que em muitos outros locais do mundo”, nota Sönke Dangendorf, o principal autor de um dos estudos.O estudo liderado por Sönke Dangendorf, publicado na Nature Climate Change, conclui que a subida do nível do mar causada por actividades humanas “já transformou a probabilidade de extremos historicamente raros”. O que é que isto quer dizer? Diz-nos que aquilo que antes era raro se tornou comum. Eventos extremos do nível do mar — as chamadas cheias costeiras — não estão apenas a aumentar em intensidade, mas também em frequência.A equipa combinou observações de marégrafos com simulações de modelos climáticos para analisar as alterações na frequência de eventos extremos do nível do mar entre 1900 e 2005. “A frequência mediana de um evento extremo que ocorria uma vez em 100 anos aumentou cerca de 12 vezes”, concluem. Um episódio que em condições normais ocorreria uma vez por século pode agora acontecer, em média, a cada oito anos.