A Justiça das Bahamas, pequeno país insular no Caribe que é conhecido como um paraíso fiscal, aceitou o processo de liquidação do Banco Master, o que deve facilitar que o liquidante nomeado pelo Banco Central busque ativos do grupo por lá. Isso pode trazer mais pistas sobre relatos de que a instituição de Daniel Vorcaro teria mais de R$ 1 bilhão aplicados em Treasuries (títulos do Tesouro dos Estados Unidos). Em sua decisão, o juiz Raynard Rigby, da Suprema Corte das Bahamas, aponta que, no Brasil, o BC age como se fosse um juiz de falências para os bancos e que o liquidante, a EFB Regimes Especiais de Empresas, age como um agente do regulador. "Estou convencido de que a EFB cumpre os requisitos previstos na Lei. Também estou satisfeito, com base nas provas apresentadas, de que os procedimentos de liquidação ou falência no Brasil estão fundamentados nos princípios da coletividade; isto é, a EFB realizará a arrecadação e a recuperação de ativos e fará distribuições equitativas aos credores. Também parece evidente que os poderes legais da EFB no Brasil, conforme descritos e explicados nos pareceres de direito estrangeiro apresentados sob juramento, são semelhantes aos poderes e funções de um liquidante previstos na Seção 205 e no Quarto Anexo da Lei das Sociedades das Bahamas", diz a decisão. Desde o ano passado, quando o Master enfrentava dificuldades e negociava uma fusão com o Banco de Brasília (BRB), circulam no mercado rumores de que o banco de Daniel Vorcaro teria mais de R$ 1 bilhão aplicados em Treasuries. O assunto era alvo de uma série de informações desencontradas e suscitava o questionamento de que, se esses ativos realmente existiam, por que Vorcaro nunca os vendeu e o usou o dinheiro para tentar salvar seu banco. A história começou quando o BRB percebeu problemas nas documentações da carteira de consignado da Tirreno que o Master lhe repassou e foi orientado pelo BC a fazer uma troca de ativos. Assim, saiu “caçando” no balanço do banco de Vorcaro qualquer coisa que tivesse um pouco mais de liquidez e fosse passível de uma precificação menos volátil. Nesse pacote de ativos estavam os Treasuries que o Master dizia possuir. Segundo documentos aos quais o Valor teve acesso, esses títulos estavam dentro de dois fundos. O primeiro deles, chamado Liquidity Strategies Fund Ltd, foi avaliado pelo BRB em US$ 205,5 milhões. O segundo, o Global Navigator Fund Ltd, foi avaliado em US$ 114,2 milhões. O Liquidity é sediado nas Bahamas e gerido pelo Equity Bank Bahamas. Já o Global tem sede em Jersey, outro paraíso fiscal. Em meados do ano passado, o BRB contratou um advogado para fazer uma espécie de diligência e verificar se esses fundos - e os Treasuries - realmente existiam e pertenciam ao Master. Munido dos contratos entre os bancos, esse profissional viajou para essas ilhas, visitou os gestores in loco e confirmou as informações passadas por Vorcaro. A questão é que o Master nunca chegou a transferir formalmente a posse das cotas desses fundos para o BRB. As negociações se arrastaram por alguns meses e, quando o banco de Vorcaro foi liquidado, em novembro, faltava apenas uma assinatura por parte deles para transferir esse ativo para o banco do Distrito Federal. Assim, como o BRB ainda não tinha a posse efetiva das cotas, quando o advogado esteve nas Bahamas e em Jersey, ele conseguiu confirmar alguams informações sobre os fundos, mas não detalhes, que naturalmente só podem ser passados aos cotistas. Descobriu, inclusive, que os títulos haviam sido transferidos do Global para o Liquidity, ou seja, naquele momento já não existia mais nada no fundo de Jersey. De qualquer forma, esse perito fez um relatório e o entregou ao BRB. O BC alegava até o ano passado que esses Treasuries não haviam sido encontrados. Em dezembro, durante depoimento à Polícia Federal, o diretor de fiscalização da autoridade monetária, Ailton de Aquino Santos, chegou a mencionar o assunto. Eu vou dar um exemplo aqui de um ativo: títulos com hedge estruturado no exterior, que está em um ofício de 8 de julho de 2025 do BRB. Esses títulos no exterior, de R$ 1,8 bilhão, são um bom exemplo do que você pode fazer uma provisão, porque na hora que o BRB foi procurar fazer a diligência se existiam ou não esses títulos, ele não conseguiu", comentou. Um ofício enviado pelo regulador ao BRB e ao Master em junho já cobrava informações sobre esses Treasuries, na época contabilizados por um valor de R$ 1,924 bilhão. O BC pediu informações mais detalhadas a respeito da natureza desse saldo e perguntou "as razões pelas quais os referidos recursos ainda não foram convertidos em reais e utilizados pelo Banco Master S.A. para reforçar a sua liquidez, cabendo quanto a este item encaminhar-nos explicações específicas, detalhadas e documentadas caso exista alguma razão que impossibilite a utilização de tais recursos no presente momento". Já a PwC, que havia sido contratada pelo BRB para fazer a “due diligence” (verificação) no balanço do Master, quando ambos estavam negociando uma fusão, também chegou a se manifestar sobre a questão dos Treasuries. A auditoria disse que não recebeu o "completo detalhamento do conteúdo das carteiras e as demonstrações financeiras auditadas desses fundos" e recomendou "realizar análises detalhadas para compreender a efetiva realização desses ativos, conforme o previsto pela administração”. Uma fonte ouvida pelo Valor diz que apenas quando o liquidante tiver acesso aos fundos no paraíso fiscal que será possível desvendar o mistério. Dois pontos precisam ser esclarecidos. Primeiro, qual é o valor total dos fundos, já que algumas informações preliminares indicam que eles podem, na verdade, estar avaliados em cerca de US$ 600 milhões. Também será verificado quem é o titular do dinheiro – se os títulos são aqueles que estavam alegadamente no balanço do Master ou se são recursos desviados por Vorcaro por meio de uma cadeia de empresas de fachada e laranjas. Um advogado com conhecimento do assunto aponta que não necessariamente existe uma divergência entre o auditor do BRB que encontrou os Treasuries e a fala do BC de que eles não foram confirmados. "É quase uma discussão teológica. Uma coisa é dizer que não existe, outra coisa é dizer que não consegue comprovar que existe. O que o BC disse no ano passado é que não havia comprovação de que esses títulos de fato estavam dentro dos fundos, o que não significa dizer que eles não existem. O que me parece é que a diligência que o BRB tinha feito não deu segurança suficiente para o BC sobre esses ativos, não teve um acesso profundo."