“Vamos ter de aprender a viver com o siluro”, avisa o investigador Filipe Ribeiro, que esteve numa operação recente no Tejo que permitiu a remoção de 254 peixes, totalizando 2,3 toneladas da espécie invasora Silurus glanis, conhecida como siluro ou peixe-gato-europeu.Professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e investigador do MARE, Filipe Ribeiro explica que a erradicação já não é um cenário realista e que o caminho passa pela gestão localizada de populações, sobretudo em áreas ecologicamente sensíveis. A dispersão do siluro em Portugal constitui hoje uma ameaça à biodiversidade em rios e lagos.O coordenador nacional do projecto europeu LIFE Predator explica ainda, numa entrevista por telefone, como o siluro se adaptou às águas portuguesas, de que forma a espécie exótica foi introduzida e porque continua a ser dispersada por alguns pescadores que a vêem “como um troféu”.O siluro é uma espécie invasora oriunda da Europa central e de Leste. Como é que se adapta tão bem às águas portuguesas?Isto acontece muitas vezes com espécies invasoras ou com outras espécies introduzidas noutros locais, que, quando expostas a temperaturas mais quentes ou a outros ambientes diferentes, acabam por aumentar ainda mais a capacidade de reprodução e o tamanho das populações.Portanto, é originária da Europa central, onde as águas são mais frias, mas os peixes (e muitos dos animais) estão muito dependentes da temperatura do ambiente. Quando a água está fria, acabam por estar mais inactivos. Aqui na Europa do Sul, como as águas nunca atingem temperaturas tão frias, estão sempre activos. Não havendo limitação de alimento e com temperaturas diferentes, eles vão sempre crescer mais rápido porque o metabolismo é muito mais acelerado.Como é que o siluro foi introduzido na Península Ibérica?Segundo reza a história, foi um biólogo alemão que o introduziu, acho que em 74 ou 76, no rio Ebro, Espanha. Como é uma espécie com algum interesse na pesca lúdica e desportiva, por se tornar um troféu de pesca, algumas pessoas introduziram-na. Esse biólogo viu que as temperaturas da água no rio Ebro eram muito adequadas para a espécie e introduziu-a lá, ilegalmente, claro. Depois, a reboque desse interesse da pesca lúdica e desportiva, os populares, os pescadores, foram introduzindo no Alto Tejo e também no Alto Douro. A progressão ao longo das bacias hidrográficas faz-se de dois modos: pela sua própria dispersão natural, rio abaixo, e por introdução humana.Quando fala em dispersão natural, de que ordem de grandeza estamos a falar?Os nossos estudos apontam para uma dispersão de dez quilómetros por ano, mais ou menos. Agora, o que acontece é que muitos novos focos de ocorrência do siluro ocorreram para além desta taxa de dispersão. Em 1998 foi introduzido no Alto Tejo e em 2001 já estava muitos quilómetros abaixo do sítio de introdução. Depois, em 2006, apareceu no Baixo Tejo. Portanto, estas novas ocorrências devem-se a acção humana. Infelizmente, a introdução por populares continua a acontecer.
“Não temos recursos suficientes para erradicar o siluro”, o grande predador dos rios
Especialista em peixes invasores, Filipe Ribeiro explica porque é irrealista erradicar a espécie Silurus glanis das águas portuguesas. “Vamos ter de aprender a viver com o siluro.”
Investigador Filipe Ribeiro confirma impossibilidade de erradicar siluro invasor; após remover 254 peixes (2,3 ton), apenas gestão localizada viável. Dispersão humana continua apesar multas até 70 mil euros; pescadores reintroduzem por interesse recreativo, não comercial.










