Espécie símbolo do Rio ganha dois novos filhotes, enquanto cientistas veem sinais de resistência e renovação da vida marinha na Baía de Guanabara Avistamento de filhotes de boto-cinza na Baía de Guanabara reforça a recuperação da vida marinha — Foto: Ricardo Gomes / Instituto Mar Urbano RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 07/06/2026 - 22:45 Nascimento de Filhotes de Boto-Cinza na Baía de Guanabara Renova Esperanças de Conservação O nascimento de dois filhotes de boto-cinza na Baía de Guanabara traz esperança para a espécie símbolo do Rio de Janeiro. Apesar de décadas de poluição e caça, a presença desses cetáceos reflete a resistência da vida marinha local. Com uma população de apenas 30 botos na baía, cada novo nascimento é crucial para a sobrevivência da espécie. Cientistas destacam a necessidade de proteção e despoluição para garantir um futuro sustentável. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O cobertor de névoa de fim de outono ainda não se dissipara quando duas mães botos e seus bebês emergem para respirar. A neblina deixa embarcações com ares de navios fantasmas, oculta ilhas e montanhas, mistura céu e mar num oceano branco. Mas não tira a vivacidade dos botos-cinza da Baía de Guanabara. Antes mesmo da chegada das baleias jubartes, que começaram a aparecer em maio, os botos já traziam esperança para as águas cariocas na forma dos dois filhotes. Um de seis meses e outro com, no máximo, dois meses de idade. Na semana em que se celebra o Dia Mundial do Meio Ambiente, em 5 de junho, as águas do Rio presenteiam cariocas e visitantes com boas-novas, além da grandiosidade das jubartes e da fofura dos botos. Há para ver aves migratórias, como os trinta-réis, e uma população crescente de tartarugas-verdes, além de bichos que nunca deixaram de aparecer, como as raias de espécies ameaçadas de extinção. — A diversidade de vida marinha que se vê num único dia na baía impressiona. E não só quem mergulha. Muita coisa se vê de fora, como os botos, as tartarugas, as aves. Mesmo peixes, como as raias, são visíveis em água clara. As baleias são sensacionais. Mas a gente tem uma biodiversidade marinha magnífica na porta de casa para ver o ano todo — salienta o biólogo Ricardo Gomes, presidente do Instituto Mar Urbano (IMU). Raias são visíveis em água clara na Baía — Foto: Ricardo Gomes / Instituto Mar Urbano Mais que a beleza e a fofura, os bebês botos representam uma chance para a espécie mais simbólica do Rio de Janeiro, presente até na bandeira e no brasão do município. Acostumado a mergulhar quase que diariamente na baía, Gomes se emociona ao avistar os bebês. — Eles são lindos. Mas não é só isso. Estamos vendo que a vida persiste. Os filhotes são esperança renovada para a nossa baía. Ela é incrível. E é surreal ver e ouvir esses animais nesse cenário de névoa, em que nada parece estar vivo — afirma Ricardo Gomes. Aves migratórias, como os trinta-réis, também frequentam a Baía — Foto: Ricardo Gomes / Instituto Mar Urbano Trinta botos na Baía Diferentemente das baleias, nômades dos mares, os botos-cinzentos (Sotalia guianensis) são uma espécie de cetáceo residente. Eles passam a vida toda na baía ou enseada em que nasceram. Porém, há quase 10 anos, o número de botos da baía parece ter se estagnado em 30 animais, mostram estudos do Laboratório de Mamíferos Aquáticos e Bioindicadores (Maqua) da Faculdade de Oceanografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Já faz três décadas que o Maqua estuda e busca salvar os botos-cinza (Sotalia guianensis) da Guanabara. Os botos já se contaram aos milhares na baía. O missionário francês Jean de Léry (1536-1613), autor de “História de uma viagem à terra do Brasil”, escreveu que esses cetáceos “reuniam-se não raro em tão grande número em torno de nós e até onde alcançava a vista”. Mas, numa das muitas tragédias ambientais do Brasil, eles foram caçados sem piedade e sofreram com séculos de todo tipo de poluição. Na década de 80 do século XX, restavam cerca de 400. Em 1992, segundo o Maqua, já não eram