O Conselho de Governadores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), composto por 35 países, aprovou nesta quarta-feira uma resolução apoiada pelos Estados Unidos determinando que o Irã declare seus estoques remanescentes de urânio enriquecido e permita que inspetores verifiquem esse material, medida que pode complicar as negociações entre Washington e Teerã. A decisão ocorreu poucas horas depois de EUA e Irã trocarem ataques militares, após o presidente americano Donald Trump afirmar que o Irã havia derrubado um helicóptero Apache dos EUA próximo ao Estreito de Ormuz. Ataques israelenses e americanos realizados em junho do ano passado destruíram ou danificaram gravemente instalações iranianas de enriquecimento de urânio. No entanto, acredita-se que grande parte do urânio enriquecido produzido por essas instalações — incluindo material próximo ao grau necessário para armas nucleares — tenha sobrevivido. O Irã ainda não informou à AIEA qual foi o destino desse material nem permitiu o retorno dos inspetores da agência aos locais bombardeados para realizar verificações. Os EUA lideraram o esforço para aprovar a resolução, mas o Irã a classificou como uma tentativa de “encobrir a agressão militar”, argumentando que os inspetores tinham acesso às instalações antes dos ataques. O texto da resolução, apresentado pelos EUA, Reino Unido, França e Alemanha, foi aprovado com 21 votos favoráveis, três contrários e dez abstenções, segundo diplomatas presentes na reunião a portas fechadas. Os países que votaram contra foram Rússia, China e Níger. “Os ataques do regime israelense e dos EUA às instalações nucleares iranianas interromperam as atividades de verificação e forçaram os inspetores da Agência a deixar o Irã por razões de segurança”, escreveu no X (antigo Twitter) o vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, Kazem Gharibabadi, antes da votação. “Agora, os EUA procuram transformar as consequências de seu ataque ilegal em um caso contra a República Islâmica do Irã”, acrescentou Gharibabadi. A missão iraniana junto à AIEA havia alertado o conselho para ser “cauteloso no caminho a seguir”. O Irã costuma reagir negativamente a resoluções contra o país e, em ocasiões anteriores, respondeu ampliando suas atividades nucleares ou reduzindo sua cooperação com a AIEA. A resolução estabelece que o Irã deve “fornecer à Agência informações completas sobre os inventários de material nuclear” e conceder à AIEA o acesso necessário para verificar essas informações “sem demora”. EUA e Irã estão atualmente em negociações destinadas a prolongar o cessar-fogo entre os dois países e abrir caminho para conversas mais amplas sobre diversas questões, incluindo o programa nuclear iraniano. Negociações tensas Trump demonstrou aparente frustração com as negociações, após afirmar repetidamente nos últimos meses que as duas partes estavam próximas de um acordo inicial. “O Irã fala muito e não faz nada”, escreveu Trump em uma publicação nas redes sociais nesta quarta-feira. “Eles demoraram demais para negociar um acordo que teria sido excelente para eles. Agora terão que pagar o preço!!!” Trump tem afirmado que o Irã não pode ter capacidade de produzir uma arma nuclear. Já o Irã sustenta que jamais pretendeu desenvolver esse tipo de armamento. Um dos principais objetivos de Trump é a remoção do urânio enriquecido iraniano, especialmente os 440,9 quilos enriquecidos a até 60% de pureza — um passo relativamente curto dos cerca de 90% necessários para uso militar. Segundo estimativas da AIEA, esse era o estoque que o Irã possuía até os primeiros ataques israelenses de 13 de junho do ano passado. De acordo com os critérios da AIEA, essa quantidade seria suficiente, caso fosse enriquecida ainda mais, para produzir dez armas nucleares. Contudo, não está claro quanto desse material ainda existe.
Agência nuclear da ONU aprova resolução sobre urânio do Irã
Rússia, China e Níger foram os únicos países a se opor ao texto, que demanda dados sobre estoque e inspeções vinte e um países votaram a favor, e dez se abstiveram











