O esquerdista Roberto Sánchez segue à frente na apuração do segundo turno das eleições à Presidência do Peru, mas viu sua vantagem diminuir à medida que a contagem dos votos avança nesta terça-feira. Com 95,96% das urnas apuradas, o candidato do Juntos pelo Peru tem 50,05% contra 49,95% da direitista Keiko Fujimori, do Força Popular. Pouco menos de 20 mil votos separavam os dois postulantes ao cargo por volta das 12h35, segundo a mais recente atualização da Oficina Nacional de Processos Eleitorais (Onpe), o órgão responsável pela apuração no país. Keiko saiu na frente na apuração do domingo, mas viu Sánchez tomar a dianteira na tarde de ontem. No entanto, a distância entre os dois vem caindo nas últimas horas. Analistas apontam que a maior parte dos votos a serem contabilizados são de eleitores peruanos no exterior, que costumam favorecer candidatos de direita. Também ainda faltam entrar na contagem cerca de 1,5 mil atas enviadas a juris, que fazem parte de uma auditoria da eleição e serão apurados apenas no final do processo. O voto no exterior não é obrigatório, mas, nas eleições recentes, cerca de 300 mil peruanos que residem fora do país compareceram às urnas. Do total, apenas 30,2% desses votos foram apurados até o momento pelo Onpe. Cada ata enviada aos juris especiais contém cerca de 200 a 300 votos, segundo especialistas. A maior parte desses cerca de 450 mil votos vem de Lima, onde Keiko, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, tem mais de 60% de apoio do eleitorado. No segundo turno da eleição de 2021, em que foi derrotada pelo esquerdista Pedro Castillo, aliado de Sánchez, Keiko conquistou quase dois terços dos votos em ambos os grupos: 64,6% na capital e 66,2% entre os residentes no exterior. Já na eleição de primeiro turno realizada em abril, o voto internacional deu ao ultraconservador ex-prefeito de Lima Rafael López Aliaga uma liderança de 25% nesse segmento entre mais de 30 candidatos. Fujimori ficou em segundo lugar, com 17%, enquanto Sánchez terminou apenas na oitava posição, com 2,6%. Gonzalo Banda, analista político da University College London, disse em entrevista à agência Bloomberg que o voto no exterior pode acabar "inclinando a balança" a favor da direita. "O que falta ser apurado favorece majoritariamente Keiko", disse ele", disse. Alfredo Torres, presidente-executivo da Ipsos, concorda com a avaliação. Ao jornal espanhol El País, ele afirmou que os votos que ainda faltam ser contabilizados são de segmentos do eleitorado que historicamente preferem Keiko. "Fizemos cálculos internos com diferentes cenários e a verdade é que, na maioria deles, Keiko vence. O percentual que vemos agora praticamente não inclui os votos no exterior", explicou Torres. Dentro do Peru, onde o voto é obrigatório, a maior parte dos votos ainda não apurados vem de regiões rurais e mais pobres do país, que tendem a favorecer Sánchez. Ainda assim, o candidato esquerdista precisaria de uma vantagem superior a 100 mil votos para eliminar a vantagem que especialistas esperam que Keiko obtenha com os votos no exterior. "Eu ficaria surpreso se Sánchez conseguisse manter a liderança. Seria necessária uma catástrofe no desempenho de Keiko entre os eleitores no exterior para que isso acontecesse”, acrescentou Banda. A incerteza sobre o resultado das eleições, porém, deve se arrastar por semanas. Após o encerramento da votação no domingo, autoridades eleitorais previram que o resultado final só será conhecido dentro de 30 dias, assim como ocorreu durante o primeiro turno do pleito presidencial. A demora na divulgação dos resultados finais se deve a uma lei eleitoral que exige que cada cédula de votação e cada ata eleitoral — que resume os votos de cada seção eleitoral — seja transportada para mais de uma centena de unidades de apuração para contagem. Além disso, as cédulas e atas dos eleitores que votaram no exterior precisam chegar a Lima vindas de 63 países, processo que deve terminar amanhã.