Tetos com goteiras, atrasos intermináveis na entrega de bagagens e cheiro de esgoto. O aeroporto centenário da Cidade do México é uma porta de entrada deteriorada para um país prestes a sediar a Copa do Mundo. Dos portões de embarque às esteiras de bagagem, 3.000 trabalhadores correm agora para reformar as instalações antes que mais de 1 milhão de torcedores internacionais desembarquem na capital mexicana para o principal torneio do mês que vem. Situado a centenas de quilômetros da costa do Pacífico, o aeroporto Benito Juárez é administrado, de forma incomum, pela Marinha do México desde 2023. E, assim como a própria Cidade do México, a estrutura afunda a um ritmo de cerca de 10 centímetros por ano. A reforma de US$ 581 milhões é a primeira grande modernização do aeroporto — batizado em homenagem ao primeiro presidente indígena do México — desde sua inauguração, em 1928. Engenheiros lamentam a ausência de plantas úteis para lidar com o mosaico de 70 tipos diferentes de piso e uma rede sem padronização de tubulações, forros e fiação espalhada pelos cerca de 576 mil metros quadrados do complexo. Como arqueólogos, operários removeram recentemente placas de drywall no Terminal 1 e descobriram sinalizações dos anos 1980 escondidas atrás das paredes. Ninguém sabia que elas estavam ali. Para viajantes exaustos, as condições pioraram desde o início das obras, em abril do ano passado. Passageiros precisam percorrer corredores labirínticos ladeados por montes de terra e sacos de concreto. Em alguns momentos, banheiros ficaram sem água corrente. Cerca de 200 mil pessoas passam pelo aeroporto diariamente, e o torneio, que começa em 11 de junho, deve atrair ao menos cinco vezes esse volume ao longo das quase quatro semanas de competição. Para a Marinha, o desafio é reformar o complexo e mantê-lo em funcionamento ao mesmo tempo. “Quando começamos as reformas, o plano era que elas fossem principalmente estéticas”, disse o diretor do aeroporto, almirante Juan José Padilla. “Mas, quando você quer trocar alguns pisos e descobre que a drenagem embaixo está colapsada e o esgoto está vazando, precisa mudar o rumo.” Além de reparos em portões de embarque, banheiros, estacionamentos, iluminação, telhados, esteiras de bagagem e tetos, a administração tenta melhorar o processamento de bagagens e redistribuir melhor as operações de voo. O Benito Juárez movimentou cerca de 44 milhões de passageiros no ano passado, ante 50,3 milhões em 2019. Hub cancelado Não era para ser assim. Mais de uma década atrás, o México planejava construir um novo aeroporto que mais do que dobraria a capacidade do atual terminal. O Grupo Carso, do bilionário Carlos Slim, uniu-se à ICA e a outras empresas para construir um terminal futurista de US$ 4 bilhões e uma das duas pistas do projeto. Quando as obras começaram, em 2014, o governo praticamente deixou de investir na manutenção do Benito Juárez, que seria desativado alguns anos depois. Mas, em 2018, com bilhões de dólares já gastos e cerca de um terço do projeto concluído, o então presidente Andrés Manuel López Obrador cancelou abruptamente a obra. Segundo ele, o país não precisava de um aeroporto tão sofisticado e os contratos haviam sido marcados por corrupção. Nenhuma investigação confirmou essas acusações. Anos depois, López Obrador e Slim se reconciliaram politicamente e passaram a colaborar em projetos ferroviários. Em 2023, o ex-presidente transferiu o controle do aeroporto à Marinha, argumentando que os militares poderiam administrá-lo de forma mais eficiente. Uma das consequências foi o esvaziamento das receitas destinadas à manutenção do aeroporto. A tarifa de uso aeroportuário (TUA), cobrada de todos os passageiros, passou a ser direcionada para um fundo criado para remunerar investidores que financiaram o aeroporto cancelado. O arranjo deverá permanecer em vigor até 2047. Autoridades afirmam que a maior parte dos recursos das obras atuais veio das receitas operacionais dos próprios terminais. Questionado sobre se teria sido melhor concluir o novo aeroporto, Padilla evitou responder diretamente. “Não cabe a mim dar uma opinião pessoal”, disse. “Essa definição teria de partir de um grupo multidisciplinar.” Passageiros carregam suas bagagens dentro do aeroporto da Cidade do México enquanto passam pelas obras de reforma que visam modernizar entradas, plataformas e elementos estruturais do aeroporto antes da partida de abertura da Copa do Mundo, em 