mais de 100 cetáceos. Em 2014, havia 40. Nos anos seguintes, o número ficou em 30. E disso não tem passado. — O número de filhotes nascidos não tem compensado o de animais adultos mortos por doenças, acidentes ou velhice. E nem todos os filhotes sobrevivem. Por isso, cada filhote é extremamente precioso. Esperamos que esses dois nascidos este ano sobrevivam e, com eles, as chances da espécie na nossa baía — afirma o pesquisador do Maqua Rafael Carvalho. Problemas como poluição e mudança no clima persistem. Mas os botos insistem em resistir. Mas Carvalho e Gomes destacam que, para isso, é preciso ajuda humana, na forma de proteção contra captura acidental por pesca, redução da poluição da água e sonora. O alto ruído dos motores e máquinas dos navios desorienta os botos que navegam por sons. — O barulho das centenas de barcos é constante, não para nem à noite. E a poluição sonora é terrível para os botos. O problema não é só a qualidade da água — diz Carvalho. O boto-cinza é um dos menores cetáceos do mundo. Mas é um animal grande, se comparado com o ser humano. Os maiores machos não costumam passar de dois metros de comprimento e pesam por volta de 80 quilos. O filhote mais novo da Baía de Guanabara tem cerca de um metro. O mais velho é um pouco maior. Mas os cientistas não sabem ainda o sexo de nenhum dos dois. Os filhotes são mais claros e possuem o que os cientistas chamam de “dobras neonatais”. Isto é, as dobrinhas presentes nos bebês de forma geral, incluídos os humanos. Espécie tímida O boto carioca não é exibido. Diferentemente de seus parentes golfinhos oceânicos, os botos-cinza não são grandes saltadores. Fazem acrobacias fora d’água somente em situações raras e pouco compreendidas. Tampouco gostam de seguir embarcações. Podem até se aproximar, talvez por curiosidade. Mas não é regra e sim exceção. — Eles são tímidos e, de forma geral, evitam o contato com o ser humano — diz Carvalho. Na Baía de Guanabara, o bando sobrevivente tem como “casa”, ponto de reunião, a região entre a Ilha de Paquetá e a Área de Proteção Ambiental de Guapimirim. Não à toa, esse é o ponto mais tranquilo da baía. Fica mais afastado da área portuária, tem menos tráfego de embarcações que o Canal Central e também menos poluição. — Mas eles circulam por toda a baía e já os flagramos perto da saída. À noite, já os detectamos por meio de monitoramento acústico, no Canal Central e na Ilha do Governador — afirma Carvalho. O boto é costeiro e caseiro. Cada baía tem sua própria população de botos-cinza e elas raramente se misturam. Há alguns anos quatro adultos vindos da Baía de Sepetiba entraram na Guanabara, mas apenas um deles permaneceu. As fêmeas dão à luz apenas um filhote por vez e a gestação dura quase um ano. O filhote é amamentado e permanece com a mãe por pelo menos um ano. Em geral, uma fêmea só se reproduz a cada três anos. O bebê e sua mãe formam uma dupla inseparável. De tão juntos, parecem quase colados ao mergulhar e emergir. Os botos vivem aproximadamente 20 anos. Eles chegam à maturidade sexual e podem começar a se reproduzir aos seis anos. A esperança dos cientistas é que os filhotes nascidos este ano consigam chegar a essa fase. — Cada mês de vida desses filhotes é uma vitória — frisa Carvalho. Símbolo e sentinela O boto é símbolo e sentinela da Guanabara. Está no topo da cadeia alimentar. Se ele existe, é porque há peixes, moluscos, crustáceos e toda uma rede que chega até o plâncton, ressalta o pesquisador do Maqua. Mas a existência de somente 30 botos é um sinal de alerta de que a Guanabara tem melhorado, mas ainda precisa de muito trabalho de despoluição para se reabilitar. — Os botos resistem. Eles são a própria Baía de Guanabara. Estão no coração da cidade. Eram abundantes. Depende de nós, humanos, que voltem a ser — enfatiza Carvalho.
Nascimento de dois filhotes de boto-cinza renova a esperança na Baía de Guanabara
Espécie símbolo do Rio ganha dois novos filhotes, enquanto cientistas veem sinais de resistência e renovação da vida marinha na Baía de Guanabara









