A decisão da Coca-Cola de estampar figurinhas do álbum da Copa do Mundo Fifa 2026 em garrafas do refrigerante virou uma dor de cabeça para a empresa. O Valor apurou que a companhia de bebidas está tendo que pagar um ressarcimento aos varejistas devido à onda de furtos de figurinhas que vêm anexadas nos rótulos dos refrigerantes. Os produtos não podem ser comercializados sem esses rótulos. Isso porque, como a negociação dos lotes de produto já ocorreu, quando a embalagem é avariada, o acerto é que se pague um reembolso pelo produto danificado para a rede de varejo. Como a venda dos itens afetados não vai ocorrer, a responsabilidade, nesse caso, é do fornecedor que criou a ação. O lote fica inutilizado para o comércio varejista. Foi algo que ocorreu no caso de uma grande cadeia de supermercados e hipermercados consultada pela reportagem. Ao todo, 14 jogadores do futebol mundial podem ser encontrados no verso dos rótulos promocionais das garrafas de Coca-Cola Sabor Original e Zero Açúcar nas versões de 600 ml e 2,5 litros. “Perto do volume que vendemos de Coca, que é muito grande, não faz sentido o custo de logística da devolução, então eles bonificam a mercadoria avariada”, diz uma fonte. “Tem que tirar de venda o produto, fazer um relatório e a Coca reembolsa, mas não vai para a venda”, afirma o superintendente de uma cadeia de supermercados de São Paulo “O problema é que nem dá nem para passar no caixa o produto, porque o código de barras está no rótulo. Mas no nosso caso, estão roubando muito, não é pouco não”, disse ele. Em uma grande rede de atacado, o acordo fechado foi de devolução e entrega de novos lotes, pelo volume grande afetado. “Isso entra para a varejista como produto danificado, e o fabricante precisa fazer a indenização e trocar por produtos em bom estado. É uma chatice, gera uma logística e um custo, mas eles trocam”, afirmou ex-vice-presidente comercial de uma rede de atacado. Atletas retratados Trata-se de uma série especial num acordo da Coca com a Panini, parceira exclusiva da Fifa, e fazem parte da ação as figurinhas de atletas como Lamine Yamal, Virgil van Dijk, Harry Kane e o brasileiro Gabriel Magalhães. Essa é uma campanha global, com previsão de distribuição de 1 bilhão de figurinhas no mundo. Não há dados do volume de figurinhas comercializadas no Brasil, onde a ação é válida entre os dias 15 de abril e 15 de junho. Procurada para comentar sobre os reembolsos, a Coca informou que a retirada dos rótulos está em desacordo com as regras da ação e as lojas podem atuar da forma que considerarem adequada. Para tentar contornar o problema, há redes que já pararam de enviar os lotes de produtos com figurinhas para as lojas que atendem condomínios (lojas express), porque, nesses locais, os furtos são muito frequentes. “Nessas lojas, agora só mandamos Coca-Cola sem figurinha porque nos condomínios roubam demais”, disse um executivo ouvido pela reportagem. As redes ainda estão mudando os produtos da Coca de lugar dentro das lojas e colocando o lote com essas versões próximo aos caixas e às áreas de maior circulação de funcionários, como padaria e açougue, para inibir o cliente e impedir o furto dos rótulos. “Também há lojas que estão passando fita adesiva nos rótulos, em volta da embalagem, mas dá muito trabalho, não vale a pena. São milhares de embalagens de Coca na minha rede, é impossível [fazer isso] ”, disse o diretor geral de uma rede de São Paulo. Uma segunda fonte ouvida afirmou que o impacto na sua empresa é pequeno e vem sendo administrável. “Não é algo generalizado, mas acontece em alguns momentos [do dia] e em algumas lojas. Colocamos nossos times de prevenção de perdas para atuar de forma mais ativa”, disse. Dados recentes da Associação Brasileira de Prevenção de Perdas (Abrappe) mostraram que o índice médio de perdas no varejo atingiu 1,65% no ano passado, versus 1,51% em 2024 — o maior indicador da pesquisa. Em paralelo aos furtos dos rótulos do refrigerante que estão acontecendo nos mercados, chama a atenção a venda de kits com as 14 figurinhas da Coca-Cola em plataformas de varejo on-line como Amazon e Shoppee por preços entre R$ 62 e R$ 89, conforme a reportagem apurou em pesquisas nesta terça-feira (9). Procuradas, as plataformas ainda não se manifestaram. Responsável pelo álbum e figurinhas, a Panini não comentou sobre os furtos no varejo. O Procon-SP alertou que “muitos consumidores acabam adquirindo figurinhas, álbuns e kits promocionais em marketplaces, perfis de redes sociais ou grupos de mensagens sem verificar a confiabilidade do vendedor”. Há um volume crescente de reclamações nesse sentido. Em março, não houve queixas, mas em abril foram contabilizadas 34 reclamações e, em maio, o número saltou para 109. “Parte das ocorrências envolve a comercialização das figurinhas em plataformas digitais e redes sociais, incluindo relatos de golpes, vendas de produtos falsificados, anúncios enganosos e problemas de entrega”, destacou o órgão de defesa do consumidor. A Panini, editora responsável pelo álbum e figurinhas, destacou que o consumidor deve dar “preferência para a aquisição de produtos em pontos de venda autorizados (varejo tradicional e online) e desconfie de promoções que ofereçam produtos por valores muito fora da média”. Ainda segundo a editora, “uma forma possível de diferenciar os produtos seria observando o tipo de fechamento do envelope. O produto oficial da Panini tem um pacote de figurinhas lacrado de maneira uniforme em toda sua extremidade.” A editora enfrenta outros percalços como a perda da licença de produzir o material, cujo contrato de exclusividade durava 60 anos. A Fifa informou que, a partir de 2031, o álbum, figurinhas e outros materiais colecionáveis passam para as mãos da americana Fanatics. A Panini informou que não vai comentar sobre esse tema. Convocações do técnico Carlo Ancelotti Outra dor de cabeça é o álbum sem 13 jogadores brasileiros convocados pelo técnico Carlo Ancelotti posteriormente à impressão do material. A Panini está imprimindo figurinhas extras desses atletas, mas disse que não vai comentar sobre como elas serão coladas. A Coca foi questionada pela reportagem sobre os reembolsos ao varejo e não respondeu especificamente à dúvida. Em seu posicionamento, informou que suas promoções são desenvolvidas para proporcionar “experiências positivas aos consumidores e parceiros, sempre com respeito às regras de participação e aos pontos de venda”. “A retirada de rótulos promocionais sem a aquisição de um dos produtos participantes está em desacordo com o regulamento da promoção. Nesses casos, os pontos de venda têm autonomia para adotar as medidas que considerarem adequadas, de acordo com suas políticas internas”, disse.