[RESUMO] Autor reconstitui a trajetória de Julio Le Parc, expoente da arte cinética que morreu na última semana, aos 97 anos. Em sua avaliação, o argentino radicado em Paris foi um experimentador que, durante sete décadas de produção artística, se ocupou do mesmo problema: o olho de quem olha, a única variável que lhe parecia comum a todas as pessoas, sem distinção de cultura ou fortuna.

Em 1965, Martha Le Parc se deixou fotografar com um par de óculos absurdos: lentes recortadas, prismas, espelhinhos montados em uma armação que partia o rosto de quem os usava e o mundo diante dele. Faziam parte de uma série de 12 modelos que Julio Le Parc batizou de "Óculos para uma Outra Visão".

Não eram acessório nem piada. Eram um instrumento, um aparelho construído para impedir que o olho recebesse a imagem de frente, inteira, em paz. Quem os colocava via colorido, partido, às vezes invertido. Via, sobretudo, que olhar é uma operação, uma experiência, não um dom.

Aos 97 anos, poucos meses antes de morrer, ele também recusava a palavra arte. Não era artista, dizia, nem fotógrafo nem escritor: era um experimentador. A frase tem a aparência da modéstia e o fundo de um programa. Quem experimenta não contempla: interfere, mede, altera uma variável e observa o que acontece. A variável que o ocupou por sete décadas foi sempre a mesma, a única que lhe parecia comum a todas as pessoas, sem distinção de cultura ou de fortuna: o olho de quem olha.