A Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP) condenou nesta segunda-feira "a promoção aberta" de bolsas de nicotina no festival Primavera Sound Porto, alertando que estes produtos provocam forte dependência e podem incentivar o consumo de nicotina entre os mais jovens.A Comissão de Trabalho de Tabagismo da SPP alerta em comunicado que "as bolsas de nicotina não são inócuas", contendo substâncias químicas perigosas e uma carga altamente aditiva."Promovê-las num ambiente de festa e lazer é um retrocesso lamentável na saúde pública e uma total falha de responsabilidade social por parte da organização do festival", critica o coordenador da Comissão de Trabalho de Tabagismo, Daniel Coutinho.

Por estes motivos, a SPP manifesta sua "profunda preocupação e total repúdio" perante a associação comercial e a atribuição de "naming rights" de um dos palcos principais do festival de música à marca de bolsas de nicotina oral ZYN."O Primavera Sound Porto é um dos maiores acontecimentos culturais do país, atraindo anualmente dezenas de milhares de jovens. É, por isso, com grande perplexidade que os especialistas em saúde respiratória assistem à promoção aberta e desinibida de um produto que induz uma forte dependência e que serve, comprovadamente, como porta de entrada para o consumo de outros produtos de nicotina ou tabaco entre as gerações mais novas", salienta.Os especialistas observam que este patrocínio surge "num momento crítico" em que o Governo português se encontra a finalizar o processo legislativo para proibir a publicidade destas bolsas de nicotina, precisamente com o intuito de salvaguardar a saúde pública e proteger os menores.A proposta de lei do Governo (que está desde sexta-feira, dia 5 de Junho, em consulta pública) propõe, entre outras medidas, a proibição da utilização "de marcas, logótipos, designações comerciais, embalagens, grafismos ou elementos visuais de bolsas de nicotina em qualquer outro produto ou serviço, sempre que tal possa constituir publicidade indirecta, evocativa ou associativa, incluindo eventos culturais, desportivos ou de entretenimento". A SPP alerta para esta estratégia de marketing da indústria, que usa "os grandes eventos de massas para normalizar e expandir o consumo destes produtos aditivos antes que a lei entre em vigor, contrariando o esforço nacional de combate à dependência de nicotina".A Comissão de Trabalho de Tabagismo refere que contactou formalmente a organização do Primavera Sound Porto por via electrónica, pedindo esclarecimentos sobre "a posição oficial do festival e os critérios éticos subjacentes à aceitação deste patrocínio", mas, até à data, ainda não obteve qualquer resposta."Não podemos aceitar que marcas associadas à dependência e à indústria do tabaco ganhem este palco de destaque junto de uma população tão vulnerável", critica a SPP.Os especialistas apelam a "uma reflexão urgente" por parte das promotoras de eventos culturais em Portugal e reitera a sua total disponibilidade para colaborar com as entidades públicas e privadas na sensibilização para os perigos reais das novas formas de consumo de nicotina.