11 de junho, na Cidade do México , México , 18 de maio de 2026 — Foto: REUTERS/Henry Romero Passageiros irritados A cada poucas semanas, vídeos mostrando cenas caóticas no aeroporto viralizam nas redes sociais. No fim de abril, imagens mostraram água escura escorrendo por um corredor. A administração afirmou que não se tratava de esgoto, mas de água suja acumulada no telhado. Na mesma semana, parte de um teto desabou sobre um passageiro, causando ferimentos leves. Muitos mexicanos estão frustrados. “Não é como se eles tivessem descoberto sobre a Copa do Mundo apenas um ano atrás”, disse a passageira Ariadna Martínez, antes de embarcar para Monterrey. “Estamos tão acostumados a tudo ser de baixa qualidade no México que querem nos fazer acreditar que esta é uma grande reforma, mas parece feita às pressas.” Outros questionam a presença dos militares na administração de um aeroporto civil. “A Marinha não entende de aviação civil nem dos serviços de que os passageiros precisam”, afirmou María Larriva, ex-controladora de tráfego aéreo e investigadora de acidentes aeronáuticos. “A Marinha é composta por militares, não por arquitetos ou engenheiros.” Padilla diz receber as críticas com naturalidade. “Elas nos tornam melhores e nos fazem repensar o que estamos fazendo de errado.” Segundo ele, apenas cerca de 3,5% dos funcionários da administração pertencem à Marinha. Os demais já trabalhavam no aeroporto ou vieram do projeto cancelado do novo terminal. “Não estamos aqui para militarizar o aeroporto”, afirmou. “Estamos aqui para somar esforços com os civis.” Ele reconhece que as culturas militar e civil podem entrar em choque. Lembra, por exemplo, da primeira enchente ocorrida sob sua gestão, quando chegou ao aeroporto em um fim de semana e se surpreendeu ao não encontrar ninguém trabalhando. “Estabelecemos turnos de oito horas para garantir cobertura 24 horas por dia, porque o aeroporto opera todos os dias, sem interrupção”, disse. Pontapé inicial à vista Essa vigilância constante será ainda mais necessária quando os torcedores começarem a chegar. Na quinta-feira, México, Canadá e Estados Unidos anunciaram medidas coordenadas para viajantes procedentes de regiões africanas com maior risco relacionado ao Ebola. Segundo comunicado conjunto, a iniciativa busca proteger “os milhões de visitantes, torcedores, atletas e turistas esperados durante a Copa do Mundo de 2026”. Padilla espera que cerca de 80% das reformas estejam concluídas até 28 de maio, duas semanas antes da partida de abertura, entre México e África do Sul, em 11 de junho. Os 20% restantes devem ser finalizados após o torneio, em áreas internas menos visíveis aos passageiros. A Cidade do México sediará outros quatro jogos. A Câmara Nacional de Comércio, Serviços e Turismo estima que 1,1 milhão de turistas visitarão a capital durante o evento. O aeroporto já opera no limite. Em 2023, foi oficialmente declarado saturado, reduzindo sua capacidade de 61 para 43 operações por hora. Recentemente, o limite foi ampliado para 46 operações por hora para acomodar turistas e delegações. Três seleções que pretendiam fretar voos para a Cidade do México tiveram seus pedidos iniciais de slots negados por falta de espaço, segundo o diretor adjunto de operações, capitão Héctor Fabián Cortés. Quando a Marinha assumiu a administração, disse ele, o aeroporto registrava cerca de 600 voos irregulares por mês, com companhias operando fora dos horários autorizados. Agora, um Centro de Comando Coordenado monitora as operações em tempo real, com representantes das principais companhias aéreas. Também foram implementados um novo sistema de gestão aeroportuária e uma plataforma digital para automatizar a distribuição de slots. “Estamos trabalhando 24 horas por dia, fazendo um trabalho decente e realmente empolgados em entregar um aeroporto decente”, afirmou Padilla. Nem todos os passageiros são críticos das obras. Embora considere que a reforma pareça apressada, Emilio Fernández acredita que ela é melhor do que a inação. “O Mundial vai chegar e passar. Mas ficaremos com um aeroporto melhor e ruas mais bonitas”, disse antes de embarcar para Dallas. “Não é de todo ruim.”
Copa do Mundo força reforma às pressas do aeroporto no México
Dos portões de embarque às esteiras de bagagem, 3.000 trabalhadores correm agora para reformar as instalações antes que mais de 1 milhão de torcedores internacionais desembarquem na capital mexicana














